Portugal está finalmente a fazer aquilo que durante anos pedimos à Europa: investir seriamente na Defesa. A Marinha precisa de renovar meios, a FREMM EVO é uma fragata de primeira linha e a oportunidade de recapacitar o Arsenal do Alfeite é particularmente importante. Tudo isto são boas notícias.
Mas quando uma única decisão absorve cerca de 3,9 mil milhões de euros, aproximadamente dois terços dos 5,8 mil milhões atribuídos a Portugal através do SAFE, vale a pena colocar uma pergunta um pouco diferente. Não apenas qual é a melhor fragata, mas qual é a melhor força naval que Portugal consegue construir com este investimento.
A pergunta é especialmente oportuna porque o próprio ministro da Defesa esclareceu, a 11 de agosto, que o contrato ainda não está fechado. O que foi assinado com Itália foi um executive arrangement e as características finais do equipamento continuam a ser vertidas para o contrato. Há, por isso, espaço para melhorar a solução, clarificar as contrapartidas e garantir que estes navios continuam tecnologicamente relevantes durante décadas.
Comecemos pelo essencial: há uma razão perfeitamente legítima para a Marinha querer três fragatas. Três unidades facilitam a rotação entre missão, treino e manutenção e reduzem o risco de Portugal ficar temporariamente sem uma fragata de primeira linha disponível. Num país com compromissos NATO e uma enorme área marítima, isto conta.
O que não é automático é que a terceira fragata seja a utilização que produz maior capacidade militar marginal por cada euro investido. É essa comparação que gostaria de ver feita antes da assinatura final.
A guerra naval está a mudar depressa. A NATO passou a falar explicitamente numa combinação entre tecnologia high-end e low-end, plataformas tripuladas e sistemas autónomos, maior massa e maior consciência situacional. O seu centro de investigação marítima estuda já redes em que fragatas, submarinos, sensores e veículos não tripulados trabalham como um único sistema. A própria NATO Digital Strategy de 2026 coloca a computação no edge — isto é, processar dados e executar IA perto da operação, mesmo em ambientes com comunicações degradadas — como parte da futura arquitetura militar.
A discussão não deveria ser “fragatas ou drones”. Deveria ser: qual combinação de fragatas, sistemas autónomos, sensores, software e indústria nacional produz mais capacidade por euro investido?
Isto não significa substituir fragatas por drones. Significa mudar a lógica: a fragata deixa de ter de fazer tudo sozinha e passa a funcionar como um dos nós mais poderosos de uma rede muito maior. Em vez de usar um navio de mil milhões de euros para procurar permanentemente uma ameaça numa área gigantesca, sensores distribuídos e sistemas autónomos podem ajudar a encontrá-la, classificá-la e acompanhar a sua evolução, permitindo reservar os meios mais caros para os momentos em que realmente acrescentam valor.
Portugal tem, curiosamente, condições interessantes para testar esta abordagem. As duas fragatas da classe Bartolomeu Dias foram modernizadas precisamente para sustentar a capacidade oceânica de superfície até 2035. E a Marinha portuguesa organiza o REPMUS, onde em 2025 participaram 37 países e foram testados cerca de 270 veículos não tripulados aéreos, de superfície e submarinos. Não estamos, portanto, a falar de tecnologia que a Marinha desconhece.
Daqui nasce um cenário que me parece merecer, pelo menos, uma simulação séria: duas FREMM EVO como plataformas de combate de primeira linha; as duas Bartolomeu Dias durante a transição até ao horizonte previsto de 2035; e uma grande capacidade distribuída de drones aéreos, de superfície e submarinos, sensores, comunicações resilientes, processamento local e inteligência artificial. Depois de 2035, naturalmente, seria necessário decidir como substituir as Bartolomeu Dias. O objetivo não é adiar indefinidamente a renovação, mas aproveitar os próximos anos para mudar a arquitetura da força.
A discussão não deveria ser “fragatas ou drones”. Deveria ser: qual combinação de fragatas, sistemas autónomos, sensores, software e indústria nacional produz mais capacidade por euro investido?
Há também um ponto financeiro importante. Não podemos assumir que retirar uma fragata pouparia exatamente um terço do programa: existem custos comuns de integração, armamento, formação, logística e sustentação. Mas estamos claramente a falar de uma decisão com impacto de centenas de milhões de euros. Antes de fechar três unidades, seria útil quantificar o que esse mesmo capital permitiria comprar em vigilância persistente, guerra antissubmarina distribuída, proteção de infraestruturas submarinas, comunicações, stocks, drones e capacidade de integração nacional.
O SAFE não invalida esta hipótese. É verdade que o instrumento foi criado para aquisição rápida de capacidade e não para financiar investigação aberta durante anos. Mas o próprio regulamento inclui capacidades marítimas, drones das classes 2 e 3, sistemas de comando, controlo, comunicações e informação (C4ISTAR), inteligência artificial e guerra eletrónica. Para capacidades complexas, introduz ainda um princípio muito relevante: a entidade europeia responsável deve ter liberdade para definir, adaptar e fazer evoluir a conceção do sistema sem determinadas restrições de países terceiros. E o regulamento admite, em condições justificadas, alterações aos pedidos e planos apresentados à Comissão.
Isto permite separar duas coisas que por vezes se confundem. Uma alternativa distribuída não teria de ser um programa de investigação. Poderia assentar sobretudo na aquisição de tecnologia já madura, como drones, sensores, comunicações, computação, software e serviços de integração, deixando desenvolvimento adicional para instrumentos como o EDF ou para financiamento nacional. O desafio principal seria integrar capacidades existentes numa arquitetura coerente e fazê-la evoluir continuamente.
Esta questão da evolução tecnológica é, para mim, tão importante como a escolha do casco. A manutenção das novas fragatas em Portugal é positiva. Mas manutenção nacional e soberania tecnológica não são exatamente a mesma coisa. A verdadeira pergunta é se Portugal poderá modificar os seus navios sem ficar permanentemente dependente do fabricante para cada novo sensor, cada algoritmo ou cada ligação a um sistema autónomo.
Uma fragata que vai operar durante 30 anos deveria nascer preparada para receber aplicações de IA que hoje ainda não existem. Isso significa garantir acesso aos dados operacionais necessários, interfaces documentadas, capacidade de integrar software nacional e de terceiros, ambientes seguros de teste e computação suficiente a bordo para executar modelos localmente. Em linguagem simples: se daqui a cinco anos Portugal desenvolver um sistema de IA muito melhor, a Marinha deve poder aproveitá-lo sem ter de redesenhar o navio.
A manutenção das novas fragatas em Portugal é positiva. Mas manutenção nacional e soberania tecnológica não são exatamente a mesma coisa. A verdadeira pergunta é se Portugal poderá modificar os seus navios sem ficar permanentemente dependente do fabricante para cada novo sensor, cada algoritmo ou cada ligação a um sistema autónomo.
É também aqui que esta compra pode ligar-se a uma transformação mais ampla do Estado. Em janeiro, o Governo aprovou a Agenda Nacional de Inteligência Artificial, que coloca a redução da dependência externa e o desenvolvimento de capacidades tecnológicas soberanas entre os objetivos nacionais. Em abril criou a Rede de Simplificação e Tecnologias do Estado, orientada para uma arquitetura comum, interoperabilidade e política transversal de dados. Em maio aprovou o Plano Nacional de Nuvem Soberana, precisamente com a soberania e a resiliência digital como prioridades estratégicas.
Naturalmente, uma rede militar classificada não deve ser confundida com os sistemas civis da Administração Pública. As regras de segurança são diferentes. Mas os princípios podem ser coerentes: controlo nacional dos dados, interoperabilidade através de standards, capacidade de executar IA localmente e liberdade para integrar novas tecnologias. Sempre que a segurança o permita, esta arquitetura deveria ainda poder articular-se, através de interfaces e gateways controlados, com serviços digitais soberanos do Estado e, sobretudo, com a futura camada transversal de IA das Forças Armadas. A Defesa não deveria ser uma ilha digital dentro de um Estado que está, corretamente, a tentar construir uma arquitetura tecnológica mais soberana.
Há ainda uma segunda razão para aproveitar o facto de o contrato não estar fechado: perceber se Portugal extraiu todo o valor possível da concorrência entre soluções europeias. A alternativa francesa da Naval Group era suficientemente credível para merecer uma comparação clara. Segundo informação divulgada publicamente, a empresa propunha três FDI com entregas até ao final de 2030, anunciava um preço inferior a 900 milhões de euros por unidade, cerca de 20% de retorno local e uma proposta de investimento e parceria com o Arsenal do Alfeite. A FDI é também apresentada pelo fabricante como uma plataforma digital por desenho, com dois data centres redundantes, atualizações por software e capacidade nativa para operar drones.
Nada disto prova que a solução francesa fosse melhor. A FREMM EVO tem vantagens muito relevantes para Portugal: é maior, oferece mais espaço, elevada autonomia oceânica, forte vocação antissubmarina e capacidade para funcionar como navio de comando. Pode perfeitamente ter sido a melhor escolha técnica da Marinha. O ponto é outro: com duas soluções credíveis, seria útil conhecer uma síntese não classificada da comparação que justificou a decisão e perceber por que razão não foi possível manter a pressão competitiva durante mais tempo, sobretudo quando o contrato final ainda estava por concluir.
O que a informação pública permite comparar
| Critério | FREMM EVO | FDI / proposta francesa pública |
| Perfil operacional | Plataforma maior; forte autonomia oceânica, guerra antissubmarina e comando | Plataforma mais compacta; forte guerra antissubmarina e menor tripulação |
| Arquitetura digital | SADOC 4 cyber-resilient; gestão de sistemas não tripulados no ar, à superfície e debaixo de água | Dois data centres redundantes; upgrades por software; concebida como navio-mãe para drones |
| Calendário conhecido | Entregas portuguesas anunciadas entre 2029 e 2030 | Proposta reportada previa as três entregas até dezembro de 2030 |
| Condições económicas públicas | Programa anunciado em €3,9 mil M, incluindo €0,9 mil M de sustentação | Preço comercial reportado abaixo de €900 M/unidade; pacotes não diretamente comparáveis |
| Indústria / Alfeite | Governo anuncia retorno “assinalável” e €150–200 M de recapacitação, ainda sem estrutura completa pública | Naval Group anunciava ~20% de retorno local, dezenas de milhões no Alfeite e proposta de joint venture |
Nota: a informação pública não permite comparar pacotes comerciais completos nem substitui uma avaliação militar. O quadro serve apenas para mostrar que existiam trade-offs reais a avaliar.
Portugal tem já, no Exército, um exemplo útil da direção tecnológica que esta arquitetura poderia seguir. O AMIDA-UT, projeto PESCO liderado pelo Exército Português, está a desenvolver um gémeo digital operacional do terreno, integrando dados de várias fontes, simulação e apoio à decisão por inteligência artificial, incluindo preocupação com a continuidade da operação em ambientes de comunicações degradadas. Está previsto que seja validado em ambiente NATO. Não existe qualquer compromisso da Marinha Portuguesa em adotar o AMIDA-UT, nem estou a sugerir que o deva fazer. O exemplo é relevante porque mostra que as Forças Armadas portuguesas já estão a trabalhar na lógica de integrar sensores, ambiente operacional, simulação e IA numa camada comum.
Faço esta referência com a necessária transparência: a Infinite Foundry, empresa que lidero, participa no desenvolvimento do AMIDA-UT. Precisamente por isso, o ponto que me parece importante não é defender um produto. É defender um princípio: qualquer tecnologia escolhida pela Marinha deveria permitir que Portugal controle a camada digital que liga os seus ativos e possa substituí-la ou fazê-la evoluir ao longo do tempo.
O Arsenal do Alfeite pode ser a peça que fecha este ciclo. O Governo já anunciou um investimento da ordem dos 150 a 200 milhões de euros e indicou que empresas portuguesas deverão participar em áreas como software operacional, comunicações, simuladores e sistemas de combate. É uma oportunidade que merece ser aproveitada para ir além da manutenção física dos navios.
O Alfeite poderia tornar-se também o centro nacional onde se testa a evolução digital da frota: uma réplica técnica dos navios em terra, gémeos digitais para manutenção e simulação, ambientes para testar novas versões de software, integração de drones e sensores, cyber range e capacidade para validar tecnologia portuguesa antes de a colocar a bordo. Em vez de apenas manter as FREMM durante 30 anos, Portugal ganharia capacidade para as transformar durante 30 anos.
Também seria útil esclarecer a estrutura económica desse investimento. Se os 150 a 200 milhões forem investimento adicional da parte italiana, isso é uma contrapartida muito relevante. Se forem financiados, total ou parcialmente, pelo próprio investimento português, podem continuar a ser uma excelente aplicação de capital, mas devem ser contabilizados de forma diferente. O mesmo se aplica ao retorno “assinalável” anunciado para a indústria nacional: quanto mais concreto for o compromisso de longo prazo, maior será o valor estratégico desta aquisição.
No final, faço uma proposta bastante simples. Antes de fechar o contrato, comparar quantitativamente duas arquiteturas. A primeira é a atualmente prevista: três FREMM EVO e as restantes capacidades programadas. A segunda seria transitória: duas FREMM EVO, duas Bartolomeu Dias até 2035 e uma força muito maior de sistemas autónomos, sensores distribuídos, comunicações, IA processada localmente e uma camada soberana de integração.
O Alfeite poderia tornar-se também o centro nacional onde se testa a evolução digital da frota: uma réplica técnica dos navios em terra, gémeos digitais para manutenção e simulação, ambientes para testar novas versões de software, integração de drones e sensores, cyber range e capacidade para validar tecnologia portuguesa antes de a colocar a bordo. Em vez de apenas manter as FREMM durante 30 anos, Portugal ganharia capacidade para as transformar durante 30 anos.
A comparação deveria olhar para métricas operacionais, e não para preferências tecnológicas: quantos dias por ano existe uma fragata de primeira linha disponível; quantas missões podem decorrer em simultâneo; que área marítima pode ser monitorizada persistentemente; qual a capacidade antissubmarina; quanto custa cada hora de vigilância; como reage a força à perda de um ativo; quanto tempo demora a integrar um novo sensor ou algoritmo; e quanto valor acrescentado fica em Portugal ao longo de 30 anos.
Se a análise demonstrar que três FREMM oferecem claramente mais capacidade global, então teremos uma justificação muito mais forte para avançar com as três. Se mostrar que o benefício marginal da terceira é inferior ao que Portugal conseguiria obter com uma arquitetura distribuída, ainda haverá tempo para pensar de outra forma.
Não se trata, portanto, de comprar menos Defesa. Trata-se de usar este momento para comprar mais capacidade. A melhor herança do SAFE não será Portugal ter três navios novos em 2030. Será chegar a 2040 com uma Marinha capaz de combinar navios, sensores, sistemas autónomos e inteligência artificial numa arquitetura que controla, consegue atualizar e em torno da qual a indústria portuguesa pode crescer.
A FREMM EVO pode perfeitamente ser uma parte central dessa visão. A oportunidade agora é garantir que a compra das fragatas não seja apenas uma renovação de frota, mas a fundação de uma força naval portuguesa preparada para a era da IA.
Nota de transparência: o autor é fundador e CEO da Infinite Foundry, empresa que participa no desenvolvimento do projeto AMIDA-UT liderado pelo Exército Português. O AMIDA-UT não foi adotado pela Marinha Portuguesa e é referido no artigo apenas como exemplo de uma arquitetura nacional baseada em gémeo digital e inteligência artificial.






