As novas regras da União Europeia (UE) que obrigam as chinesas Shein e Temu a adaptar os modelos logísticos exigem também ajustes operacionais aos CTT [eco_stock label=”CTT” index=”22931489,51,814″ type=”inline”], mas ao mesmo tempo trazem “uma janela de oportunidade” de aquisições e parcerias num contexto de maior complexidade e procura por serviços de desalfandegamento e fulfilment, revelou ao ECO o CEO do grupo, Guy Pacheco.
“Estas alterações regulatórias estão a provocar uma reorganização das cadeias logísticas, em particular na forma e no momento em que os bens entram na Europa em especial os vindos da Ásia”, referiu Pacheco, em respostas escritas, sobre as regras recentemente introduzidas por Bruxelas, nomeadamente o fim da isenção de de minimis, com a introdução a 1 de julho de uma taxa de três euros em produtos de valor inferior a 150 euros encomendados fora da região.
Ler maisProcura por novos Certificados é “incremental”, dizem CTTO CEO, que sucedeu a João Bento no cargo em maio deste ano, explicou que os bens estão a ser progressivamente importados, desalfandegados em modelos B2B e armazenados na Europa antes de serem vendidos e só são expedidos após serem vendidos, quando até aqui na sua grande maioria saíam diretamente dos seus países de origem para o consumidor, após desalfandegamento.
“Estas mudanças provocaram oscilações significativas nos fluxos de tráfego entre aeroportos europeus, com maior procura registada nos aeroportos em países com acesso terrestre mais direto a partir da Ásia e melhores condições de distribuição para o resto da Europa”, resumiu.
As mudanças exigiram medidas de ajustamento à Cacesa, operadora logística espanhola comprada pelos CTT no ano passado. Na divulgação dos resultados do primeiro semestre, a 28 de julho, os CTT sublinharam o “contexto regulatório desafiante que está a conduzir a volatilidade em todo o setor” e assumiram estar a tomar medidas de proteção que incluem a “redução da força de trabalho nas geografias” da Cacesa. Face a esta turbulência, que a empresa espera temporária, reviu em baixa o guidance para 2026, esperando agora um resultado operacional recorrente no intervalo de 115 a 125 milhões de euros. A previsão anterior apontava para pelo menos 125 milhões, expectativa reiterada em março. É, ainda assim, um crescimento face a 2025.

Shein e Temu reforçaram presença na Europa
Guy Pacheco sublinha que as alterações das regras estão a tornar as operações de comércio eletrónico internacional mais exigentes do ponto de vista aduaneiro e fiscal, e daí parte para a explicação das oportunidades, dizendo que as novas regras aumentam a relevância de operadores com conhecimento especializado, capacidade tecnológica e escala internacional. “Neste contexto, cresce a procura por serviços de maior valor acrescentado, como o desalfandegamento, a gestão aduaneira e novas oportunidades no fulfilment.”
O CEO conta que alterações têm levado plataformas como a Shein e a Temu a adaptar os seus modelos logísticos, reduzindo gradualmente a dependência do envio direto de pequenas encomendas a partir da Ásia e reforçando a sua presença na Europa através de armazéns e centros de distribuição locais, especialmente na Europa Central e de Leste. Esta estratégia permite a estas plataformas concentrar mercadorias dentro da União Europeia, simplificar os processos aduaneiros, reduzir tempos de entrega e mitigar o impacto dos novos requisitos fiscais e regulamentares.
À medida que o mercado evolui para modelos assentes em desalfandegamento B2B, armazenagem e ‘fulfilment’, poderá fazer sentido expandir capacidades, de forma orgânica ou através de parcerias e aquisições, sempre que estas contribuam para servir melhor os clientes e gerar valor
A crescente complexidade das operações de comércio eletrónico internacional está a aumentar a procura por serviços especializados de desalfandegamento e fulfilment. “Para os CTT, isto representa uma oportunidade para apoiar empresas internacionais e plataformas de e-commerce na entrada e distribuição de mercadorias no mercado europeu, assegurando processos aduaneiros mais eficientes, conformidade regulamentar e uma gestão logística integrada”, vinca Pacheco.
“Através da Cacesa e das restantes capacidades do Grupo CTT, é possível oferecer soluções que abrangem toda a cadeia de valor, desde o desalfandegamento e a armazenagem até à distribuição final, reforçando o posicionamento dos CTT como parceiro logístico de referência para operadores de comércio eletrónico e comércio internacional”, garante.
Questionado se essas valências podem levar os CTT a desenvolver ou comprar grandes centros que apoiem empresas para essas tarefas na Ibéria, responde com a cautela que o caracterizou como CFO do grupo dos correios durante muitos anos: “Esta evolução reforça o potencial da Ibéria como plataforma logística regional e cria oportunidades de crescimento em áreas especializadas da cadeia logística, com maior diferenciação e complexidade operacional”, disse. “Assim, como é natural, estaremos sempre atentos e disponíveis para avaliar oportunidades que reforcem as nossas capacidades logísticas e proposta de valor para clientes de e-commerce e comércio internacional.”
“À medida que o mercado evolui para modelos assentes em desalfandegamento B2B, armazenagem e fulfilment, poderá fazer sentido expandir capacidades, de forma orgânica ou através de parcerias e aquisições, sempre que estas contribuam para servir melhor os clientes e gerar valor”, vincou.
Esse esforço traduz-se, em concreto, em investimento continuado em tecnologia, na capacitação das equipas e na otimização da rede logística na Península Ibérica, complementado, sempre que faça sentido, pela avaliação seletiva de parcerias ou aquisições que acelerem esta trajetória
Na visão de Pacheco, a evolução regulatória deverá contribuir para uma maior consolidação do setor, uma vez que os operadores de menor dimensão, em particular os que operam no espaço de desalfandegamento, podem ter mais dificuldade em absorver o aumento da complexidade operacional, tecnológica e legal associado aos novos requisitos aduaneiros.
“A janela de oportunidade resulta dessa transformação que o mercado está a atravessar“, acrescentou, garantindo que e combinação da experiência da Cacesa em operações transfronteiriças com a rede logística e a capacidade operacional do grupo na Península Ibérica “cria condições favoráveis para captar este crescimento”.
Nesse sentido, o foco passa por continuar a reforçar competências, tecnologia e capacidade operacional nestas áreas, acompanhando a evolução das necessidades dos clientes e avaliando oportunidades que permitam consolidar a presença estratégicos da cadeia logística.
“Esse esforço traduz-se, em concreto, em investimento continuado em tecnologia, na capacitação das equipas e na otimização da rede logística na Península Ibérica, complementado, sempre que faça sentido, pela avaliação seletiva de parcerias ou aquisições que acelerem esta trajetória”, conclui o CEO.





