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Joshua Benoliel, o fotógrafo que há 114 anos captou os lisboetas a ver o eclipse

A 17 de abril de 1912 o pioneiro do fotojornalismo registou lisboetas a fazerem o que milhões de portugueses vão fazer esta quarta-feira — olhar para o céu e ver a Lua a tapar o Sol.

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Nas paredes da redação do ECO, em Lisboa, estão penduradas 13 molduras com fotografias de Joshua Benoliel, um dos pioneiros do fotojornalismo em Portugal e que deu o nome à rua que acolhe o jornal (daí o motif decorativo). As imagens revelam o olhar abrangente que marcou a carreira do autor. Algumas fotografias são noticiosas — uma multidão frente ao Paços da Cidade na proclamação da República ou agentes da polícia no local de um acidente ferroviário. Outras, no entanto, são mais intimistas e do quotidiano: crianças a divertirem-se nas águas do rio Tejo, varinas a limpar o peixe para vender ou trabalhadores a beberem água num chafariz numa pausa nas entregas a cavalo.

Mas há uma que se destaca, porque combina a vertente de grande evento e a de fotografia de rua, de populares e como estes veem um momento histórico. E especialmente também porque o evento retratado a 17 de abril de 1912 — um eclipse solar total — se repete apenas esta quarta-feira, passados mais de 114 anos.

Numa rua tipicamente inclinada no centro histórico de Lisboa, Benoliel captou uma dezena de pessoas a olharem para o céu, tentando observar o momento em que a Lua passa em frente ao Sol. Em contraste com as muitas fotos de multidões tiradas pelo fotojornalista e também com as mais individualizadas de uma ou duas pessoas na mesma atividade, esta ‘apanha’ uma variedade de lisboetas, quiçá pessoas que vivem ou trabalham no mesmo bairro, e que partilham um momento único.

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À esquerda um homem de fato, colete e gravata. Na outra ponta um que, dado o uso de avental, aparenta trabalhar no ramo alimentar. No meio, outro homem, várias mulheres e duas crianças, todos concentrados, tal como milhões de portugueses vão estar esta tarde entre as 8h33 e as 20h23. Vários seguram em frente aos olhos material para improvisar um filtro, para reduzir a intensidade e o dano de olhar diretamente para o Sol, um perigo que nos últimos dias provocou uma corrida a oculistas e outras lojas na busca por óculos apropriados.

“Um fotojornalista não é um ‘bate-chapas’”, lê-se na secção ‘Imortais’ do site do News Museum, um museu dedicado às notícias, aos media e à comunicação situado em Sintra. “Isso é evidente em Benoliel”.

Ele fotografa os principais acontecimentos do seu tempo, mas além do conteúdo, as suas fotografias são esteticamente belas“, adianta, na página dedicada ao fotojornalista. “Momentos importantes da História de Portugal são recordados a partir ao seu trabalho.”

“Fotografa tudo, com coragem e determinação”

Joshua Benoliel nasceu em Lisboa a 13 de janeiro de 1873, refere o Arquivo Municipal de Lisboa. Começou a trabalhar na Alfândega de Lisboa, ao lado do fotógrafo Chaves Cruz, ao mesmo tempo que se iniciava na fotografia como fotógrafo amador. Até 1902 trabalhou com este estatuto e só posteriormente se assume como fotógrafo profissional.

Ao longo de 30 anos de atividade, Joshua Benoliel dedica-se ao fotojornalismo, relatando em imagens vivas todos os acontecimentos ou factos históricos do momento. “Fotografa tudo, enfrentando com coragem e determinação a sociedade agressiva e instável do período em que viveu”, continua a biografia no arquivo municipal, adiantando que Benoliel retrata a visita de Afonso XIII a Portugal, a de Eduardo VII a Lisboa, a família real portuguesa, os tumultos sociais do período republicano, as lutas pelo poder, as comemorações e inaugurações deste tempo, o quotidiano, legando ao país um manancial de imagens que rondam os 60.000 clichés, termo usado na fotografia dessa altura para designar a chapa ou matriz metálica usada para reproduzir uma imagem.

Entre 1906 e 1918, Benoliel é repórter fotográfico do jornal “O Século”, abandonando temporariamente este cargo para regressar em 1924 e aí permanecer até à data do seu falecimento, em 1932.

O seu mérito é reconhecido internacionalmente, sublinha a nota do arquivo municipal, tendo chegado a correspondente da revista “ABC” espanhola e de algumas revistas brasileiras. Em Portugal, colaborou com as revistas “Ilustração Portuguesa”, “O Brasil-Portugal”, “O Ocidente” e com o jornal “O Século”. Em 1931 a revista “Repórter X” elogiava-o nos seguintes termos: “A revista Ocidente; a Mala da Europa onde se estreou um dos maiores repórteres fotográficos nacionais e o primeiro a fazer da arte profissão e a dignificá-la —, o velho Benoliel, e, sobretudo, O Século — graças ainda a Benoliel — foram os órgãos da imprensa portuguesa que iniciaram e desenvolveram o jornalismo fotográfico”.

Recebeu várias condecorações: as “Palmas” da Academia Francesa, aquando da visita do Presidente Loubet a Lisboa; em 1909 foi condecorado com a Ordem de Santiago, por Afonso XIII e, em 1929, recebe a Ordem do Mérito Civil Espanhola e a Ordem Militar de Santiago de Espada proposta pelo Presidente da República, Marechal Carmona.

Após a sua morte, a 3 de fevereiro de 1932, em Lisboa, todo o seu arquivo passou para a posse dos seus familiares, nomeadamente para o filho Judah Benoliel, que se encarregou da venda do acervo documental e iconográfico.

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