
Com o mês de agosto a ‘aumentar de volume’, as marcas concluem mais uma etapa da sua digressão de verão pelo país. Numa altura em que verão ainda reserva festivais como o Vodafone Paredes de Coura ou o Meo Kalorama, é tempo de fazer o balanço de um dos maiores palcos de julho: o Nos Alive.
Ler maisNum mar de festivais, como as marcas escolhem a ‘onda certa’?O investimento das marcas nos festivais já não se mede apenas pela mancha gráfica e de brindes nos recintos, mas, de acordo com as seis marcas ouvidas pelo +M, pela capacidade de criar impacto real, relevância tecnológica e ligação emocional. Os patrocinadores do evento do Passeio Marítimo de Algés explicam o retorno obtido, a estratégia para o pós-festival e as decisões para os próximos anos.
O retorno que vai das métricas ao sentimento de “pertencer”
Com a continuidade enquanto naming sponsor já confirmada, a Nos considera esta “a melhor edição de sempre” do festival. As métricas revelam mais de 2 mil fotos no photobooth, 750 drones a iluminar as noites, 24 horas de tatuagens e uso permanente da app Guia-NOS e dos óculos inteligentes de acessibilidade.
“Deveria também salientar a receção que tivemos do nosso ‘faz fita’ [fita personalizada para telemóvel] — não me recordo de um sucesso assim no festival –, mas também a multidão que se reuniu à frente da bancada Nos para ver as atuações da Skoola. Foi de tal forma que passou de uma atuação por dia para duas”, aponta António Fuzeta da Ponte, diretor de marca e comunicação. Ainda antes da abertura de portas, a marca já tinha percorrido lojas em todos os distritos com passatempos “sempre com participações esgotadas”.
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A edição de 2026 ficou ainda marcada pela estreia do “Entusiasmómetro”, uma solução de IA da Nos Inovação. A ferramenta revelou que os Foo Fighters foram a banda mais aclamada e a que gerou mais partilhas — quase 1,7 TB de dados. Ao todo, os clientes da operadora consumiram 26,4 terabytes de dados (43% em 5G) — uma subida de 32% face a 2025 — sendo o valor superior ao consumo de toda a cidade de Coimbra durante cinco dias. O recinto recebeu também público de mais de 110 países (cerca de 15% do total).
“A Nos é hoje a marca mais associada à música em Portugal e a marca com maior visibilidade no recinto do Nos Alive. São indicadores que refletem a consistência da estratégia que temos vindo a construir ao longo dos anos. Tudo isto deixa-nos extremamente satisfeitos e também por isso resolvemos renovar a nossa parceria com o Nos Alive“, concretiza.
Na Heineken, o evento serviu de “palco ideal” para a estreia em Portugal do “Clinker”, uma pulseira inteligente adaptada aos copos que mede a compatibilidade musical via Spotify no momento do brinde, gerando mais de 15 mil “clinks”. A responsável de marketing, Catarina Ferraz, destaca o impacto validado pelo estudo Brand Sponsor, da Scopen.
A Heineken alcançou 96% de notoriedade enquanto patrocinadora. A preferência pela cerveja subiu 22% entre os consumidores no recinto e a Heineken House destacou-se como o “stand com maior visibilidade no recinto e também o que mais agradou aos festivaleiro”, referem os dados citados por Catarina Ferraz.

No capítulo da sustentabilidade, a marca recolheu 41.624 copos reutilizáveis — +76% do que em 2025 — para apoiar a Brigada do Mar, a Casa do Artista e a Liga Portuguesa Contra o Cancro. Além disso, uma parceria com a EDP permitiu instalar 122 painéis solares que geraram 2.225 kWh, energia equivalente para tirar cerca de metade das imperiais do evento.
Para outras marcas, o indicador principal foi a consolidação de território. A Fidelidade, presente há uma década nos festivais de verão, encarou o recinto como um capítulo de uma relação contínua. Cristina Tavares, diretora de branding & comunicação, resume o retorno principal na “capacidade de transformar uma experiência num vínculo duradouro com a marca”, assente em atributos como a proximidade, a confiança, a inovação e o cuidado.
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A EY focou-se na ligação emocional através do conceito “FeEl the vYbe – Music Shapes You”. A consultora associou-se à Refood para doar mais de 1.500 refeições a famílias vulneráveis. Além disso, a empresa voltou a realizar no recinto a sua convenção interna Meeting4All, reunindo cerca de 1.600 colaboradores.
Rosália Amorim, diretora de brand, marketing & communications, enfatiza o valor de “mostrar uma EY que vai além do contexto empresarial”, assim como a capacidade da marca para “gerar envolvimento autêntico e impacto positivo na comunidade” através das iniciativas desenvolvidas.

A Galp destaca a “expectativa acrescida” por ser o segundo ano consecutivo no evento. “Há uma diferença entre aparecer e pertencer, e este ano sentimos claramente que a Galp já pertence ao Nos Alive. Esse é o retorno mais difícil de quantificar, mas também o mais duradouro”, sintetiza Filipa Lopes Ribeiro, responsável de marketing.

Também a cumprir o segundo ano no recinto, a Auchan focou-se em construir notoriedade fora do contexto de loja. Margarida Monteiro, diretora de marca, revela que “os primeiros indicadores são bastante positivos”, aguardando agora pelos dados do relatório independente da Scopen. “Sentimos uma forte adesão à ativação, uma elevada interação com os consumidores e uma amplificação relevante da presença da Auchan, tanto no recinto como nos canais digitais e nos media”, resume.

As aprendizagens do recinto
Para lá dos terabytes consumidos, dos clinks de cerveja e das refeições doadas, o saldo de um festival mede-se também pelo que se aprende no terreno.
“Todos os anos o Nos Alive desafia-nos a evoluir. Mais do que testar tecnologia, testamos novas formas de aproximar pessoas, de criar experiências mais relevantes e de acrescentar valor a quem vive o festival”, enquadra António Fuzeta da Ponte. O responsável da naming sponsor enfatiza que a edição deste ano voltou a confirmar que “a tecnologia só faz sentido quando está ao serviço das pessoas”, lembrando que a robustez da infraestrutura garantiu a experiência dos festivaleiros e a emissão dos media partners oficiais, como a Rádio Comercial e a SIC.

Catarina Ferraz (Heineken) corrobora a tese, apontando que o “Clinker” demonstrou que “a inovação tecnológica faz todo o sentido num festival quando é simples e quando serve um propósito humano, que é o de aproximar as pessoas e criar memórias partilhadas”. Além disso, a marca aprendeu que “a experiência do consumidor não se traduz em ativações isoladas, mas sim em algo contínuo e coerente que começa logo na chegada à Estação de Algés e se desenrola por todo o recinto”.
Pegando nesta última ideia, Margarida Monteiro (Auchan) acrescenta que, “muitas vezes, são os gestos mais simples que criam maior ligação”, como disponibilizar um espaço para descansar ou carregar a bateria do telemóvel antes de entrar no festival. A retalhista percebeu também “a importância de ligar melhor a experiência física aos conteúdos digitais gerados pelos próprios participantes e de trabalhar em conjunto com os parceiros locais”.
Do lado de marcas como a Fidelidade, a EY e a Galp, a lição centra-se na autenticidade. Para Cristina Tavares (Fidelidade), “num contexto onde existem inúmeras propostas a competir pela atenção dos festivaleiros, são a autenticidade e a relevância que fazem a diferença“, sendo que a edição deste ano permitiu “identificar novas oportunidades para integrar de forma ainda mais fluida a experiência física e digital”.

Este campo das experiências com propósito foi também elencado por Rosália Amorim (EY). “Hoje, já não basta estar presente: é preciso criar uma razão para as pessoas se envolverem”, explica Rosália Amorim (EY), que nota a importância da proximidade, envolvimento e contribuição para a comunidade como geradores de relevância e ligação emocional.
No caso da Galp, Filipa Lopes Ribeiro destaca que este ano saíram com a confirmação de que a direção da energética é a certa, com uma presença construída “em torno de experiências, de histórias e de projetos com impacto real”. “Isso não se improvisa, prepara-se com antecedência e afina-se com o tempo”, elenca.
“Uma das aprendizagens mais concretas é que o público do Nos Alive já nos conhece e reconhece. O que é, simultaneamente, uma conquista e uma responsabilidade. Significa que a fasquia sobe. Não podemos repetir, temos de surpreender. E é com essa exigência que partimos para os próximos projetos“, conclui.
A ligação aos festivaleiros pós-festival
Encerradas as portas do Passeio Marítimo de Algés, há várias estratégias para prolongar o contacto. António Fuzeta da Ponte (Nos) destaca que o festival “faz parte de uma estratégia que se prolonga ao longo de todo o ano”, uma vez que a música é parte da identidade da marca, como visível em projetos como o “Canta ao Outro e Não ao Mesmo”.
“A música não é apenas um momento. É um território onde queremos continuar a ser relevantes, criando experiências e conteúdos que mantenham viva essa ligação, muito além do último concerto”, nota.
A Heineken estende a sua presença a palcos eletrónicos — Brunch Electronik, Neopop e o Yard — e ao concerto de David Guetta a 2 de agosto, no Parque Papa Francisco. O objetivo é “continuar a elevar a vida social dos fãs através da paixão partilhada pela música“, explica Catarina Ferraz. No plano digital, a marca lançou um runner game interativo onde os utilizadores acumulam pontos nos territórios da marca — música, futebol e Fórmula 1 — habilitando-se a ganhar passes para a edição de 2027 do Nos Alive.

A Galp prefere o roteiro presencial itinerante, tendo seguido depois para o Meo Marés Vivas, Festival Músicas do Mundo e, em setembro, vai para o Festival F. Filipa Lopes Ribeiro dá ainda o exemplo do chapéu panamá da marca, que tem origem nos festivais mas “provavelmente já muitas pessoas o encontraram em diferentes contextos: alguém a utilizá-lo na praia, numa esplanada, durante uma caminhada …”. “É um excelente exemplo que confirma que a energia dos festivais não fica no recinto e continua a contar a história da Galp muito depois do último concerto”, nota a responsável de marketing.
Para a Fidelidade, a EY e a Auchan, a estratégia passa por alimentar a relação com os festivaleiros. Na seguradora, o objetivo passa por manter a continuidade través dos diferentes canais e iniciativas da marca. “Hoje, as pessoas relacionam-se com as marcas de forma contínua e esperam encontrar a mesma coerência em todos os momentos desta interação“, argumenta Cristina Tavares.
Pelo mesmo diapasão, Rosália Amorim da EY aponta que “mais do que replicar a experiência do festival, queremos manter vivos os territórios de interesse e os pontos de contacto que nos aproximam das pessoas“, através da promoção de iniciativas que cruzam a marca com a cultura, talento, inovação e impacto social.
Já Margarida Monteiro (Auchan) destaca que “o desafio passa agora por dar continuidade à relação criada durante o festival, através dos canais de comunicação, das lojas e das iniciativas que desenvolvemos ao longo do ano”.

O futuro passa por reforçar ou diversificar?
Longe da agitação do Passeio Marítimo de Algés, o fim de mais uma edição deixa também no ar como os patrocinadores vão movimentar-se de futuro. O caminho passa por reforçar a presença em eventos como Nos Alive ou a eficácia passa por espalhar a presença por diferentes palcos? As respostas complementam-se.
António Fuzeta da Ponte garante que o Nos Alive “continuará a ser um ativo estratégico”, sendo que o mais importante “não é estar em mais eventos, mas estar nos territórios certos, de forma relevante e consistente”.
A Heineken descarta também a escolha binária, procurando estar “nos momentos culturalmente mais relevantes para os consumidores”, refere Catarina Ferraz. Nesse sentido, a aposta passa por “manter um equilíbrio” entre vários tipos de evento, de forma a ir ao encontro de um público mais alargado.
A Galp aposta em garantir profundidade e alcance em simultâneo. “O Nos Alive é, e continuará a ser, o nosso palco principal. Mas limitar-nos a um único festival seria contrariar aquilo em que acreditamos: que a Galp tem de estar onde estão as pessoas, e as pessoas não estão todos no mesmo sítio”, defende Filipa Lopes Ribeiro.

Um raciocínio semelhante ao da Auchan, cuja presença dividida entre o Festival Panda, Nos Alive e Marés Vivas procura “construir uma presença coerente em territórios que façam sentido para a marca e para os diferentes públicos com quem queremos reforçar a proximidade”.
Por fim, para Fidelidade e EY, a decisão liberta-se da escala do evento. Cristina Tavares sublinha que para a seguradora “o que pesa verdadeiramente na decisão é a capacidade de cada evento contribuir para os objetivos estratégicos da Fidelidade e reforçar, de forma consistente, a relação que queremos construir com as pessoas”.
Na mesma linha, a EY defende que a sua estratégia passa por passa por apoiar iniciativas que promovam criatividade, diversidade de perspetivas, inovação e impacto positivo na sociedade, dando como exemplos as exposições “Moldar o Amanhã” e “Crafting with AI”.

“Uma marca deve estar presente nos espaços onde se discutem e imaginam os temas que vão moldar o futuro. Por isso, a nossa estratégia passa por construir uma presença coerente, mas não necessariamente igual, nos diferentes territórios onde a EY pode acrescentar valor e criar relações relevantes”, resume Rosália Amorim.






