Publicidade
970×250

Peritos estimam que fator de sustentabilidade pode vir a cortar 41% da pensão se regra não mudar

Peritos alertam que fator de sustentabilidade, embora tenha sido inovador, é hoje um mecanismo com coerência reduzida. Recomendam fim da dupla penalização e reforço da idade pessoal da reforma.

Partilhar

Se as regras não mudarem, quem decidir pedir a reforma antecipada em 2050 poderá perder cerca de 28% da sua pensão só pela aplicação do chamado fator de sustentabilidade. Em 2100, esta penalização — que é atualizada anualmente em função da esperança média de vida — poderá chegar a 41%. As previsões são do grupo de trabalho que estudou a sustentabilidade da Segurança Social, que defende que este corte autónomo deveria ser eliminado, sendo incorporada na outra penalização que já é aplicada a quem decide passar à reforma antes da idade normal.

“O fator de sustentabilidade foi introduzido no sistema português de pensões como um mecanismo automático de ajustamento da evolução à longevidade. A sua lógica inicial assentava num princípio simples: o aumento da esperança média de vida aos 65 anos deveria ser refletido no valor inicial da pensão, de modo a conter o valor atual esperado das prestações futuras“, relatam os especialistas, no relatório o “Reformas as pensões em Portugal: por um sistema sustentável, adequado e justo — um contrato entre gerações”, a que o ECO teve acesso.

Ler maisPeritos recomendam mudanças nas reformas antecipadas

“A evolução legislativa alterou, contudo, a natureza do mecanismo“, alertam os peritos, que referem que hoje esse fator incide, sobretudo, sobre “determinadas modalidades de reforma antecipada“.

Face à evolução da esperança média de vida, o fator de sustentabilidade aplicado às pensões antecipadas subiu para 17,63% este ano, conforme já tinha calculado o ECO. Agora, os especialistas projetam que, a manterem-se as regras de atualização, esta redução das pensões “tenderá a aproximar-se de 28% em 2050 e 41% em 2100“.

A própria idade normal de acesso à pensão de velhice está também indexada à evolução da esperança média de vida aos 65 anos, o que significa, destaca o grupo de trabalho, que o sistema português passou a combinar “dois instrumentos de adaptação à longevidade”, o que resulta num “problema de coerência atuarial”.

“Quando a longevidade é já incorporada na idade normal de acesso à pensão, a aplicação adicional do fator às pensões antecipadas pode traduzir-se numa dupla penalização“, avisam os especialistas, que alertam que a situação é ainda agravada já que quem se reforma antecipadamente, pelo regime geral, sofre também uma penalização de 0,5% por cada mês antecipado face à idade normal. “Pode originar reduções superiores às necessárias para assegurar a neutralidade atuarial”.

Ler maisAfinal, Segurança Social tem défice de 1,9 mil milhões

“O mecanismo atual não é, por isso, uma regra atuarial completa, mas antes uma penalização demográfica simplificada“, atira o grupo de trabalho, que frisa também que a atual fórmula de atualização utiliza uma medida média de longevidade que não reflete a heterogeneidade socioeconómica da mortalidade, “penalizando potencialmente trabalhadores com carreiras longas, baixos salários, profissões penosas ou menor esperança de vida efetiva”.

Tal como avançou esta manhã o ECO, os especialistas propõem que o fator de sustentabilidade seja eliminado enquanto penalização autónoma, sendo incorporado numa tabela única de ajustamentos atuariais, calculada, por exemplo, com base nas probabilidades de sobrevivência, taxa de desconto e indexação das pensões em pagamento.

“O fator de sustentabilidade português foi uma inovação relevante, mas a sua evolução reduziu a coerência técnica do mecanismo. A prioridade de reforma deve ser eliminar a dupla penalização, substituir regras fragmentadas por ajustamentos atuariais transparentes, reforçar a idade pessoal de acesso para carreiras longas, tratar riscos sociais específicos por instrumentos próprios e criar uma governação atuarial independente”, defendem os peritos.

Nova regra para atualizar as pensões?

Outra das recomendações deixadas no relatório a que o ECO teve acesso — que já tinha sido sinalizada na apresentação feita pelo professor Jorge Bravo esta terça-feira — é a reformulação do mecanismo de atualização anual das pensões.

“A regra vigente, semiautomática, combina a variação do índice de preços no consumidor com a média do crescimento real do PIB, diferenciando as taxas por escalões definidos em função do Indexante dos Apoios Sociais, o que a torna previsível e protege mais intensamente as pensões de menor valor, mitigando o risco de pobreza“, começa por reconhecer o grupo de trabalho.

Ler maisAlmofada das pensões renderia o dobro sem amarras da dívida

Ainda assim, aponta três fragilidades: a fórmula, indica, mistura objetivos contributivos e redistributivos “sem hierarquia explícita”; opera por limiares discretos, o que resulta em pensões de valor muito próximo a ser alvo de atualizações diferentes; e não tem ligação direta à base contributiva que financia o sistema, o que pode levar a atualizações positivas mesmo em anos em que a massa salarial evolui abaixo da despesa com pensões. Assim, o mecanismo não consegue funcionar como estabilizador automático.

Por isso, os peritos recomendam a “substituição dos escalões rígidos por uma função contínua de indexação composta por três elementos: uma componente de inflação, de resposta rápida, que protege o poder de compra; uma componente de crescimento real partilhável, preferencialmente ligada à evolução da massa salarial contributiva (com o PIB como proxy apenas complementar) e suavizada por médias móveis plurianuais; e uma componente explícita de sustentabilidade, ativada apenas perante desequilíbrios objetivos e persistentes, com ajustamentos graduais, limitados e transparentes”.

Os especialistas defendem também que, em qualquer cenário (isto é, sejam feitas reformas mais ou menos ambiciosas), a função redistributiva deve ser exterior ao regime contributivo e sujeita a regras próprias ligadas à inflação e a indicadores de rendimento mediano ou de limiar da pobreza. “Substituindo, no conjunto, a discricionariedade das atualizações extraordinárias por regras automáticas e auditáveis“, lê-se no documento a que o ECO teve acesso.

Depois da apresentação deste relatório, o Governo já fez saber, como adiantou o ECO, que não tem intenção de avançar com uma reforma estrutural da Segurança Social, na atual legislatura. Considera, ainda assim, que esta análise coordenada por Jorge Bravo é um “contributo para o debate público“.

Partilhar

Comentários (3)

  • pedro lopes

    As reformas/pensões têm de sair das mãos do estado e serem geridas pelos próprios trabalhadores em sistemas de pensões privados, tal como existiam no final do século 19, tal como hoje existem na Holanda, Suiça, etc Cada um que escolha um fundo e pensões ou vários e que destine 15% ou 20% do valor bruto de salário para depositar automaticamente no fundo todos os meses até a idade da reforma, tal como acontece noutros países, porque isto gerido pelo estado vai acabar todo o mundo que descontou a receber 700€ por mês e quem não descontou… Também. E isso não é justo.5% dos descontos para a segurança social, os restantes 10% ou 15% para fundos privados.

  • Carlos Canelas

    corrupção, execrável, energúmeno, mentecapto, reles, nojento, sabujo, abjecto, ordinário, repugnante, biltre, escroque

  • LFM

    Irra, ECO. Vocês são piores que os marretas! 

Precisa fazer login para poder comentar. Entrar

Publicidade
728×90

Receba o melhor do ECO na sua caixa de entrada

15 newsletters sobre economia, mercados, IA, direito e muito mais.