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Riscos de catástrofes aumentam. Como o Japão os transforma em alavancas de crescimento

Perante o aumento dos fenómenos extremos, o Japão aposta na prevenção para proteger a economia, com infraestruturas, tecnologia e agricultura como parte da estratégia, destaca Fórum Económico Mundial.

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O risco de eventos climáticos extremos deixou de ser um problema ambiental para se tornar uma ameaça económica. Os danos provocados por estes fenómenos atingem infraestruturas, interrompem cadeias de abastecimento, afetam empresas e pressionam os orçamentos públicos. Para o Japão, a resposta passa cada vez mais por antecipar estes riscos e transformar o investimento em resiliência numa alavanca de crescimento.

Um novo relatório do Fórum Económico Mundial e da Deloitte, intitulado “Resilient Economies: Flood Adaptation Infrastructure Innovations from Japan”, defende precisamente esta mudança de abordagem: em vez de esperar pelo desastre para reparar os danos, governos e empresas devem investir antecipadamente em infraestruturas capazes de reduzir o impacto dos fenómenos extremos e, ao mesmo tempo, gerar valor económico.

Na última década, os desastres relacionados com o clima terão custado mais de dois biliões de dólares à economia global. Só em 2025, os dez eventos climáticos extremos mais destrutivos provocaram perdas diretas estimadas em 296 mil milhões de dólares, deixando ainda uma lacuna de cobertura de seguros de 167 mil milhões de dólares, de acordo com dados citados pelo Fórum Económico Mundial.

Contudo, o impacto vai muito além das perdas diretamente contabilizadas. Segundo dados divulgados pelo Fórum Económico Mundial, uma em cada quatro pessoas no mundo está exposta a riscos substanciais de inundação e cerca de 18 biliões de dólares de Produto Interno Bruto (PIB) estão localizados em zonas suscetíveis a cheias. Só em 2025, os desastres relacionados com a água provocaram perdas económicas de cerca de 360 mil milhões de dólares e deslocaram aproximadamente oito milhões de pessoas.

Fonte: Fórum Económico Mundial

Mas o custo da inação não se limita às perdas imediatamente registadas. Interrupções prolongadas da atividade, perturbações nas cadeias de abastecimento, perda de valor dos ativos e impactos no mercado de trabalho podem prolongar-se durante anos, absorvendo recursos que poderiam ser canalizados para investimento e serviços públicos.

Japão transforma risco em oportunidade

A experiência japonesa, salienta o relatório do Fórum Económico Mundial, mostra que a resiliência pode ser construída através de diferentes tipos de intervenção, combinando grandes obras de engenharia com soluções descentralizadas, tecnologia e colaboração entre os setores público e privado.

Um dos exemplos mais emblemáticos é o Canal de Descarga Subterrâneo Externo da Área Metropolitana, conhecido como G-Cans. Construído para proteger a Grande Tóquio e desenvolvido pelo Ministério da Terra, Infraestruturas, Transportes e Turismo do Japão em colaboração com as autoridades de Tóquio e Saitama, o sistema conta com 6,3 quilómetros de túneis subterrâneos que captam a água de rios em risco de transbordar.

A água é encaminhada para um reservatório subterrâneo com capacidade para 670 mil metros cúbicos, antes de ser bombeada para o rio Edogawa. Segundo o relatório, o número de famílias afetadas por inundações na região caiu de mais de 84 mil na década de 1980 para menos de seis mil na década de 2000. Até 2024, o sistema terá evitado danos estimados em 148,4 mil milhões de ienes, cerca de 943 milhões de dólares.

O benefício económico é evidente. A cidade de Kasukabe, anteriormente considerada demasiado exposta a cheias para atrair investimento, recebeu 28 empresas que criaram cerca de 3.200 postos de trabalho. O próprio G-Cans tornou-se também uma atração turística e um espaço de educação sobre alterações climáticas.

O exemplo demonstra como uma infraestrutura concebida para reduzir riscos pode também contribuir para revitalizar economias locais e tornar territórios mais atrativos para empresas e investimento, de acordo com o Fórum e a Deloitte.

Agricultura também pode funcionar como infraestrutura

O país asiático também recorre a soluções descentralizadas, nomeadamente através da utilização de arrozais como zonas temporárias de retenção de água.

A adaptação das estruturas de drenagem agrícolas existentes com válvulas reguladoras de fluxo permite reter temporariamente a água da chuva durante episódios de precipitação intensa, reduzindo o volume de água que chega às zonas situadas a jusante.

Em Niigata, durante episódios de chuva em 2021, os níveis de água nos canais de drenagem chegaram a oito centímetros nas áreas com estas estruturas, em comparação com 15 centímetros nas zonas sem proteção, de acordo com o relatório.

Imagem: World Economic Forum

Os agricultores podem instalar o equipamento através de incentivos municipais e apoios previstos no regime japonês de pagamento multifuncional para a agricultura. Desta forma, terrenos agrícolas passam a desempenhar também uma função de proteção das comunidades contra inundações.

Empresas entram na equação

A estratégia japonesa inclui ainda soluções desenvolvidas pelo setor privado e integradas no próprio ambiente urbano. Em Tóquio, por exemplo, o grupo Mori Building incorporou áreas verdes e estruturas de abrigo de emergência em imóveis comerciais, permitindo acolher 5.000 pessoas em Roppongi Hills e 5.200 em Toranomon Hills em caso de desastre, sem retirar a funcionalidade aos edifícios no dia-a-dia.

Também existem empresas, como a WOTA, a desenvolver sistemas locais de reciclagem e purificação de água para garantir o acesso contínuo aos recursos hídricos mesmo durante falhas na rede municipal.

Simultaneamente, empresas de tecnologia estão a integrar sensores, câmaras de monitorização e sistemas de previsão de cheias com recurso a inteligência artificial na infraestrutura urbana.

Na cidade de Suginami, uma parceria com a NEC permitiu instalar postes de iluminação inteligentes equipados com sensores e tecnologias de monitorização. Um painel centralizado reúne informação sobre as condições dos rios, emite alertas e disponibiliza imagens em tempo real durante episódios de inundação.

Esta aposta em tecnologia e colaboração público-privada insere-se numa estratégia japonesa mais abrangente de reforço da resiliência. Entre 2026 e 2030, o país prevê investir mais de 20 biliões de ienes (cerca de 134 mil milhões de dólares) no reforço da resiliência nacional e na modernização de infraestruturas, de acordo com o Fórum Económico Mundial. Cerca de metade do montante será destinada ao reforço de infraestruturas essenciais, incluindo redes de água e saneamento, enquanto 5,8 biliões de ienes serão canalizados para infraestruturas de prevenção de desastres.

Para o setor privado, a principal mudança passa por deixar de encarar a resiliência apenas como uma resposta posterior a um desastre. As empresas são chamadas a incorporá-la nas decisões de localização, no desenho de produtos e serviços, na investigação e desenvolvimento e nas próprias cadeias de abastecimento.

A lógica é também financeira: medir o retorno do investimento em prevenção através da redução das interrupções da atividade, dos danos nos ativos e das perturbações nas cadeias de fornecimento.

O Fórum defende que uma das maiores oportunidades está precisamente em soluções de utilização múltipla: infraestruturas que tenham uma função económica em condições normais, mas que possam assumir uma função de proteção em caso de desastre. É o caso de edifícios que funcionam normalmente como espaços comerciais, mas que podem transformar-se em abrigos de emergência, ou de terrenos agrícolas que continuam a produzir enquanto contribuem para a retenção de água.

O exemplo japonês mostra, assim, que a adaptação às alterações climáticas pode ser encarada como um investimento económico, na ótica do Fórum. A prevenção exige capital inicial e planeamento, mas pode reduzir perdas futuras, proteger cadeias de abastecimento, aumentar a confiança dos investidores e tornar territórios mais competitivos.

Num contexto em que os eventos climáticos extremos são apontados pelo Fórum Económico Mundial como uma das principais ameaças à economia global na próxima década, a conclusão é que, para o Japão, construir resiliência já não é apenas uma forma de evitar prejuízos, mas também uma forma de criar condições para o crescimento.

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Comentários (1)

  • Fala Verdade

    Não tenhas a menor duvida pá, o mundo kão em autodestruição caminha para o abismo, não tem futuro

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