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Opinião

Da liderança renovável à participação cidadã: como Portugal pode transformar energia limpa em valor económico e social

A transição energética deixa de ser apenas uma agenda de governos e grandes empresas e torna-se também uma oportunidade de participação cidadã.

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Portugal já provou que consegue produzir energia renovável. O desafio agora é transformar essa vantagem em crescimento económico, inovação e competitividade.

Em 2024, 65,8% da eletricidade produzida em Portugal teve origem em fontes renováveis, bem acima da média da União Europeia (47,5%). Também no consumo final bruto de energia, Portugal atingiu 36,5%, ultrapassando a média europeia de 25,2%. Estes resultados colocam o país entre os líderes da transição energética.

No entanto, a liderança energética, por si só, não garante competitividade. O verdadeiro desafio consiste em converter esta vantagem num motor de desenvolvimento económico, criando valor acrescentado para as empresas e reforçando a resiliência da economia portuguesa. É neste contexto que os fundos europeus assumem um papel estratégico.

O Portugal 2030, acordo estabelecido entre Portugal e a Comissão Europeia, disponibiliza instrumentos de apoio ao investimento em produção de energia renovável, autoconsumo, armazenamento, eficiência energética e descarbonização dos processos produtivos. Empresas mais eficientes reduzem custos operacionais, tornam-se menos vulneráveis à volatilidade dos mercados energéticos e reforçam a sua competitividade num contexto em que a sustentabilidade passou a ser um fator determinante para clientes, investidores e instituições financeiras.

O sucesso desta estratégia dependerá, porém, menos do montante de financiamento disponível e mais da capacidade de execução. Simplificar o licenciamento, garantir estabilidade regulatória e acelerar os investimentos será essencial para transformar os fundos europeus em resultados concretos.

Mas apoiar esta transição energética não depende apenas dos governos ou das empresas. Também os cidadãos podem contribuir diretamente através do investimento coletivo (crowdfunding).

Através de uma plataforma portuguesa de financiamento colaborativo é possível a qualquer cidadão investir em projetos de energia renovável sem necessidade de elevados montantes de capital ou experiência no setor. Em Portugal, este modelo já financiou diversos projetos de energia solar fotovoltaica em varias regiões do país, desde supermercados a projetos mais pequenos como sapatarias ou lojas de instrumentos musicais. Além de proporcionarem um retorno financeiro médio de cerca de 6% – podendo atingir 7,2% nos projetos mais atrativos – estes investimentos geram benefícios ambientais mensuráveis.

Uma análise de projetos portugueses financiados através de uma plataforma portuguesa de financiamento coletivo, mostra que cada 1.000 euros investidos permitem, em média, produzir 1,82 MWh de eletricidade renovável e evitar a emissão de 110 kg de CO₂. Isto corresponde aproximadamente a um terço do consumo anual de eletricidade de uma família portuguesa de quatro pessoas e ao equivalente à plantação de 47 árvores. Nos projetos com maior impacto, estes valores podem atingir 3,6 MWh de energia limpa produzida e 269 kg de CO₂ evitados por cada 1.000 euros investidos.

A transição energética deixa, assim, de ser apenas uma agenda de governos e grandes empresas e torna-se também uma oportunidade de participação cidadã. Os fundos europeus, o investimento empresarial e o financiamento coletivo não são alternativas concorrentes, mas instrumentos complementares da mesma transformação.

Segundo a Agência Internacional de Energia, as fontes renováveis serão a principal origem da eletricidade mundial antes do final da década. Portugal reúne os recursos naturais, o conhecimento técnico e os instrumentos financeiros para consolidar esta liderança. O desafio é garantir que ela se traduz em crescimento económico, inovação e participação coletiva.

Nota: esta é uma coluna fruto da parceria entre a Women in ESG Portugal e o Mulheres na Energia (Associação Portuguesa da Energia) para o ECO. Por meio deste canal pretendemos trazer conteúdos ligados ao ESG e Energia de forma descomplicada para a sociedade, na voz de mulheres, de gerações diferentes, que detêm expertise técnica na área.

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