Joel Vasconcelos, diretor-geral da Lusomorango, é o 90º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Apelida o seu percurso escolar e académico como “estranho”, uma vez que, apesar de ter feito o secundário na área das ciências, acabou por enveredar por um curso superior em História. E, curiosamente, a função que hoje tem em nada está relacionada com aquilo que estudou. No entanto, Joel Vasconcelos garante que aquilo que aprendeu durante esse percurso atípico foi fundamental para hoje gerir a Lusomorango.
“Há uma grande sala fora da sala de aula onde se adquirem competências fundamentais para as empresas e para o mercado de trabalho. São skills que são ganhas e que são muito importantes na vida ativa”, começou por dizer, ao mesmo tempo que esclareceu que a sua grande prioridade era estudar em Coimbra e estar envolvido na vida académica da cidade, mais concretamente na Associação Académica de Coimbra, onde se foi desenvolvendo como pessoa e onde trabalhou o profissional que viria a ser mais tarde.
Quando terminou o curso, não teve logo colocação para lecionar e decidiu, por isso, começar pelas escolas profissionais, onde esteve quase sete anos da sua vida até entrar no governo: “Tive a oportunidade de coordenar uma escola profissional, em Leiria, e depois fui convidado para ser diretor executivo de uma outra escola profissional, em Oliveira do Hospital. A seguir surgiu a oportunidade de ir trabalhar como adjunto do então primeiro-ministro, António Costa. Aceitei e vim para Lisboa, onde fiquei com o primeiro-ministro até 2019. Depois fui, como adjunto, para o Ministério da Agricultura, e também fui, mais tarde, chefe de gabinete de dois secretários de Estado da Agricultura e Desenvolvimento Rural e chefe de gabinete da ministra da Agricultura e da Agricultura e Alimentação”.
Foi justamente durante o período em que esteve no Ministério da Agricultura que começou a sentir um enorme interesse pelo setor agrícola, mas ainda sem nunca imaginar que um dia estaria a gerir uma empresa relacionada com esse ramo. “Se me dissessem, há 10 anos, que iria hoje estar ligado ao setor agrícola, ainda por cima a gerir uma grande empresa como a Lusomorango, eu diria que a pessoa estaria louca, não poderia ser. O certo é que me apaixonei pelo setor quando estive no Ministério da Agricultura”, afirmou.
Curiosamente, no momento em que se sente a ficar “apaixonado” pela agricultura, recebe um convite que o tornaria gestor de uma empresa agrícola: “Quando eu fui contactado pela Lusomorango, deixei logo claro que não era gestor, não era economista e, portanto, se era disso que vinham à procura, estavam a bater à porta errada. A verdade é que eu tinha adquirido um conjunto de competências que a Lusomorango entendeu serem interessantes para estar a liderar a Lusomorango, apesar de não ser gestor nem economista”.
Acabou por aceitar o desafio e mantém-se até hoje na liderança da Lusomorango, que conta já com 20 anos de história. Atualmente, a empresa tem 41 produtores e é “reconhecida pela produção de amora, framboesa, mirtilo e morango”, mas Joel Vasconcelos explicou que para um produtor se juntar à empresa, há uma série de detalhes que são levados em conta anteriormente, nomeadamente a situação legal e fiscal. “Fazemos uma auditoria para perceber se cumpre um conjunto de padrões de qualidade na produção, até porque nós, na Lusomorango, temos um código de conduta laboral aprovado, em que temos de verificar se os padrões de sustentabilidade social e de conduta laboral correspondem aos nossos padrões”.
“Nós temos três aspetos centrais da nossa atividade e todos eles têm a ver com sustentabilidade. O primeiro é a sustentabilidade económica do negócio, uma vez que, se não existir, não há negócio. O ponto dois é a sustentabilidade social, ou seja, nós temos uma responsabilidade. Portanto, queremos ser sustentáveis do ponto de vista económico, mas sempre com padrões de sustentabilidade social e aí entra, naturalmente, a questão laboral. Por isso, cumprimos um contrato coletivo de trabalho com valores superiores ao salário mínimo nacional, verificamos se as nossas empresas têm todas as condições do ponto de vista da higiene, da saúde, do trabalho. Aliás, as nossas empresas fizeram um esforço muito grande para construírem as próprias habitações para os trabalhadores sazonais. E o último é a sustentabilidade ambiental“, explicou.

Pelo facto de ser uma empresa que trabalha com “pequenos frutos”, isso obriga a ter muito mais mão de obra, já que ainda não existem máquinas que consigam fazer a apanha destes frutos sem os danificar. Só que isso implica olhar para um problema, que é a escassez de pessoas, que leva a uma maior contratação de imigrantes e a uma preocupação em dar-lhes melhores condições para que se adaptem ao país e consigam viver nele: “Hoje, se não tivéssemos imigrantes, a Lusomorango não teria condições para operar, seguramente. Nós temos cinco mil trabalhadores, mas 70% são imigrantes. A verdade é que a economia nacional precisa desta mão de obra e, para isso, têm de criar condições para que estes cidadãos possam viver”.
Mas, apesar de a mão de obra menos qualificada trazer estes desafios, a verdade é que Joel Vasconcelos garantiu que a escassez de pessoas também existe na mão de obra qualificada, precisamente pelos mitos que ainda existem em torno do setor agrícola. “Este é um setor muito negligenciado e que tem sido, ao longo dos anos, mal descrito, desde os manuais escolares até à comunicação mais macro. Por um lado, criou-se uma ideia de que o setor agrícola era inimigo da sustentabilidade, do ambiente e da preservação dos recursos naturais. Mas o agricultor é o primeiro e mais antigo ambientalista. Depois, por outro lado, a sociedade olha para a alimentação como um bem adquirido, então desvalorizou a alimentação”, referiu.
Além disso, há uma ideia de que a agricultura ainda é algo feito de “enxada na mão”, o que afasta os mais jovens, mas que, novamente, é uma “ideia absolutamente errada” de acordo com o responsável da Lusomorango: “O setor tem que investir mais na comunicação para comunicar os bons exemplos e o tipo de agricultura que hoje existe. Hoje não é a agricultura de enxada na mão, hoje é a agricultura do tablet na mão. E isso faz toda a diferença”.
Esta modernização revela-se na aposta em tecnologia que o setor tem vindo a fazer, que passa por “utilizar as melhores ferramentas do ponto de vista da IA, da indústria 4.0 e da mecanização”, mas também em saber dar oportunidades iguais a todos. “Nós temos um centro de investigação na Lusomorango, que é um projeto colaborativo e único no país, dedicado aos pequenos frutos, cujo coordenador é um jovem ucraniano que tirou a sua licenciatura e mestrado na Ucrânia e veio para Portugal. Hoje ele é o coordenador do nosso centro de investigação”, contou.
“O setor agrícola é dos setores mais inovadores do ponto de vista da economia nacional e global”, garantiu Joel Vasconcelos, dando ainda outro exemplo de iniciativa levada a cabo pela empresa: “Nós estamos hoje a criar um plano de gestão ambiental, que vai terminar no final de 2028 com a certificação da pegada de carbono, da pegada hídrica e ecológica, de todos os nossos produtores, o que vai ser um fator diferenciador”.
“Ninguém nos exigiu isto, nós é que queremos fazê-lo. E sempre dentro de três pilares fundamentais: aumentar a sustentabilidade económica dos nossos produtores, respeitar e promover a sustentabilidade social e laboral, e ir mais longe na sustentabilidade ambiental“, concluiu.
Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e da Scalpers.





