Nos últimos três anos, a União Europeia habituou-se a repetir o mantra de que o mercado de trabalho resistia bem às turbulências económicas, com o desemprego a cair para mínimos históricos. Mas há um grupo que não está a sentir essa recuperação da mesma forma: os jovens.
Um estudo assinado por David Chaloupka e António Dias da Silva, publicado no boletim económico do Banco Central Europeu (BCE), revela que os trabalhadores mais novos da área do euro foram “desproporcionalmente afetados” pelo abrandamento económico registado desde 2023, com taxas de desemprego a subir precisamente quando a média da população ativa melhorava.
Enquanto a taxa de desemprego geral na Zona Euro (para trabalhadores entre os 15 e os 74 anos) recuou 0,3 pontos percentuais desde 2023, fixando-se em 6,3% no primeiro trimestre deste ano, a taxa de desemprego jovem (15-24 anos) subiu para 15,1%, 0,6 pontos percentuais acima da média de 2023, destacam os investigadores. O resultado é um agravamento da relação entre o desemprego jovem e o desemprego total.
A força de trabalho jovem praticamente estagnou, crescendo apenas 0,5% entre 2023 e 2026, contra 2,6% no total da população ativa, com a taxa de participação jovem a cair 0,8 pontos percentuais.
“O rácio entre a taxa de desemprego jovem e a taxa de desemprego total subiu para 2,4 no primeiro trimestre de 2026, face a 2,1 no primeiro trimestre de 2023”, destacam os autores do estudo, sublinhando com isso um sinal inequívoco de que os mais novos não beneficiaram, na mesma proporção, da melhoria geral do mercado laboral.
O estudo, publicado nos cadernos do BCE, mostra ainda que a força de trabalho jovem praticamente estagnou, crescendo apenas 0,5% entre 2023 e 2026, contra 2,6% no total da população ativa, com a taxa de participação jovem a cair 0,8 pontos percentuais. A explicação para esta maior fragilidade não está apenas na idade.

O estudo nota que os jovens tendem a ter vínculos laborais mais curtos e uma presença maior em contratos a prazo ou noutras formas de emprego mais precárias, o que os torna mais expostos quando as empresas travam as contratações ou começam a cortar custos. Num período de desaceleração, são muitas vezes os últimos a entrar e os primeiros a sentir o recuo da procura por trabalhadores.
Esta deterioração não passa despercebida aos próprios jovens. Segundo o inquérito às expectativas dos consumidores do BCE, publicado em outubro do ano passado, os jovens desempregados com formação superior mostravam-se particularmente pessimistas quanto às suas perspetivas de emprego, atribuindo essa visão negativa “principalmente a uma escassez percebida de vagas de emprego adequadas”.
O problema não se limita, contudo, aos estudantes ou a quem procura o primeiro emprego. Entre os 25 e os 29 anos — uma faixa etária com uma ligação mais estável ao mercado de trabalho — a taxa de desemprego passou de 8,9% no primeiro trimestre de 2023 para 9% no mesmo período deste ano. Ainda assim, a evolução recente do emprego neste grupo melhorou, contrastando com a quebra registada entre os trabalhadores dos 15 aos 24 anos.
Entre a pressão dos ciclos económicos e a sombra ainda por esclarecer da inteligência artificial, uma coisa é certa: os jovens europeus enfrentam hoje um mercado de trabalho mais exigente do que aquele que os seus pais conheceram à mesma idade. O desafio não é apenas estatístico, mas também social, e vai muito além dos números que preenchem os cadernos técnicos do banco central. Fica a saber-se se a recuperação económica chegará, finalmente, também a esta geração.
Efeito da inteligência artificial no emprego jovem
A combinação de desemprego elevado, vínculos precários e pessimismo entre os mais qualificados abriu espaço a uma nova preocupação, centrada na inteligência artificial generativa. No discurso político e empresarial foi-se enraizando a convicção de que esta tecnologia estaria a reduzir os primeiros empregos disponíveis, precisamente aqueles que historicamente permitem aos jovens dar os primeiros passos no mercado de trabalho.
Recorrendo a uma versão dinâmica da lei de Okun, que relaciona o crescimento do emprego com o crescimento do PIB real, David Chaloupka e António Dias da Silva concluem que “quando comparados com o crescimento do PIB, os desenvolvimentos recentes no emprego jovem estão amplamente alinhados com dinâmicas cíclicas normais”. Isto significa que a fragilidade atual não resulta, para já, de uma rutura tecnológica, mas de um ajuste depois de um ciclo de contratação particularmente intenso em 2022 e 2023.
A tecnologia merece, ainda assim, atenção particular. Entre o primeiro trimestre de 2023 e igual período de 2026, o emprego jovem caiu 18,6% nas tecnologias de informação e comunicação (TIC), uma descida mais acentuada do que nos serviços profissionais, onde recuou 5,3%, e nos serviços financeiros, onde diminuiu 3,1%.
Os jovens europeus enfrentam hoje um mercado de trabalho mais exigente do que aquele que os seus pais conheceram à mesma idade.
Os autores do estudo sublinham que os resíduos da regressão são “particularmente negativos no segmento das TIC, sugerindo uma moderação que vai além dos desenvolvimentos cíclicos atuais”, um indício, ainda que isolado, de que algo mais do que o ciclo económico poderá estar em jogo neste setor específico.
Desta forma, os autores concluem que a evidência disponível “não permite ainda atribuir este padrão à inteligência artificial generativa ou ao trabalho remoto especificamente”, e notam que inquéritos junto de trabalhadores jovens e qualificados na Zona Euro mostram opiniões maioritariamente positivas sobre o impacto da inteligência artificial nas suas carreiras.
Ainda assim, os autores do estudo “Youth employment amidst cooling labour demand” evidenciam que a vigilância deve manter-se, “à medida que a inteligência artificial generativa amadurece e os seus efeitos no mercado de trabalho se tornam mais claros”.
Entre a pressão dos ciclos económicos e a sombra ainda por esclarecer da inteligência artificial, os jovens europeus enfrentam hoje um mercado de trabalho mais exigente do que aquele que os seus pais conheceram à mesma idade. O desafio não é apenas estatístico, mas também social, e vai muito além dos números que preenchem os cadernos técnicos do banco central. Fica a saber-se se a recuperação económica chegará, finalmente, também a esta geração.






