O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na quarta-feira “a operação económica mais devastadora já realizada” contra o Irão, apelidando-a como o “Dia D económico” e referindo-se a uma “guerra económica sem precedentes”, mas sem fornecer detalhes sobre as medidas em causa. A nova ofensiva procura isolar economicamente Teerão e atingir também os países que continuem a manter relações comerciais com o regime iraniano.
No dia seguinte, o secretário do Tesouro norte-americano também prometeu a “maior operação coordenada de isolamento económico do mundo” e marcou para segunda-feira uma conferência de imprensa para detalhar o pacote. Scott Bessent sustentou ainda que as sanções económicas contra Teerão tornam menos provável o reatamento das operações miliares em grande escala contra a República Islâmica.
Ler maisMNE iraniano: plano de Trump está "destinado ao fracasso"“Será uma combinação de isolamento económico como o mundo nunca viu e a continuação do bloqueio do estreito de Ormuz, que impedirá a entrada ou saída de qualquer coisa dos portos iranianos”, disse Scott Bessent.
Washington já aplica há décadas sanções ao Irão – desde a Revolução Islâmica de 1979 – e, desde o início da guerra, em fevereiro, ampliou a pressão sobre a frota clandestina de petróleo, transportadores, seguradoras, redes financeiras e empresas envolvidas na aquisição de armamento.
A diferença agora está na intenção de Trump alargar o custo das sanções para fora do Irão, não ameaçando apenas empresas iranianas, mas também os países parceiros de Teerão.

Cortar receitas petrolíferas
O primeiro alvo deverão ser as receitas petrolíferas do Irão. Mais de 80% do petróleo iraniano exportado por via marítima teve a China como destino em 2025, segundo dados da Kpler citados pela Reuters. Nesse ano, Pequim terá comprado uma média de 1,38 milhões de barris por dia de crude iraniano, grande parte adquirido por refinarias independentes chinesas, conhecidas como teapots.
Estas refinarias estão relativamente menos expostas ao sistema financeiro norte-americano do que os grandes grupos energéticos internacionais, tornando mais difícil para Washington pressioná-las.
Ler maisEUA ameaçam Irão com isolamento económico "sem precedentes"Contudo, a maior compradora de petróleo iraniano poderá enfrentar pressões adicionais por parte dos Estados Unidos nas suas encomendas. Em abril, o Departamento do Tesouro norte-americano impôs sanções secundárias a empresas chinesas ligadas à compra de petróleo iraniano e advertiu bancos chineses de que também poderão ser alvo caso facilitem estas transações.
Apesar de a China ser o parceiro mais sonante do regime de Teerão, não é o único. Os Emirados Árabes Unidos foram durante anos uma das principais portas económicas do Irão. Em 2024, segundo dados da Organização Mundial do Comércio citados pela agência noticiosa, cerca de 30% das importações iranianas vieram dos Emirados Árabes Unidos (EAU), num valor de aproximadamente 21 mil milhões de dólares (cerca de 18 mil milhões de euros), enquanto o país representou 13% das exportações iranianas. Grande parte da relação comercial passa por reexportações a partir do Dubai.
Esta semana, os Emirados suspenderam todas as transações financeiras e económicas com o Irão até novo aviso, alegando uma escalada militar por parte de Teerão com ameaça de mísseis, o que reacendeu as relações tensas entre os dois países.
Estancar a fonte monetária
Outra possibilidade passa por apertar ainda mais a rede financeira iraniana. O Tesouro norte-americano já sancionou pessoas, entidades, navios e aeronaves desde o início do segundo mandato de Trump, incluindo redes relacionadas com petróleo, transporte, criptomoedas e aquisição de armamento. A nova ofensiva poderá alargar essa estratégia a bancos e intermediários que ajudam Teerão a movimentar receitas.
Ler maisIrão vai usar armas mais destrutivas se guerra recomeçarUma hipótese particularmente sensível seria sancionar grandes bancos chineses suspeitos de processarem fundos iranianos. Washington já avisou que instituições desta dimensão poderiam ficar sob ameaça de sanções secundárias. Porém, sanções a grandes bancos chineses podem transformar a guerra económica contra Teerão numa nova frente de confronto entre Washington e Pequim.
Entretanto, Pequim já deixou claro que é contra a “guerra económica” norte-americana. “As sanções e as pressões não permitirão resolver o problema [de Ormuz]. A China apela a todas as partes envolvidas para que tomem medidas responsáveis e resolvam o problema por via política e diplomática”, afirmou Lin Jian, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês.
Os Estados Unidos também mantêm os fundos iranianos congelados no seu território. Donald Trump afirmou, em julho, que o dinheiro iraniano na posse dos EUA seria usado para compensar danos a navios atingidos no Golfo.

Tarifas contra quem negociar com Teerão
A Administração Trump também poderá usar o comércio para punir países que mantenham relações com o Irão e está a estudar tarifas secundárias sobre bens importados de países que ajudem o comércio ou a aquisição de armamento iranianos, segundo a Reuters. A ideia seria tornar economicamente mais caro para países terceiros manter relações com Teerão.
O presidente norte-americano avisou na sua rede social que qualquer país que permita às suas instituições financeiras, empresas, aeroportos ou entidades governamentais proporcionar “qualquer tipo de tábua de salvação” ao Irão enfrentará, por sua vez, consequências económicas, sem detalhar as implicações das consequências.
Esta opção poderá enfrentar obstáculos legais e políticos. A autoridade usada anteriormente para algumas tarifas foi contestada pelo Supremo Tribunal dos EUA e uma nova legislação que poderá dar a Trump poderes adicionais ainda precisa de avançar no Congresso. A Câmara dos Representantes do país aprovou em julho uma resolução sobre poderes de guerra que ordena o republicano a retirar as forças armadas do conflito com o Irão, segundo o The Guardian.
Qual será o impacto para o Irão?
Teerão já prometeu uma resposta dura contra a novas sanções. O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas iranianas afirmou que o país responderá em terra, mar, ar, defesa aérea e ciberespaço. “Com prontidão em terra, mar, ar, defesa aérea e ciberespaço, as forças armadas do Irão responderão às novas ameaças do inimigo com respostas esmagadoras, punitivas e devastadoras”, disse o major-general Ali Abdollahi, citado pela Reuters.
Ler maisIrão mantém Ormuz fechado até EUA cumprir compromissosO Parlamento iraniano também está a preparar mecanismos para contornar as “sanções injustas”, incluindo o reforço do comércio bilateral com o Iraque e a utilização de moedas nacionais para reduzir a dependência do dólar, avançou a mesma agência noticiosa.






