Mais parecem girassóis espalhados pelo campo a seguir os raios de Sol. Mas, no teleporto de Alfouvar, os girassóis são de metal, têm vários metros de altura e aqui a parabólica gira para apanhar os sinais dos satélites que lá longe no espaço transmitem para a Terra. E são muitos. Pelo menos mais de 60 aglomerados nas diversas gateways espalhadas pelos 12 hectares de terreno que a Meo detém em Alfouvar.
É neste centro do concelho de Sintra, a cerca de 35 quilómetros de Lisboa, que a Meo quer acolher gateways dos fornecedores da IRIS 2,a constelação de satélites europeia que pretende ser uma alternativa segura à Starlink de Elon Musk. A ambição é colocar os dois teleportos nacionais, o de Alfouver e de Santa Maria, operado pela Thales, ao serviço desta constelação, numa candidatura conjunta.
O consórcio SpaceRise (SES, Eutelsat e Hispasat) quer “começar a dar o serviço com aquilo que é a infraestrutura já no terreno. E nós aqui [em Alfouvar] já temos instalações de dois membros desse consórcio. É uma das vantagens que consideramos quando estamos a fazer a candidatura ao projeto”, aponta Ana Carla Sousa, senior director da Meo Wholesale. Mas as antenas existentes “é só para dar o início do serviço. O projeto em si prevê a construção de gateways novas. Queremos criar aqui entre a 12 a 25 novas antenas“, revela.

Ana Carla Sousa, Senior Director MEO Wholesale – Centro Operacional de Satélites do Continente/Teleporto da MEO em Alfouvar, Sintra
Hugo Amaral/ECO
A obter luz verde as antenas irão juntar-se às já instaladas no centro de satélites na zona de Sintra. No terreno à nossa frente estavam mais de uma dezena. “Tenha cuidado com as antenas”, avisa Ana Carla Sousa, quando o fotógrafo do ECO/eRadar se lança terreno adentro para registar mais de perto as antenas. Naquele momento estavam apontadas ao céu, mas a qualquer momento podem ter de girar para acompanhar a órbita do satélite no espaço e garantir que captam o sinal. E a viragem pode ser bastante rápida. “Está a ver como ela baixa”, alerta a responsável do negócio grossista da Meo, apontando para uma das 15 antenas espalhadas no terreno.
Apesar da movimentação das antenas, o registo dos equipamentos decorreu sem incidentes e começamos a regressar colina abaixo para a entrada do teleporto. Pelo caminho, avistamos mais um lote de antenas — mas essas não pudemos fotografar por questões de sigilo — e uma série de painéis solares que alimentam com energia o centro espacial.
“Faz parte da estratégia de resiliência e de sustentabilidade e ajuda-nos também no custo anual para a produção de energia. Pode suportar 50% a 60% das necessidades [de energia] do centro”, explica Jorge Andrade Santos, head of international wholesale da Meo.

Centro Operacional de Satélites do Continente/Teleporto da MEO em Alfouvar, Sintra
Hugo Amaral/ECO
O local que acolhe os painéis também dificilmente seria ocupado com antenas. A colocação das gateways (onde podem estar mais do que uma antena) é cuidadosamente pensado. Tudo depende do seu propósito. “É uma antena que precise de ver a 360 graus ou mais direcional? Qual é que é a altura, relativamente ao plano terrestre? Tudo isso implica que depois consigamos perceber, por aquilo que são os declives do terreno, a altitude e os requisitos do serviço, em que ponto podemos efetivamente colocar. Além disso, temos as outras gateways já cá instaladas e que não podem interferir umas com as outras”, descreve.
“Tudo isso é muito crítico. Às vezes, em determinadas situações, é preciso pôr os operadores a falar uns com os outros no sentido de não haver uma gateway a operar frequências relativamente próximas ou idênticas”, conta. Existem quase relações diplomáticas, no caso, entre empresas. “Essa é a parte engraçada do nosso negócio, em que estamos a trabalhar com concorrentes, mas que conseguem, de todas as formas possíveis e imaginárias, colaborar uns com os outros”, diz Jorge Andrade Santos.
O mesmo cuidado com que foi pensada a localização dos painéis solares e as diversos gateways terá sido certamente tido quando, há cerca de 50 anos, a Marconi procurava uma localização para instalar o teleporto para antenas para telecomunicações de satélite. Inserido num vale, Alfouvar foi selecionado, precisamente, porque esse vale conferia ao centro de satélites proteção radioelétrica, garantindo menos interferências no sinal.
Depois de comunicações de longa distância, radar espacial?
A primeira antena a ser instalada foi a Sintra 1. Com uma parabólica com 32 metros de diâmetro dificilmente passa despercebida a quem entra no teleporto. Na época foram desenvolvidas mais duas — uma de 32 metros a outra ligeiramente menor — para garantir comunicações a longa distância.
“Quando o centro foi feito, servia fundamentalmente para a transmissão de longa distância. Fazia o que fazem hoje os cabos submarinos, mas era por satélite. Nessa altura, isto era apenas para consumo interno, para a nossa própria rede. Não se falava ainda no negócio de operadores, nem em Starlinks, nem em todas estas empresas que hoje fazem parte deste ecossistema. Era um centro da Marconi, um centro interno, um centro da Meo”, conta Ana Carla Sousa.
Hoje, das três, resta apenas a Sintra 1 que está inativa. Mas algo está a ser pensado para este gigante adormecido. “Temos algumas coisas giras que se podem fazer com estas antenas de 32 metros, mas isto ainda está a acontecer em projetos muito embrionários. É uma coisa muito interessante chamada radar espacial”, adianta a senior director da Meo Wholesale.
“Já tivemos aqui mais antenas como esta grande, desmantelámos duas. Esta optamos por não a desmantelar e agora já tivemos interesse de alguns parceiros em fazerem este tipo de serviços de radar espacial. Isso é quê? É precisamente mapear tudo o que está no espaço. No espaço, neste momento, temos muita coisa: planetas, asteroides, mas muitos satélites também”, descreve.

Centro Operacional de Satélites do Continente/Teleporto da MEO em Alfouvar, Sintra
Hugo Amaral/ECO
“É algo que também temos vindo a trabalhar sempre em colaboração com outros parceiros. Não temos ainda nenhuma destas antenas de 32 metros [com essa função], temos duas a funcionar como radar espacial, mas é um exemplo de um serviço novo que está a ser desenvolvido“, conta.
“Já anunciámos publicamente uma parceria destas com uma empresa de origem canadiana, precisamente para fazer este tipo de radar e deep space communication: a ThothX. mas existem outras empresas que também têm vindo a procurar estas antenas grandes. Apesar de estar no início [a parceria], já foi o suficiente para nós termos tomado a opção de não a desmantelar [a antena] no curto prazo”, admite, sem avançar mais nomes.
Nova economia espacial
Não faltam aglomerados de antenas ao longo do caminho que vai serpenteando o teleporto de Alfouvar. Muitas parabólicas, mas também, aqui e ali, antenas em formato de concha. É uma caminhada por 50 anos de comunicações com recurso a satélite e da evolução da economia do espaço. Mas também pela história de Portugal no espaço. Em Alfouvar ainda se mantém erecta a torre de controlo do POSAT 1, o primeiro satélite português lançado para o espaço.
Se Sintra 1 precisava de uma parabólica com 35 metros de diâmetro para apanhar sinais satélite geoestacionários a 36 mil quilómetros de altitude, hoje com a evolução tecnológica não é necessário pratos com a mesma dimensão. “Neste momento precisamos de pratos muito mais pequenos. Por exemplo, aqui”, diz Jorge Andrade Santos apontando para um conjunto de antenas perto de nós. “São de um nosso cliente, um operador grande satélite europeu. É um prato que tem, mais ou menos, 12 metros de diâmetro, mas, ali mais ao fundo, um outro prato, que faz basicamente a mesma órbita, tem um prato de nove metros”, descreve
“A tecnologia de emissão e receção melhorou muito, mesmo a maneira como os satélites funcionam também, e isso permite que o custo também em terra, seja muito mais baixo”, sintetiza o head of international wholesale da Meo.

Centro Operacional de Satélites do Continente/Teleporto da MEO em Alfouvar, Sintra
Hugo Amaral/ECO
O centro serve um misto de valências. “As emissões live do nosso país muitas vezes passam por aqui. A RTP Internacional, para muitas das zonas do globo, é feita através daqui”, conta Jorge Andrade Santos. “Para a Serra Algarvia, parte dos serviços saem daqui. Estes serviços podem ser serviços de voz, que já não é tão usual, mas ainda há pequenos nichos onde servimos através de satélite”, continua. “O nosso serviço de Meo satélite, onde, efetivamente, em zonas onde não há cobertura de fibra ótica, tendencialmente vamos entregar o serviço via satélite. E depois vemos as antenas de receção desse sinal nas casas das pessoas”, explica.
Mas não serve só as necessidades internas da operadora. Serve igualmente o mercado grossista. “Operadores de satélite de telecomunicações, precisam de espaço em zonas específicas do globo para implementarem aquilo que nós chamamos as suas gateways. No fundo, a porta de entrada e saída de comunicações satélite diretamente para os satélites”, refere o head of international wholesale da Meo.
“Alguns dos operadores que vão aqui pôr antenas são precisamente para dar esse tipo de serviços. Vai um barco no meio do atlântico, no meio do Mediterrâneo, e ele continua a ter comunicações. E como? Através do satélite”, aponta Ana Carla Sousa. “Tívemos, há uns dois anos, clientes que aceleraram fortemente a construção destas antenas, precisamente porque precisavam delas para dar comunicações aos barcos durante o verão”, conta.
IRIS 2: candidatura portuguesa
Na mira da Meo está ainda atrair fornecedores do SpaceRise, o consórcio que está a liderar a IRIS 2 (Infraestrutura para a Resiliência, a Interconectividade e a Segurança por Satélite), a instalar gateways em Portugal, através de uma candidatura conjunta entre a Meo (que opera o teleporto de Alfouvar) e a Thales em Portugal, que opera o teleporto em Santa Maria, nos Açores.
A implementação da IRIS 2 deu mais um passo no início de agosto, momento em que a Comissão Europeia e o consórcio SpaceRise fecharam um acordo para adicionar mais 66 satélites à rede, elevando para 348 o número de satélites da futura constelação, dos quais 330 em órbita baixa e 18 em órbita média da Terra, com elementos opcionais adicionais para apoiar missões específicas.
Os operadores europeus SES, Eutelsat e Hispasat lideram o consórcio SpaceRise que conta ainda com a participação de empresas da indústria aeroespacial e telecomunicações, como a Thales Alenia Space, a Airbus Defence and Space, a OHB, a Telespazio, a Deutsche Telekom, a Orange, a Hisdesat e a Thales Six. O objetivo é, a partir de 2030, a Europa ter no espaço uma constelação de satélites alternativa à americana Starlink com ganhos de soberania.
O projeto não só implica um investimento estimado de dez mil milhões de euros — em dinheiro público e privado — como permite aos Estados-membros, que adiram à constelação, e às suas forças de defesa e segurança, conectividade soberana, segura e altamente fiável, destaca a Comissão Europeia.A constelação permite igualmente desenvolver aplicações comerciais, como soluções de conectividade para a aviação, o setor marítimo ou redes da Internet das Coisas (IoT).

Centro Operacional de Satélites do Continente/Teleporto da MEO em Alfouvar, Sintra
Hugo Amaral/ECO
“Estamos hoje a dar um passo decisivo para a segurança e a soberania digital da Europa. Ao acelerar a prestação precoce de serviços de defesa e segurança e ao reforçar a arquitetura da IRIS 2, não só colocaremos a rede em funcionamento com antecedência, como também aumentaremos a capacidade governamental segura em mais de 60% na União”, afirmou Andrius Kubilius. “Esta constelação reforçada e mais rápida de colocação no mercado proporcionará aos nossos Estados-membros, aos serviços de emergência e aos cidadãos a conectividade resiliente e autónoma de que necessitam agora e nas crises do futuro”, reforçou o comissário da Defesa e Espaço, aquando do acordo do anúncio deste novo passo.
E a Meo e a Thales em Portugal querem ir a jogo. “A candidatura portuguesa é uma candidatura conjunta entre a Meo e a Thales. Existe um teleporto em Santa Maria, que seria o teleporto secundário, este [o de Alfouvar] seria o principal. Estamos a fazer a candidatura com os dois teleportos”, avança Ana Carla Sousa.
A favor da candidatura da Meo e da Thales está o facto do centro de satélites de Alfouvar já acolher antenas de dois dos operadores de satélite ligados ao consórcio a desenvolver a constelação. Quais os operadores do consórcio que já usam os serviços de gateway do teleporto do Meo, nem o número de antenas já no centro, não adianta. Mas o projeto, indica, possa por poder receber entre mais 12 a 25 novas antenas em Sintra.
A localização do centro também joga a favor da candidatura. “O facto de estarmos na Área Metropolitana de Lisboa, muito perto dos centros de interligação — quer seja a Linda-a-Velha [onde a Meo tem o Centro de Interligação de Redes Internacional], da Equinix [empresa de data centers] ou da Atlas Edge —, e conseguirmos ligar-nos rapidamente a esses centros, com cabos de fibra ótica redundantes, também é uma vantagem”, realça a senior director da Meo Wholesale Solutions.

Centro Operacional de Satélites do Continente/Teleporto da MEO em Alfouvar, Sintra
Hugo Amaral/ECO
A Meo está ainda a trabalhar na certificação do centro. “Esperamos ter concluído até ao final do ano a certificação deste centro, por forma a poder, na prática, ter qualquer tipo de gateway de qualquer operador. É torná-lo um bocadinho mais apetecível”, refere.
Mas a maior vantagem, diz, é o próprio centro. “Alfouvar é hoje um centro de referência. Na Península Ibérica não existem muitos como este”, destaca, realçando que do outro lado da fronteira há um forte interesse no projeto IRIS 2. “Sabemos que Espanha está fortemente empenhada também em ter a IRIS 2 em Espanha, mas nós estamos cá. E acreditamos também que a nossa candidatura é forte. Uma coisa é termos a humildade quando fazemos estas candidaturas, que o temos, outra coisa é também reconhecermos que temos também condições para receber este projeto. Se não fosse assim, não estaríamos tão empenhados em trabalhar este projeto”, afiança.
Nem de propósito, sinal do interesse espanhol no projeto, pouco tempo depois da visita a Alfouvar, Espanha anunciou intenção de investir entre 1,6 e 2 mil milhões de euros no projeto.

Centro Operacional de Satélites do Continente/Teleporto da MEO em Alfouvar, Sintra
Hugo Amaral/ECO
Nada que ‘assuste’ a candidatura. “O centro tem todas as condições que consideramos adequadas para receber um projeto como o IRIS 2, quer a nível de segurança, quer a nível de redundância, conectividade”, aponta Ana Carla Sousa, garantindo que não há falhas na operação. Em caso de falha de eletricidade, como sucedeu com o ‘apagão’, o teleporto tem capacidade para funcionar já que tem geradores que garantem fornecimento de energia, por exemplo”, destaca a senior director da Meo Wholesale.
Testar, testar para garantir resiliência….
Geradores, baterias, UPS. Há muito equipamento instalado no teleporto para garantir que os serviços e os sistemas estão sempre a funcionar. “É gasto muito dinheiro, por exemplo, em gasóleo para todos os meses, metermos os geradores a funcionar para garantir que, em casos de falha, funcionam mesmo”, diz Ana Carla Sousa, sem adiantar valores.
E sendo o teleporto uma infraestrutura crítica são feitos com regularidade simulacros. “Fazemos um simulacro uma vez por mês. São testes aos geradores. Gastamos à volta de 200, 300 litros de gásóleo para ter a certeza de que realmente funcionam. É à volta de uma hora testar o primeiro gerador, simular a falha para garantir que o segundo entra ao serviço se for necessário”, conta Ana Nave. “As UPS também são testadas várias vezes ao ano e, dessa forma, conseguimos garantir sempre o serviço se houver algum problema como foi o caso do apagão”, refere a engenheira de telecomunicações.
Durante o apagão que deixou o país às escuras o teleporto manteve-se em funcionamento. “Não houve falha nenhuma, nós até tivemos clientes a ligar-nos: ‘ouvimos dizer que há uma falha em Portugal, mas nós não estamos a sentir nada’”, relata.

Centro Operacional de Satélites do Continente/Teleporto da MEO em Alfouvar, Sintra
Hugo Amaral/ECO
“Também conseguimos dar apoio como quando foi a questão da Leiria e dos restantes municípios [com a depressão Kristin]. Temos feito os possíveis para que não volte a acontecer a garantir backups para qualquer eventualidade que venha a suceder no futuro”, refere a jovem engenheira de 28 anos, há cinco anos ligada ao teleporto de Alfouvar.
É uma das 20 pessoas que prestam serviços no centro de satélites. Foi estudar para “aprender sobre computadores” e acabou “na parte das telecomunicações”. “Realmente, foi o que mais gostei no curso todo”, lembra.
E como surgiu Alfouvar, questionamos? “Foi um estágio que me surgiu, vim estagiar para aqui, gostei e continuei. Costumo brincar com isto, mas chamo-me Ana Nave e então achei que vinha para o sítio certo, não vim para uma nave espacial, mas pronto”, diz humorada.
…também via talento
“Procuramos sempre incorporar aqui novos engenheiros, mas estamos também a trabalhar em proximidade com a Academia para conseguirmos ter aqui projetos de fim de curso, outros projetos com os alunos a estudar telecomunicação”, adianta Ana Carla Sousa. “Para despertar também o interesse destes jovens engenheiros por esta área. Esta área do espaço está a ter cada vez mais relevância e é expectável que esta relevância venha a crescer“, considera a senior director da Meo Wholesale.
Fixar talento é uma forma de garantir o futuro dos centros, mas também do país. “Estes centros para serem relevantes a primeira coisa que têm de ter são equipas técnica. Têm de ter equipas que consigam operar e manter estes equipamentos. E isso é algo que, felizmente, ainda temos, quer nas estações de cabos submarinos, quer aqui neste centro de satélites. São skills muito especiais, muito específicas, e que existem em muito pouco sítio”, argumenta Ana Carla Sousa.

Centro Operacional de Satélites do Continente/Teleporto da MEO em Alfouvar, Sintra
Hugo Amaral/ECO
“É importante também, enquanto país, conseguirmos manter estes centros, porque mantemos também dentro do país o conhecimento. Ganhamos soberania também do conhecimento. Falamos muitas vezes na soberania das infraestruturas e falamos pouco na soberania do conhecimento que acaba também por ser tão ou mais importante. Não precisamos que venham cá técnicos de fora para nos ensinar como fazer”, atira






