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O novo ritmo do mercado de M&A: menos operações, mais exigência

O mercado de M&A arrancou o ano com menos operações e menor valor transacionado. Ainda assim, os advogados garantem que o mercado continua ativo, embora mais seletivo e focado em ativos de qualidade.

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Os números revelam que o setor de M&A nos primeiros meses de 2026 esteve em queda em relação ao ano anterior. Segundo a TTR Data, até junho, no mercado transacional português foram concretizadas 195 operações, num valor total de 2,3 mil milhões de euros. Ou seja, uma queda de 38% no número de transações em comparação com o mesmo período de 2025.

Em análise à Advocatus, os advogados consideram que o mercado de M&A em Portugal no primeiro semestre ajustou-se, havendo menos operações, mas mais seletivas e de maior valor. Mas a sócia da Vieira de Almeida (VdA), Cláudia Cruz Almeida, deixa uma nota: existe um “desfasamento” entre os números publicamente disponíveis e a realidade no terreno.

“A realidade no terreno revela, contudo, a existência nos últimos meses de transações bilaterais no chamado mid-market, cuja conclusão não é publicada e que pode enviesar a perceção que os dados públicos nos oferecem da dinâmica do mercado transacional”, refere.

Ainda assim, a advogada considera “inegável” que os choques adversos a que assistimos no início de 2026, como as tempestades, os conflitos internacionais e a consequente escalada dos preços da energia, contribuíram para uma “deterioração do sentimento económico” e para uma “desaceleração do ritmo transacional”.

Também Manuel Cordeiro Ferreira, sócio da Pérez-Llorca, sublinha que os números devem ser interpretados tendo em conta o contexto de mercado e a “experiência prática de quem está no terreno e garante: “o mercado português parece ter tido menor volume estatístico no início do ano, mas continua ativo em segmentos específicos e mais sofisticados”.

“A nossa perceção não é a de um mercado parado. É antes a de um mercado mais seletivo. Há menos processos puramente exploratórios, mas continuam a avançar operações com racional estratégico claro, compradores bem capitalizados e ativos de qualidade”, nota.

Em termos de valor, os números também apontam para menos capital mobilizado. Dados da TTR Data revelam uma diminuição de 49% em comparação com 2025.Os dados mostram que houve um menor número de transações e que o seu valor agregado bruto é também inferior ao valor registado no período homólogo. No entanto, o volume por transação é superior, o que consideramos ser uma consequência da maior seletividade do mercado que já referimos”, sublinha a sócia contratada da Abreu Advogados Rita Albuquerque.

No entanto, Manuel Cordeiro Ferreira deixa duas ressalvas: que Portugal é um mercado em que o valor agregado pode “oscilar muito em função de uma ou duas operações de grande dimensão” e que, “embora o mercado tenha uma noção mais ou menos clara das avaliações e preços praticados”, nem todas as transações são “reportadas com a indicação do preço pago pelo comprador”.

“Sabemos que existe capital disponível para bons ativos, mas não capital indiscriminado. Os investidores estão mais disciplinados em preço, mais atentos à estrutura de financiamento e mais exigentes em tudo, mas em especial na análise de riscos regulatórios, das necessidades de working capital e capex, e da capacidade efetiva de geração de receita”, explica o sócio da Pérez-Llorca.

Os mega-deals
Em 2026 foram concluídas duas grandes transações: a venda do Novo Banco ao BPCE por 6,4 mil milhões de euros e a aquisição da Secil pela Cementos Molins, por 1,4 mil milhões de euros.

Entre os fatores que os advogados consideram que mais influenciaram a atividade de M&A no primeiro semestre está a incerteza geopolítica, os custos e disponibilidade financeira, volatilidade dos preços de energia e até fatores regulatórios.

“O custo e a disponibilidade de financiamento, diretamente impactados pelas sucessivas descidas nas taxas de juro ao longo de 2025 e início de 2026, permitiram condições mais favoráveis ao financiamento de aquisições. Contudo a previsão da subida das taxas de juros já anunciada pelo BCE poderá impactar o mercado de M&A no próximo semestre”, alerta Rita Albuquerque.

A sócia contratada da Abreu Advogados destacou ainda que a incerteza geopolítica internacional, o risco de tarifas crescentes no panorama mundial e a volatilidade nos preços da energia também têm afetado negativamente o mercado. “A par destes fatores, a pressão da inflação e o consequente aumento dos custos operacionais têm-se refletido numa maior utilização de cláusulas de ajustamento de preço e de mecanismos de earn-out, acrescenta.

Rita Albuquerque alerta também que a regulação é um fator que muitas vezes “não é tido em conta”, mas que em Portugal assume grande importância. “O crescente escrutínio no controlo de concentrações é, em si mesmo, um fator de planeamento estratégico, com o timeline do closing a poder estender-se até 120 dias úteis, o que afeta, inevitavelmente, a estruturação dos acordos e a dinâmica do mercado”, refere.

À Advocatus, Manuel Cordeiro Ferreira explica que todos estes fatores têm impacto prático em três planos: na avaliação dos ativos, porque “compradores e vendedores continuam por vezes desalinhados quanto a múltiplos e projeções”; no financiamento, porque “a alavancagem disponível e o custo da dívida condicionam diretamente a capacidade de execução de uma aquisição”; e na due diligence, porque os “investidores estão a escrutinar em maior detalhe a resiliência dos planos de negócio e a capacidade de enfrentar diversos riscos endógenos, como os riscos regulatórios, e exógenos, como os riscos geopolíticos e tarifários”.

Em setores como energia, infraestruturas e telecomunicações, este efeito é ainda mais visível, porque são setores regulados, de capex intensivo, e por isso expostos a horizontes de investimento mais longos”, acrescenta.

Os setores mais dinâmicos do M&A

Tecnologia, imobiliário, energia, infraestrutura, hotelaria e turismo foram alguns dos setores mais ativos em operações de M&A nos primeiros meses do ano apontados pelos advogados.

“Em Portugal, todos estes setores devem ser analisados também numa lógica ibérica. Muitos investidores internacionais olham para Portugal e Espanha em conjunto, seja por escala, seja por afinidade regulatória e comercial, seja porque a plataforma de investimento é frequentemente ibérica”, aponta Manuel Cordeiro Ferreira.

Por exemplo, no caso de imobiliário, o advogado destaca que as alterações no regime dos Vistos Gold não reduziram o ímpeto transacional nesta área, “em que as operações seguem de mãos dadas com a liberalização da criação e gestão de veículos de investimento coletivo”. “Um bom exemplo de como a simplificação legal e regulatória é um fator exponenciador do mercado”, acrescenta.

Cláudia Cruz Almeida revelou que o setor alimentar foi uma das áreas que a surpreendeu pelo dinamismo no primeiro trimestre. “Resta saber se se tratou de uma coincidência ou se vamos efetivamente assistir a uma intensificação das transações neste subsetor”, nota.

Para Rita Albuquerque as duas áreas que continuam a surpreender pela consistência no seu crescimento são a de hotelaria e turismo premium e o setor da saúde privada. “A consolidação no setor da saúde privada é um fenómeno estrutural, necessariamente relacionado com o envelhecimento da população, o crescente interesse em seguros de saúde e a digitalização dos serviços de saúde”, considera.

“Mais do que uma surpresa absoluta, destacaria o dinamismo que os ativos que estão na interseção entre energia, infraestruturas e tecnologia continuam a demonstrar. Centros de dados, capacidade de rede, disponibilidade de energia competitiva, armazenamento, conectividade e segurança de abastecimento passaram a ser analisados de forma integrada. Algumas das principais transações ibéricas recentes em energias renováveis e infraestruturas ilustram bem esta tendência, combinando ativos de geração, redes e tecnologia numa mesma tese de investimento”, aponta Manuel Cordeiro Ferreira.

Investimento estrangeiro permanece um motor

O investimento estrangeiro continua a ter um papel relevante no mercado nacional de M&A e, segundo Rita Albuquerque, passou a ser uma “condição estrutural” do mercado e os números confirmam-no de forma inequívoca.

De acordo com os dados do Banco de Portugal, no final do primeiro trimestre de 2026, o investimento direto estrangeiro em Portugal ascendeu a cerca de 218 mil milhões de euros. Deste valor, cerca de mil milhões de euros foram direcionados para investimento imobiliário, mas o “remanescente foi aplicado em capital de empresas portuguesas”.

O investimento estrangeiro continuou a ser um pilar estrutural do mercado de M&A em Portugal, continuando a beneficiar da sua estabilidade política, integração europeia, ambiente de negócios favorável e disponibilidade de ativos de qualidade em setores-chave, fatores que o consolidam como jurisdição atrativa para investidores internacionais”, assume Cláudia Cruz Almeida.

À Advocatus, Rita Albuquerque explicou ainda que o capital concentra-se em setores de elevado crescimento e “enorme potencial” de valorização, como a tecnologia, as energias renováveis, o turismo e o imobiliário, com origem predominante de países europeus e Estados Unidos.

A advogada destacou também o papel crescente dos fundos internacionais, em particular norte-americanos. “São investidores de elevadíssima sofisticação financeira, que operam através de veículos de private equity e venture capital e que, além de capital e do papel ativo de aceleração e dinamização do tecido económico nacional, trazem consigo padrões de exigência acrescida em matéria de due diligence, governance e de estruturação contratual, contribuindo para elevar o nível de todo o mercado”, refere.

No caso dos fundos de private equity, dados da TTR Data revelam que foram contabilizadas até junho 31 transações, representando uma queda de 36% no número de operações em comparação ao mesmo período de 2025. O setor demonstrou, neste primeiro semestre de 2026, uma maturidade e uma capacidade de adaptação notáveis”, revela Rita Albuquerque.

Também Manuel Cordeiro Ferreira considera que neste setor o “apetite continua a existir”, mas está mais “disciplinado” e “seletivo”. E sublinha: a “célebre dry powder” continua em níveis históricos, impulsionada pela “progressiva democratização do investimento em fundos e veículos alternativos”.

“Os fundos continuam pressionados para investir, desenvolver plataformas, fazer add-ons e gerar liquidez. Mas estão menos disponíveis para pagar múltiplos agressivos sem uma tese de criação de valor muito concreta. O foco está em ativos resilientes, modelos com geração de caixa, oportunidades de consolidação e setores com crescimento estrutural”, explica o sócio da Pérez-Llorca.

Cláudia Cruz Almeida revela ainda que estão em preparação ou em “fase avançada de negociação” algumas transações de dimensão assinalável que têm atraído o interesse de investidores com este perfil sem que se sinta uma diminuição de apetite face ao ano passado. “Tem sido observada uma tendência de simplificação de portefólios e de desinvestimentos por parte de investidores de private equity, que perdura ao longo deste ano e gera transações que despertam muito interesse dos private equity, quer como vendedores quer como compradores”, acrescenta.

Otimismo moderado para o segundo semestre

E para o segundo semestre? O que podemos esperar? Os advogados estão otimistas e esperam meses de recuperação e mais ativos.

Tenho a expectativa de que venhamos a assistir a uma recuperação e aceleração no segundo semestre. Os choques adversos que marcaram o início do ano – tempestades, energia, sentimento – são temporários, e os pilares que sustentam o mercado português mantêm-se sólidos: estabilidade macroeconómica, banca bem capitalizada, dívida pública em queda, liquidez abundante e uma posição competitiva em setores estratégicos”, considera a sócia da VdA, que sublinha que o pipeline transacional que observa é robusto.

Também Manuel Cordeiro Ferreira está expectante que seja um segundo semestre de continuidade de um mercado “seletivo”, com possibilidade de aceleração em setores específicos e para ativos de qualidade. “Tendo em conta que os relatórios do primeiro trimestre de 2026 mostraram atividade mais fraca do que os de 2025, existe espaço para alguma recuperação na segunda metade do ano, sobretudo se o pipeline de operações que hoje estão em preparação ou já em curso se materializar como se espera”, aponta.

O sócio da Pérez-Llorca revela ainda que existem um conjunto de ativos no mercado “muito interessantes” que animarão a atividade nos próximos tempos, “mas ninguém espera um regresso a breve trecho a um mercado de exuberância”. “O mais provável é que os investidores continuem prudentes, os processos continuarão exigentes e a execução dependerá muito da qualidade do ativo, da preparação do vendedor e da disponibilidade de financiamento”, acrescenta.

Já a sócia da Abreu Advogados antecipa uma aceleração do mercado, mas cautelosa. “Esta aceleração não será, muito provavelmente, indiscriminada e isso poderá ser, em nossa opinião, bastante positivo. O mercado está a amadurecer, e os investidores mais sofisticados procuram operações bem estruturadas, com análise de risco rigorosa e uma exigência contratual mais elevada. Este escrutínio mais fino não é um obstáculo ao mercado, mas um sinal de um mercado que evoluiu e que está a operar num nível de qualidade superior”, refere.

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