Com 40 mil euros na mão, a escolha racional diria para ir ao concessionário do lado e sair com um SUV carregado de ecrãs e tecnologia de encher o olho, mas o novo Honda HR-V olha para essa tendência e recusa entrar no jogo.
Em vez de transformar o habitáculo num centro de controlo espacial que exige um curso superior para baixar a temperatura dois graus, a marca japonesa fez aquilo que muitos construtores esqueceram: olhou para a vida real de quem conduz todos os dias e criou um carro que prefere ser prático do que ser moda. E ainda bem que o fez.
Sob o capot está um quatro cilindros de 1.498 cm3 associado a um motor elétrico, resultando numa potência combinada de 129 cv e 253 Nm de binário. Os números da ficha técnica não impressionam ninguém: dos 0 aos 100 km/h leva 10,6 segundos e a velocidade máxima fica-se pelos 170 km/h. Mas quem compra um HR-V não está à procura de arrancadas, está à procura de não ir à bomba de gasolina todas as semanas. E aqui o carro cumpre.
Em condução urbana e em troços tranquilos até à Ericeira, o motor elétrico assume o comando na maior parte do tempo, com transições suaves para o motor a gasolina. O problema surge quando se pede mais dele: a caixa e-CVT deixa o motor a rodar em rotações altas de forma pouco discreta.
Não é um carro para quem gosta de pisar o acelerador com vontade, mas para quem o faz com moderação. Os consumos reais rondam os 5 l/100 km, valores honestos face aos 4,1 l/100 km WLTP anunciados pela Honda.

Numa altura em que a indústria decidiu que tudo deve estar escondido dentro de um ecrã tátil, a Honda mantém no HR-V uma consola central recheada de botões físicos para o ar condicionado e outras funções do dia-a-dia. É uma escolha que se sente logo nos primeiros quilómetros: ajustar a temperatura sem tirar os olhos da estrada é mais simples do que navegar por três submenus só para baixar a temperatura dois graus.
Esta aposta em manter o analógico sem renunciar à tecnologia moderna, com ecrã de nove polegadas, Apple CarPlay sem fios e instrumentação digital, é um dos aspetos mais elogiados pela imprensa internacional que testou o modelo.
Mas se há uma característica que distingue verdadeiramente o HR-V dos concorrentes, é o sistema Magic Seats, uma patente da Honda que remonta aos primeiros Jazz e que aqui ganha um novo propósito.
O HR-V não é o carro que vai fazer suspirar os vizinhos de inveja. Está longe de ser uma solução de arrojo, mas deixa a sensação de um carro competente.
Os bancos traseiros dobram-se na totalidade para o piso, criando um espaço de carga plano e generoso, mas também podem ser levantados na vertical, como cadeiras de cinema, libertando espaço em altura junto ao piso do habitáculo.
Na prática, isto significa transportar o cão da família sem que ele tenha de viajar em cima do banco traseiro, ou acomodar plantas, caixas altas e outros objetos que normalmente exigiriam abrir a bagageira. Não é um truque de marketing, é engenharia que resolve um problema real de quem vive com animais ou tem uma vida cheia de tralha.
Porém, nem tudo é perfeito. A bagageira, com 335 litros, fica atrás de vários rivais diretos, e a insonorização, apesar de melhorada, ainda deixa passar mais ruído de rolamento do que seria desejável em autoestrada.
O ecrã multimédia, apesar de funcional, tem gráficos que já pareciam datados quando o modelo chegou ao mercado, e a ligação sem fios ao CarPlay nem sempre é imediata. São detalhes que não arruínam a experiência, mas que impedem o HR-V de ser recomendado de olhos fechados.
O HR-V não é o carro que vai fazer suspirar os vizinhos de inveja. Com um preço acima dos 40 mil euros na versão Advance (testada pelo ECO), obriga a olhar com atenção para alternativas como o Toyota C-HR híbrido, o Peugeot 2008 ou o Hyundai Kauai Híbrido, que oferecem propostas semelhantes, algumas com preços de entrada mais competitivos.
A Honda argumenta com a fiabilidade da marca, um sistema híbrido maduro e uma garantia longa, mas quem procura o máximo de equipamento por cada euro gasto tem alternativas a considerar antes de assinar o contrato.
No final da viagem até à Ericeira, com a bagageira reconfigurada três vezes e o cão instalado sem drama nenhum nos “bancos mágicos”, o HR-V deixou a sensação de um carro competente, sem grande arrojo, mas também sem sustos. É esse tipo de proposta discreta que, para muitas famílias portuguesas, pode ser exatamente o que procuram quando as prioridades são o espaço, a economia e a ausência de complicações no dia a dia.









