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Eclipse solar dura apenas horas, mas turismo das estrelas cresce todo o ano em Portugal

O eclipse solar de 12 de agosto deverá atrair milhares de pessoas, mas é apenas a face mais visível de uma tendência: o astroturismo cresce em Portugal e impulsiona os territórios do interior.

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O eclipse solar de 12 de agosto deverá atrair milhares de pessoas a vários pontos do país, mas o fenómeno surge numa altura em que o chamado astroturismo ganha expressão em Portugal. O aumento da procura por experiências ligadas ao céu noturno, a criação de novos destinos certificados e o investimento em observatórios e centros de ciência mostram que o setor deixou de depender de eventos excecionais para afirmar uma oferta disponível durante todo o ano.

O interesse pelo astroturismo tem vindo a crescer em Portugal, acompanhando uma tendência internacional de procura por experiências ligadas à natureza, ao bem-estar e ao contacto com os territórios. “Embora continue a afirmar-se como um segmento de nicho, Portugal reúne condições naturais muito favoráveis para esta atividade, nomeadamente a qualidade dos seus céus noturnos, os baixos níveis de poluição luminosa em várias regiões do interior e uma crescente rede de operadores, alojamentos e equipamentos especializados“, explica ao ECO o Turismo de Portugal.

A entidade lembra que o astroturismo vai muito além da observação astronómica. Além de complementar produtos como o turismo de natureza, cultural ou o enoturismo, contribui para “combater a sazonalidade, prolongar as estadias e dinamizar territórios de baixa densidade, beneficiando alojamentos, restauração, empresas de animação turística e comércio local“.

Apesar do crescimento, o Turismo de Portugal reconhece que o segmento continua emergente e que ainda não existem indicadores estatísticos específicos para medir o seu peso na atividade turística nacional. Ainda assim, está a reforçar a monitorização da atividade e criou recentemente um grupo de trabalho de astroturismo para ajudar a estruturar esta oferta.

O astroturismo reúne diferentes dimensões numa única experiência.

Turismo de Portugal

A crescente procura explica-se também pela mudança no perfil dos viajantes. Segundo o Turismo de Portugal, o astroturismo reúne diferentes dimensões numa única experiência, cruzando lazer, conhecimento científico, educação ambiental, fotografia, observação da natureza e descoberta dos territórios. “É precisamente esta capacidade de cruzar diferentes interesses que torna este produto singular e apelativo para públicos muito diversos“, afiança a entidade.

O exemplo mais consolidado é o Dark Sky Alqueva. Criado em 2007 e distinguido em 2011 como o primeiro Destino Turístico Starlight do mundo, regista atualmente um crescimento médio anual de cerca de 38% no número de visitantes, recebe turistas de mais de 27 países — sendo os estrangeiros já maioria — e estima um impacto económico anual de 9,3 milhões de euros no território.

Quando o projeto nasceu, o objetivo era essencialmente promover a observação do céu noturno. Hoje, o céu é apenas o ponto de partida. A presidente do Dark Sky Alqueva, Apolónia Rodrigues, explica ao ECO que o perfil dos visitantes mudou e que “o astroturismo deixou claramente de ser um nicho residual”. Além da astronomia, quem visita o Alqueva procura experiências que combinam património, gastronomia, vinhos, atividades náuticas, fotografia, bem-estar e contacto com a natureza, refletindo uma procura crescente por destinos menos massificados e por experiências autênticas.

O astroturismo deixou claramente de ser um nicho residual.

Apolónia Rodrigues

Presidente do Dark Sky Alqueva

A presidente do Dark Sky Alqueva estima que a atividade já envolva mais de 50 parceiros e tenha criado mais de 30 postos de trabalho diretos. O impacto vai além das sessões de observação. Os visitantes recorrem ao alojamento, restauração, comércio local e outras atividades, enquanto o facto de as experiências decorrerem sobretudo à noite ajuda a prolongar a permanência no destino e a reduzir a sazonalidade. No Alqueva, onde existem cerca de 286 noites limpas por ano, o céu transformou-se num recurso turístico capaz de gerar emprego, notoriedade e atividade económica num território do interior.

Mas o Alqueva deixou de ser um caso isolado. Nos últimos anos multiplicaram-se projetos de valorização do céu noturno noutras regiões do país. O Turismo de Portugal destaca igualmente as Aldeias do Xisto e o Dark Sky Vale do Tua, ambos certificados como Destinos Turísticos Starlight, considerando que estes projetos têm contribuído para estruturar uma oferta distribuída pelo Alentejo, Centro e Norte.

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Segundo a ADXTUR – Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto, desde a inauguração do Geoscope – Observatório Astronómico de Fajão, em 2024, a procura pelas experiências ligadas à astronomia tem registado um crescimento consistente da procura, sobretudo entre visitantes que procuram uma primeira experiência de observação do céu.

Além das observações astronómicas, a oferta inclui caminhadas noturnas, canoagem sob as estrelas, workshops de astrofotografia e programas de interpretação da natureza. Segundo a ADXTUR, o astroturismo evoluiu para um conceito mais amplo de “turismo noturno”, no qual o céu funciona como ponto de partida para descobrir a paisagem, a cultura, a gastronomia e o património do território.

Também o perfil dos visitantes diversificou-se. Se inicialmente predominavam os entusiastas da astronomia, hoje as experiências atraem famílias, casais, fotógrafos de natureza e viajantes que procuram experiências sustentáveis e destinos menos massificados. Segundo a ADXTUR, muitos visitantes fazem no Geoscope o primeiro contacto com o astroturismo, enquanto em Constância continuam a destacar-se as escolas, mas também famílias, grupos de amigos e turistas nacionais e alguns visitantes estrangeiros.

No Centro Ciência Viva de Constância, dedicado à astronomia há 22 anos, passam anualmente entre 22 mil e 28 mil visitantes. Lina Canas, diretora executiva do centro, considera que o interesse pela astronomia tem aumentado, impulsionado pela divulgação científica, pelas redes sociais e por uma geração que cresceu habituada a integrar a ciência nos momentos de lazer. “As atividades de observação são as atividades centrais da nossa programação e as que têm tido sempre mais procura”, afirma.

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Ao mesmo tempo, a diretora executiva do Centro Ciência Viva de Constância alerta para um dos maiores desafios do setor: a poluição luminosa. “O nosso Centro apresenta-se como um oásis no meio de todo este ruído luminoso que nos impede de ver as estrelas e outros objetos celestes“, afirma.

O crescimento da procura tem sido acompanhado por investimento em equipamentos especializados. Em Constância, a aposta passa por telescópios de topo de gama, cúpulas de observação e experiências de cerca de duas horas acompanhadas por mediadores científicos. Paralelamente, o Turismo de Portugal tem apoiado projetos através do Programa Valorizar, financiando equipamentos, formação de guias especializados e outras infraestruturas ligadas ao astroturismo.

Lina Canas sublinha ainda que estes eventos funcionam como porta de entrada para conhecer o território. “As pessoas vêm pelo eclipse, pelo Centro Ciência Viva, mas ficam pela oferta diferenciadora que a nossa região oferece.”

As pessoas vêm pelo eclipse, pelo Centro Ciência Viva, mas ficam pela oferta diferenciadora que a nossa região oferece.

Lina Canas

Diretora executiva do Centro Ciência Viva de Constância

O eclipse solar de 12 de agosto surge, assim, como mais um impulso para um segmento que já vinha a crescer. No Dark Sky Alqueva, a sessão organizada para acompanhar o fenómeno esgotou antecipadamente. Nas Aldeias do Xisto, as cerca de 200 vagas disponibilizadas também se esgotaram rapidamente. Em Constância são esperados mais de 600 participantes, dos quais 400 se inscreveram ainda em março.

Além do eclipse, muitos visitantes deverão permanecer nos destinos para observar o pico da chuva de meteoros Perseidas, previsto para a noite de 12 para 13 de agosto. No caso de Constância, a expectativa é precisamente que a coincidência entre os dois fenómenos prolongue a estadia dos visitantes na região. Tanto os operadores como o Turismo de Portugal consideram que grandes fenómenos astronómicos funcionam como momentos de descoberta para novos públicos. O objetivo passa por transformar um evento pontual numa experiência completa, combinando observação do céu com património, gastronomia, natureza e cultura, incentivando os visitantes a regressarem ao longo do ano.

O eclipse dura apenas algumas horas, mas o interesse pelo céu noturno está longe de ser passageiro. À medida que cresce a procura por experiências ligadas à natureza, à ciência e ao turismo sustentável, Portugal vai consolidando uma oferta que transforma a escuridão num ativo turístico e num fator de desenvolvimento económico para os territórios do interior.

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