Diego Armando Maradona recebe a bola no seu meio-campo, de costas para a baliza. Com uma pirueta rápida, escapa a dois ingleses e arranca em velocidade. Já perto da área, finta mais dois defesas com desvios ligeiros. Na cara do guarda-redes Peter Shilton, faz uma finta de corpo e empurra a bola para a baliza. Foram 60 metros, 10 segundos, 11 toques e cinco adversários ultrapassados pelo ‘D10S’ argentino em pleno Mundial 1986, no mexicano Estádio Azteca. Mas o que é que esse golo – que viria a ser escolhido, em 2002 pela FIFA, como o melhor do século – tem a ver com taxas de juro, política monetária e bancos centrais?
A ligação, ironicamente, foi feita por um inglês. Em maio de 2005, o então governador do Banco de Inglaterra, Mervyn King, discursava sobre ‘Política Monetária: A Prática Antecede a Teoria’ quando fez uma viragem repentina que surpreendeu a audiência em Londres, ao dizer: “é a isto que chamo a teoria Maradona das taxas de juro”.
“Diego Maradona não é normalmente associado à teoria da política monetária, mas a sua exibição contra a Inglaterra em 1986, quando marcou dois golos, é uma ilustração perfeita do que pretendo dizer”, adiantou o economista que chefiou o banco central inglês entre 2003 e 2013. O primeiro golo, conhecido como a ‘mão de Deus’, foi um exercício da antiga abordagem de “mistério e mística” da banca central, “uma ação foi inesperada, inconsistente no tempo e contrária às regras e teve sorte em sair impune da situação”.

O foco de King virou para o segundo golo, o tal do século. “Foi um exemplo do poder das expectativas na teoria moderna das taxas de juro”, referiu, comentando a jogada antes de salientar um detalhe. “O que é verdadeiramente notável é que Maradona correu praticamente em linha reta”, exclamou.
O governador questionou como é possível ultrapassar cinco jogadores correndo em linha reta e respondeu que os defesas ingleses reagiram ao que esperavam que Maradona fizesse. “Como esperavam que Maradona se deslocasse para a esquerda ou para a direita, ele conseguiu seguir em frente”.
Para King, a política monetária funciona de forma semelhante. “As taxas de juro de mercado reagem ao que se espera que o banco central faça”, disse, dando como exemplo os anos anteriores, quando Banco de Inglaterra e outros bancos centrais passaram por períodos em que conseguiram influenciar a trajetória da economia sem proceder a grandes alterações nas taxas de juro oficiais.
“Seguiram em linha reta rumo aos seus objetivos”, explicou. Como é foi isso possível? “Porque os mercados financeiros não esperavam que as taxas de juro permanecessem constantes, esperavam que as taxas subissem ou descessem e essas expectativas foram suficientes — por vezes — para estabilizar o consumo privado, enquanto as taxas de juro oficiais, na realidade, variaram muito pouco“.
Porquê recordar agora, passados 21 anos do discurso e quatro décadas do golo, a ideia de King? Porque a chegada do novo presidente da Reserva Federal, Kevin Warsh, ao cargo, está a ser marcada pelo debate sobre a comunicação do banco central americano. O economista e advogado nomeado em janeiro por Donald Trump para suceder a Jerome Powell nunca escondeu a aversão à comunicação excessiva. “Ao contrário de muitos dos meus colegas, tanto antigos como atuais, não acredito no forward guidance [orientação prospectiva dada pelos bancos centrais],”, explicou no Senado em abril. “Não acho que deva antecipar-vos qual poderá ser uma decisão futura”.
Warsh é também um forte crítico do dot plot – o gráfico que representa as avaliações dos membros do Comité Federal de Mercado Aberto [FOMC; comité de política monetária] sobre o percurso futuro das taxas de juro. “A Fed comunica ao mundo inteiro quais vão ser os seus dots e quais vão ser as suas previsões”, disse na mesma audição. “Bem, então a Fed também é humana — mantém essas previsões por mais tempo do que deveria”.

O mandato começou em maio e logo na primeira reunião do FOMC, em junho, o chair da Fed começou a dar sinais que não quer o banco central a dar muitos sinais. A declaração eliminou por completo qualquer orientação sobre futuros movimentos das taxas, com um formato revisto que se limitava a indicar a decisão sobre as taxas e reafirmava a intenção do banco central de manter reservas abundantes no sistema bancário. O documento abreviado marcava o regresso a um formato semelhante ao utilizado pelo antigo presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan. Apenas 18 dos 19 decisores apresentaram projeções de taxas de juro no dot plot, com Warsh a confirmar que foi ele a excepção.
Na reunião seguinte, a 29 de julho, Warsh foi ao encontro das expectativas dos analistas e ofereceu poucos sinais sobre o futuro, dedicando grande parte da conferência à explicação sobre porque e como quer mudar a comunicação da Fed.
“Durante muito tempo, em muitos países, na sequência da crise de 2008, quando estávamos em modo de crise, fornecíamos deliberadamente muita informação, tentando transmitir muita segurança, tentando dizer às pessoas exatamente o que íamos fazer, oferecendo orientações prospectivas com clareza, como se estivéssemos a tentar manter as mãos atrás das costas”, recordou. “Bem, em modo de crise, isso parece-me uma política muito prudente, mas em condições mais favoráveis parece-me que vale a pena rever essa abordagem“.
Ao não dar tudo mastigado aos mercados, ao não antecipar as nossas decisões, ao não dar, por assim dizer, sugestões ou indicações, os meus colegas e eu descobrimos que, no período entre reuniões, o que recebemos são as opiniões de um economista de grande prestígio, são os meandros dos mercados financeiros: em vez de se limitarem a repetir ou a ecoar o que lhes dizemos, eles dão-nos, de certa forma — embora não seja perfeito —, o seu próprio julgamento
O objetivo, para Warsh, é pôr o mercado a informar a Fed e não o contrário. “Ao não dar tudo mastigado aos mercados, ao não antecipar as nossas decisões, ao não dar, por assim dizer, sugestões ou indicações, os meus colegas e eu descobrimos que, no período entre reuniões, o que recebemos são as opiniões de um economista de grande prestígio, são os meandros dos mercados financeiros: em vez de se limitarem a repetir ou a ecoar o que lhes dizemos, eles dão-nos, de certa forma — embora não seja perfeito —, o seu próprio julgamento”.
O presidente da Fed reconheceu que a mudança não poderá ser abrupta. “Os mercados, os participantes nos mercados e os jornalistas aprenderam a devorar toda essa informação, pelo que levo a sério o facto de que a redução das orientações prospectivas requer alguma transição“, explicou, sublinhou que “a reforma não é fácil, mas o nosso julgamento geral vai ajudar-nos a tomar melhores decisões e, ao fazê-lo, a cumprir o nosso compromisso”.
Depois da conferência de imprensa, os analistas fizeram a ligação ao discurso de Mervyn King sobre Maradona. David Kohl e Afonso Borges, economista-chefe e analista de fixed income do banco privado suiço Julius Baer escreveram que a ausência de orientações prospectivas continua a ser o ponto-chave a reter, vincando que a Fed de Warsh pretende ser menos prescritiva quanto à trajetória futura das taxas e mais disposta a deixar que os preços de mercado se ajustem sem intervenções frequentes do banco central.
“Para quem acompanha de perto os bancos centrais, isto ecoa a teoria de Maradona de Mervyn King sobre a política monetária: manter-se claro quanto ao destino e preservar uma ameaça credível de mudança de direção, permitindo que as expectativas do mercado façam parte do trabalho de política monetária, mesmo que o próprio banco central continue a avançar em linha reta”, acrescentaram. “Na ausência de orientações futuras explícitas, os mercados ficam a tentar adivinhar, a partir dos votos dissidentes, pistas sobre o próximo passo da Reserva Federal“.
A reação tem sido bastante dividida, seguindo três linhas: os apoiantes que consideram que Warsh está a corrigir os excessos da política monetária pós-2008; os pragmáticos que concordam com a redução das orientações, mas não com a sua eliminação; e os críticos que argumentam que Warsh aumentou a incerteza sem melhorar a política monetária.
Entre os apoiantes, Torsten Slok, economista-chefe da Apollo, escreveu que Warsh tem sido “criticado injustamente” pela decisão de eliminar as orientações prospectivas afirmando que tal não é imprudente. “É pragmático.” Argumenta que a ausência de indicações sobre se a Reserva Federal irá aumentar, reduzir ou manter as taxas acaba com a inércia da política monetária e restaura os sinais reais do mercado, e que os compromissos em matéria de taxas “prendem o Fed a trajetórias pré-determinadas” e que isso tornaria mais difícil mudar de rumo caso as condições se alterem.
Numa posição mais mista, Marta Norton, estratega-chefe de investimentos da Empower, explicou que duas coisas que “têm incomodado no processo de tomada de decisões da Reserva Federal e na forma como o mercado reage a isso – uma delas é esta ideia de que, em vez de dedicarmos tempo a tentar compreender a dinâmica da economia, nos questionamos sobre como é que a Reserva Federal a irá interpretar e isso acaba por tornar a análise numa espécie de análise derivada“.
Mas, por outro lado, Norton também mostrou alguma ansiedade quanto à falta de guidance. “Digam-me simplesmente o que pensam, deixem de ser tão evasivos e digam-me o que pensam”, pediu, citada pela Reuters. “Parece um pouco uma situação do liceu em que se diz ‘diz-me de quem gostas””, sublinhou. “Queremos saber, queremos brincar com isto nos mercados, e vocês não nos estão a dar nada”.
Não se sabe se Warsh é fã de futebol e talvez não conheça sequer o “golo do século”. Ficaremos a saber nos próximos anos se a sua postura maradoniana vai acabar com a bola na baliza ou se a vai perder na hora de rematar.






