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Sismo na Colômbia atinge economia travada pelo fraco investimento e inflação

Fortemente dependente da exportação de commodities, 4.ª maior economia da América Latina deverá continuar a moderar o crescimento nos próximos anos. Quebra de investimento e inflação são travão.

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Menos de dois meses depois de terem ido às urnas eleger um novo Presidente, os colombianos foram surpreendidos, esta segunda-feira, por um sismo de magnitude 7,4 que atingiu o oeste do país, provocando estragos e mais de uma centena de mortos. Depois de anos de quebra do investimento, inflação elevada e aumento do endividamento público, a quarta maior economia da América Latina recuperou em 2025, mas a expectativa é que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) continue a arrefecer nos próximos anos. Empresas portuguesas como a Jerónimo Martins, ou a Mota-Engil têm presença no país, que virou à direita nas últimas eleições.

Com cerca de 53 milhões de pessoas, a Colômbia deverá ver o seu crescimento económico abrandar dos cerca de 2,5% atualmente para 2,4% em 2026 e 2,1% em 2027, segundo as estimativas da OCDE. “A inflação elevada, as condições monetárias restritivas e a incerteza deverão penalizar o investimento e moderar o consumo das famílias, enquanto os défices orçamentais ainda elevados continuarão a sustentar a atividade económica”, antecipa a OCDE, no seu mais recente outlook de junho.

“Os preços mais elevados do petróleo, associados à evolução do conflito no Médio Oriente, deverão apoiar temporariamente as receitas de exportação, mas também contribuir para aumentar as pressões inflacionistas”, acrescenta o mesmo documento, que prevê que a inflação aumente este ano, “impulsionada pela persistência da inflação dos serviços, pela indexação ao salário mínimo e pelo aumento dos preços da energia, antes de começar a diminuir gradualmente a partir do início de 2027″.

A taxa de inflação — de 5,84% em maio, face ao período homólogo — tem sido um dos principais problemas da economia colombiana, forçando o banco central do país a manter uma política restritiva, já que o índice se mantém bem acima do objetivo fixado de 3%, algo que, segundo as estimativas do FMI e da OCDE, apenas deverá acontecer em 2027.

O potencial de crescimento da Colômbia diminuiu de mais de 4% antes de 2010 para cerca de 2,5% atualmente, um ritmo que não permite reduzir de forma significativa a diferença de PIB per capita face às economias mais avançadas.

OCDE

Segundo a OCDE, “os riscos para as perspetivas económicas estão inclinados para o lado negativo, incluindo uma inflação mais persistente, atrasos na consolidação orçamental e uma procura externa mais fraca num contexto mundial mais volátil”. “O potencial de crescimento da Colômbia diminuiu de mais de 4% antes de 2010 para cerca de 2,5% atualmente, um ritmo que não permite reduzir de forma significativa a diferença de PIB per capita [8.562 dólares] face às economias mais avançadas”, constata a OCDE.

Retalho e construção mais expostas

Apesar de a Colômbia manter uma forte relação comercial e diplomática com Portugal, facilitando parcerias e acordos, a presença portuguesa no país é ainda reduzida. Além da Jerónimo Martins, que conta com mais de 1700 lojas Ara na Colômbia, das quais cerca de 200 foram encerradas devido ao sismo, há ainda construtoras com projetos no país, nomeadamente a Mota-Engil e a Teixeira Duarte.

A Mota-Engil instalou-se na Colômbia em 2011, sendo responsável, por exemplo, por executar um contrato de 450 milhões de euros para construir uma linha de metro com 13 quilómetros e 17 estações na cidade de Medellín – vai fornecer também as locomotivas para o “Metro de la 80”. Já a Teixeira Duarte está no país desde 2013 através de uma sucursal da sua participada “E.P.O.S. – Empresa Portuguesa de Obras Subterrâneas, S.A.

Na hotelaria, o Grupo Pestana abriu em junho de 2012 o seu primeiro e único hotel na Colômbia, o Pestana Bogotá 100, localizado na capital colombiana. No entanto, esta unidade deixou de fazer parte do grupo português e opera atualmente como Bogotá 100 Design Hotel. O grupo não dispõe de unidades hoteleiras ativas na Colômbia.

Já a EDP Renováveis decidiu abandonar os seus projetos na Colômbia, em dezembro de 2024, citando atrasos significativos no processo de licenciamento ambiental para a linha de transmissão, uma decisão que custou “perdas potenciais” de 700 milhões de euros. “Após uma revisão detalhada dos projetos, e dado tudo o que foi já mencionado, a EDPR considera que estes projetos não cumprem os critérios de investimento e perfil de risco da empresa, e, portanto, decidiu não avançar com os investimentos restantes necessários para construir os parques eólicos”, adiantou a empresa em comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), aquando do anúncio da saída da Colômbia.

Instabilidade política pressiona investimento

A empresa portuguesa não foi caso único, com o desinvestimento estrangeiro a ser um dos principais problemas da economia colombiana.

“O abrandamento do crescimento reflete uma estagnação prolongada da produtividade e uma forte queda da taxa de investimento. A utilização da mão-de-obra continua baixa, sendo particularmente reduzida a participação das mulheres no mercado de trabalho”, sustenta a OCDE.

Em relação às contas públicas, a organização refere que “prevê-se que a consolidação orçamental seja retomada, mas os défices continuarão elevados, pressionando em alta a dívida e os custos com juros”. “É necessária uma estratégia de consolidação mais ambiciosa e credível para aproximar novamente a dívida da sua referência de médio prazo e recuperar a confiança dos investidores”, recomenda. “O reforço da credibilidade das políticas públicas, a redução da incerteza regulatória e a melhoria do ambiente empresarial contribuiriam para apoiar o investimento privado e melhorar as perspetivas de crescimento a médio prazo”.

Segundo uma análise do BBVA, o défice total colombiano deverá situar-se em 6,7% do PIB em 2026, recuando para 6,2% em 2027. Já a dívida pública deverá manter-se acima de 60% do PIB. “Sem medidas adicionais do lado das receitas ou da despesa, a correção orçamental será limitada e gradual, pelo que será necessário definir uma estratégia que reforce a sustentabilidade das finanças públicas”, alerta o banco, numa nota publicada em junho.

Num país que tem estado dividido pelo medo e pela retórica, facilmente os ânimos se exaltam e transformam em violência, conforme aconteceu recentemente após a vitória eleitoral do candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella, apoiado politicamente pelo Presidente norte-americano, Donald Trump. Os resultados degeneraram em confrontos com a polícia em Bogotá e Cali, a terceira maior cidade do país. Milhares de manifestantes saíram às ruas sob o lema “Resistência”, contestando a vitória tangencial de Abelardo de la Espriella. Uma situação que não agrada a investidores.

“A nível interno, novos atrasos na consolidação orçamental poderão suscitar preocupações quanto à perda de credibilidade da política orçamental, além de enfraquecer ainda mais a confiança dos investidores e poderem eventualmente provocar uma interrupção súbita das entradas de capital”, argumenta o FMI, numa análise ainda antes das eleições. “O aumento das incertezas políticas e o agravamento da criminalidade violenta e da insegurança poderão condicionar a atividade económica e o desenvolvimento do setor privado”, avisava ainda.

Muito dependente da exportação de matérias-primas e com um reduzido grau de abertura ao exterior e muito, a economia colombiana apresenta uma vasta diversidade territorial, de recursos naturais e energéticos, com destaque para a exploração de petróleo (uma das suas principais atividades económicas e de exportação), gás natural, carvão (de que a Colômbia é o maior produtor regional) e energia hidroelétrica. Tem ainda uma produção agrícola relevante e reservas de ouro, esmeraldas, ferro, níquel e cobre.

No entanto, falta investimento. Segundo a Reuters, as empresas mineiras e petrolíferas estão prontas para investir milhares de milhões de dólares na Colômbia, após quatro anos de paralisação de novas atividades de exploração. Ainda assim, estas multinacionais apelam a De la Espriella para eliminar obstáculos regulatórios e de segurança, questões que levaram à saída de muitas empresas. Foi o que aconteceu com a portuguesa 8, que, no final de 2024, decidiu não avançar com os investimentos nos seus projetos eólicos de 0,5 GW na região de La Guajira, na Colômbia.

Entre 2023 e 2025, o investimento estrangeiro no setor da mineração e no petróleo caiu 34%, para cerca de 6,9 mil milhões de dólares, enquanto a produção petrolífera da Colômbia diminuiu 4%, para uma média de 746 mil barris por dia, e as reservas de petróleo bruto recuaram em 54 milhões de barris.

Entre 2023 e 2025, o investimento estrangeiro no setor da mineração e no petróleo caiu 34%, para cerca de 6,9 mil milhões de dólares, enquanto a produção petrolífera da Colômbia diminuiu 4%, para uma média de 746 mil barris por dia, e as reservas de petróleo bruto recuaram em 54 milhões de barris. Os dados do setor, citados pela Reuters, mostram ainda que as importações de gás natural dispararam, passando de apenas 3% do consumo interno em 2023 para 31%.

De La Espriella comprometeu-se a relançar a exploração e poderá recorrer a decretos para simplificar e encurtar os processos de licenciamento, incluindo as consultas públicas, invertendo as políticas do seu antecessor Gustavo Petro.

“Para recuperar a convergência dos rendimentos com as economias mais avançadas, é necessário relançar o investimento, reforçar a inovação e as qualificações e aumentar a participação das mulheres no mercado de trabalho”, destaca a OCDE.

Temas como o acesso à educação também necessita de melhorias urgentes. “Melhorar o acesso a uma educação de qualidade, sobretudo nas fases iniciais, permitiria reforçar as qualificações e aumentar a participação feminina no mercado de trabalho“, diz a OCDE. “O reforço da qualidade da regulação e da concorrência, especialmente em setores a montante, como o da eletricidade, contribuiria para melhorar o ambiente empresarial”, aponta ainda a organização.

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