“Temos um slogan, ‘Leiria não existe’. Temos uma dimensão económica relevante e uma dimensão política irrelevante. Eu faço parte dos políticos irrelevantes… todos os que são bons estão em Lisboa, não é? Saindo deste círculo, tudo o que existe são pacóvios”. À luz do ganho de notoriedade a partir de 28 de janeiro, as palavras de Gonçalo Lopes, num podcast dias após a tempestade Kristin, sabem a fina ironia.
De facto, se a 12 de outubro, quando venceu pela segunda vez consecutiva as autárquicas em Leiria com maioria absoluta, o socialista poderia estar entre as muitas centenas de autarcas cuja notoriedade não supera em muito os paços do concelho, em fevereiro ninguém teria dúvidas de que o presidente da Câmara de Leiria é tudo menos um político irrelevante. Mais de três décadas após se juntar ao PS na onda da contestação estudantil da “geração [apelidada de] rasca”, o ex-atleta de andebol saltou para a ribalta a 28 de janeiro, quando apareceu perante câmaras de televisão a apelar ao país para acudir à sua região e ao Governo para decretar estado de calamidade.
Gonçalo Nuno Bértolo Gordalina Lopes, filho de uma professora e de um pequeno empresário em Leiria, nasceu a escassa distância da Base Aérea de Monte Real. A guerra civil que se ameaçou em Portugal a 25 de novembro de 1975, quando um grupo de paraquedistas ocupou a base, não se confirmou, mas o pequeno Gonçalo, então com dois dias de vida, começava o caminho de vida que o trouxe aqui.
Precisamente Kristin, fenómeno de 28 de janeiro, bem como o incêndio que se abateu sobre o “pinhal de Leiria” e a morte do pai são os três dias mais difíceis da sua vida, afirmou numa das muitas entrevistas que deu neste meio ano. Nunca a sua notoriedade foi tamanha, mesmo que leve duas décadas passadas na Câmara de Leiria entre vereação, vice-presidência e presidência da autarquia.

Pivot no andebol, pivot de Leiria na tempestade
Em 1993, prestes a fazer 18 anos, o benfiquista interrompeu o percurso de pivot de andebol no Atlético Clube da Sismaria nos escalões de formação, e rumou à universidade, em Lisboa. Ambos os filhos lhe seguiram as pisadas: Pedro é atleta, mas prefere os pés, tendo o seu clube de futsal, Centro de Convívio e Recreio do Telheiro, ficado desalojado após a Kristin. Simão está em Lisboa a estudar.
Para curso, o jovem Gonçalo escolheu economia. A necessidade de “compreender a sociedade do ponto de vista económico e o que leva à geração de riqueza de um país” motivaram-no, conta ao ECO.
Na capital, o autarca formou-se em Economia no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e politizou-se. Na família, foi o primeiro a enveredar por esse caminho, reconhece. “Acabo por ganhar a paixão pela política desde novo. Inscrevi-me na Juventude Socialista no período das maiorias absolutas do Cavaco Silva, com algumas crises, a PGA… foi motivo de entrada de muita gente jovem”, recorda.
Acabo por ganhar a paixão pela política desde novo. Inscrevi-me na Juventude Socialista no período das maiorias absolutas do Cavaco Silva, com algumas crises, a PGA… foi motivo de entrada de muita gente jovem.
Era o tempo das contestações estudantis contra o Governo de Aníbal Cavaco Silva, e entre palavras de ordem gritava-se “PGA pró lixo” – a Prova Geral de Acesso, exame especial de pré-candidatura à universidade, continha uma vertente de cultura geral em que um dos vocábulos apresentados para definição dos alunos era “prolixo”.
O termo empregue a quem é palavroso poderia ser empregue a um amigo feito no ISEG, um jovem dois anos mais novo proveniente de São João da Madeira: Pedro Nuno Santos . É a amizade com PNS que leva Gonçalo Lopes a pôr-se a seu lado, em 2023, na corrida contra José Luís Carneiro à liderança do PS.
Tal como na batalha pós-Costismo, o leiriense escolheu o lado do vencedor na contenda anterior dos socialistas, quando Costa desafiou António José Seguro e atirou este borda fora da liderança da cúpula do partido, para um ano depois formar a “geringonça” em que PNS se tornaria pivot na relação com PCP e Bloco de Esquerda.
Quis o destino político que ambos os preteridos estejam agora em lugares de destaque, enquanto os que apoiou andem arredados dos holofotes da política nacional. “Foram duas escolhas extremamente difíceis. Estamos a falar de quadros valiosos do ponto de vista humano, técnico, e tem de ser enquadrado nas lógicas do contexto em que se inserem. António Costa era a pessoa que naquele momento conseguia mobilizar massa crítica externa ao partido com mais veemência. Conseguia mobilizar a sociedade civil“, justifica, num flashback ao apoio dado ao adversário do atual Presidente da República em 2014.
[Em 2014] António José Seguro, do ponto de vista da capacidade técnica, do esforço, era um candidato irrepreensível. Mas reconhecia-se no António Costa mais dinâmica de vitória. Não por um ser melhor que o outro. Era a lógica da capacidade de mudar, que se veio a verificar.
“António José Seguro, do ponto de vista da capacidade técnica, do esforço, era um candidato irrepreensível. Mas reconhecia-se no António Costa mais dinâmica de vitória. Não por um ser melhor que o outro. Era a lógica da capacidade de mudar, que se veio a verificar”.
Entretanto, António Costa demitiu-se de primeiro-ministro em 2023 em pleno mandato de maioria absoluta, e o PS teve de enfrentar nova luta interna fraturante. “Conheço Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro há muitos anos. No entanto, o Pedro Nuno Santos conheço desde os tempos da faculdade. Temos uma relação pessoal de muitos anos. Sempre acompanhei o seu trajeto, na universidade tirámos o mesmo curso, economia. Sempre acompanhei o dirigente associativo nas famosas listas do ISEG, que eram listas mais à esquerda. Por isso, tinha relação pessoal bastante marcada, e foi essa a razão principal para o apoio, para além de reconhecer a coragem e o ímpeto reformista que tem”.
Conheço Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro há muitos anos. No entanto, o Pedro Nuno Santos conheço desde os tempos da faculdade. Temos uma relação pessoal de muitos anos.
Já sobre José Luís Carneiro, o candidato derrotado no PS em dezembro 2023, o autarca socialista diz ao ECO: “na altura, conversámos muito, expliquei-lhe os motivos, que estou a tornar públicos agora. Os quais ele aceitou e entendeu. É uma amizade de há muitos anos. O José Luís Carneiro nunca deixou de acreditar no meu projeto. Criámos uma relação de empatia e relacionamento extraordinário”, assegura o autarca, acentuando que “nenhum deles perde. Eles sucedem ao António Costa. Só um é que ganha, em bom rigor”.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Leiria e Marinha Grande, nas zonas afetadas pela tempestade Kristin.
Rui Miguel Pedrosa/ECO
Fama soprada por todo o país pelos ventos de Kristin
Antes da política, Gonçalo, primeiro militante socialista a chegar a presidente da Câmara de Leiria, começava a jogar em equipa aos 10 anos. “Os amigos que fiz no andebol são dos melhores que tenho na vida”, dizia, em 2016, então na qualidade de vereador do Desporto, numa entrevista ao jornal Região de Leiria. Nesta altura, já tinha deixado Lisboa para trás.
Saído do ISEG, onde ainda ficou o amigo Pedro Nuno a conjugar vida académica e caminhada política, Gonçalo iniciou a vida profissional na companhia de seguros Império, na área do resseguro – desde 28 de janeiro, verifica in loco a importância de uma companhia se segurar ela própria dos danos gigantescos trazidos por Kristin.
Regressado à sua terra, e já com o cartão de militante socialista tirado em 1994, ingressou na Assembleia Municipal da Câmara de Leiria quando acabara de completar 22 anos de idade, nas autárquicas de 1997. Esteve também na Região de Turismo de Leiria como economista, mudando-se para o Instituto Português da Juventude como delegado regional.
O seu CV inclui ainda professor no ensino superior em gestão e turismo, dirigente no pequeno clube onde foi atleta e assessor do último governador civil de Leiria enquanto adjunto.
“A política autárquica acontece num momento em que havia um ano tinha sido convidado para fazer parte do gabinete de apoio ao governador civil. Fui desafiado para ser vereador, ganhámos sem maioria, na altura com o candidato independente Raul Castro”, recapitula.
Os amigos que fiz no andebol são dos melhores que tenho na vida.
Em 2021, quando levava já dois anos de presidente substituto após o “dinossauro” Raul Castro deixar a autarquia para se lançar para Lisboa, Gonçalo Lopes apresenta-se pela primeira vez como candidato a presidente da autarquia. A oposição social-democrata, que perdera a câmara em 2009 para Castro (o qual, em 2021, abandonou São Bento e foi candidatar-se e conquistar a Câmara da Batalha), vinha de dois anos a questionar a capacidade de Lopes no cargo.
No discurso da noite eleitoral, o candidato vitorioso, então com 44 anos, enaltecia que “é a primeira vez que um socialista ganha uma eleição autárquica em Leiria, com uma idade bastante jovem e com um programa bastante ambicioso”.
Além de ganhar a câmara com maioria, chegou a presidente da Comunidade Intermunicipal (CIM) Região de Leiria, conquistando lugar de destaque no espaço político da região.
Em 2021, recorde-se, Leiria foi vencida com maioria absoluta contra um PSD dividido – o vereador laranja Álvaro Madureira foi imposto para candidato por Rui Rio, então presidente do partido, contra a vontade de boa parte da estrutura local, incluindo o líder desta, Rui Rocha, à data presidente da Câmara de Ansião e hoje secretário de Estado. Ficava, assim, o momento da confirmação para 2025, o que sucedeu mesmo a 12 de outubro.
“Reforcei a votação duas vezes. Acho que tenho mérito pela vitória”, considera, em conversa com o ECO. Em 2021 “havia uma expectativa de quem desafia. Sempre que sai um presidente e entra um candidato novo, embora com experiência, é uma oportunidade de ter sucesso. Acho que naquele momento estávamos a viver da parte da câmara um trabalho de recuperação económica em que eu tinha sido responsável pelos dois pelouros. Os leirienses reconheceram-no”. Ainda assim, no início daquele dia eleitoral de 2021, o socialista leiriense sabia que lutava num concelho onde a história mostrava que o PSD vence sempre as legislativas. E por isso reconhece hoje:
"Eu próprio tinha dúvidas. O que se provou é que os leirienses sabem distinguir nas autárquicas as questões ideológicas e partidárias. Obtive apoio de muitas pessoas que voltam à esquerda e à direita.”
Apesar do sucesso regional, a projeção para lá de Leiria viria alcandorada na ciclogénese explosiva Kristin, que o levou a mostrar-se pivot da região na reclamação de meios para acudir às populações e reconstruir um território devastado.
“Só agora percebo… eu não saio muito de Leiria… no outro dia, vim jantar a Lisboa, chega-se um senhor ao pé de mim, reconhece-me, e disse ‘quero mostrar-lhe uma fotografia’”. A foto era de uma carrinha carregada de mantimentos deixados junto ao Estádio de Leiria. Este cidadão, tal como outros não leirienses, reconhecem o presidente da capital do distrito mais afetado pela tempestade “devido a este fenómeno. Em condições normais, nunca me iriam conhecer”, reconheceu o autarca numa entrevista, em maio, à Antena 1.

Governo e Chega dinamizam o novo homem forte do Centro do país
Gonçalo Lopes deu-se a conhecer ao país com um pedido de auxílio para Leiria. Mais tarde, contou ter telefonado a Montenegro após o almoço a solicitar a declaração de estado de calamidade. Algo a que o chefe do Executivo mostrou resistência ao longo do dia 28. “De forma geral, não excluímos nada, mas também não vamos tomar medidas sem a devida fundamentação”, respondera o primeiro-ministro nessa tarde.
Ao ECO/Local Online, Gonçalo Lopes assegurava, em abril, que “O Governo demorou a perceber o que tinha acontecido em Leiria e nesta região. Compete ao Governo analisar o que é que falhou nesse aspeto. É impossível que uma capital de distrito tenha que reclamar um estado de calamidade que, no início, não era necessário, e depois, passado um dia, já era…”
Crítico da indefinição do Governo, diz que “ali, qualquer coisa não funcionou”.
Revelou-se ali premonitória a frase deixada na campanha para o segundo mandato de quatro anos na câmara, em outubro de 2025: “Protegemos as pessoas mesmo nas áreas onde os governos falharam”.
O Governo demorou a perceber o que tinha acontecido em Leiria e nesta região. Compete ao Governo analisar o que é que falhou nesse aspeto. É impossível que uma capital de distrito tenha que reclamar um estado de calamidade que, no início, não era necessário, e depois, passado um dia, já era…
Falha houve também no alerta das autoridades centrais: “O aviso não veio atempadamente, nem acertou no sítio, nem na intensidade. O que se sabia é que ia haver uma tempestade, iria ser forte e entrar entre Figueira da Foz e Mira. Teria efeitos, mas não seria aqui o epicentro”, recorda. “Quando se vê algo desta dimensão, as pessoas só prestam atenção quando aparece alguém de topo a falar ao país“. Esse “alguém” teria de ser Montenegro, salienta, ao ECO/Local Online. Só que o Governo “não teve noção do que ia acontecer. Nem tiveram noção duas horas a seguir. Foi preciso mandar dois murros na mesa para que alguém pudesse verificar que tínhamos isto destruído”.
Segundo o autarca, os prejuízos em património municipal raiaram os 200 milhões de euros.
Enquanto, a 28 de janeiro, o primeiro-ministro dizia, ainda em Lisboa, ser necessário avaliar os prejuízos deixados pela tempestade antes de se pensar em estado de calamidade, Gonçalo Lopes escrevia na sua conta no Instagram que “a dimensão dos danos e o impacto na vida das pessoas ultrapassam a capacidade de resposta de um município”.

"Foi preciso mandar dois murros na mesa para que alguém pudesse verificar que tínhamos isto destruído", denuncia Gonçalo Lopes a propósito da reação de Lisboa a 28 de janeiro
Hugo Amaral/ECO
No dia seguinte, 29 de janeiro, uma comitiva de vários automóveis topo de gama chegava a Leiria proveniente de Lisboa, com Luís Montenegro incluído. O chefe do Governo via com os próprios olhos o que o autarca dissera um dia antes, quando as suas palavras ainda não mereciam total crédito de São Bento e a própria oposição se mostrava reservada nas reações a partir de Lisboa.
Um mês depois, com o comboio de tempestades em alta velocidade, o socialista acentuou críticas no podcast “Perguntar Não Ofende”. “O fenómeno Kristin em Leiria já teria sido abafado se não fosse o contributo e a presença dos jornais e da comunicação social em Leiria. Houve uma tentativa clara de desviar meios para outros territórios menos afetados”, acusou Gonçalo Lopes, numa das várias declarações em contraciclo com o Governo. Um dos alvos mais claros, o ministro da Defesa e líder do CDS, Nuno Melo.
O autarca tornou-se rosto de uma mobilização do poder local que, três semanas após o fenómeno natural, já tinha movimentado 1,75 milhões de metros quadrados de lonas, 3.000 telhas, 380 toneladas de bens alimentares e de higiene e para cima de uma centena de geradores para acudir a muitos dos 94 mil leirienses que ficaram sem energia. E mais geradores poderiam ter vindo, se o Governo ativasse o mecanismo de ajuda europeia. Nova alfinetada no Executivo de Montenegro.

Dois dias após a tempestade, foram Marcelo Rebelo de Sousa, então Presidente da República, e Maria Lúcia Amaral, então ministra da Administração Interna, a visitar o concelho. Outros governantes e políticos se seguiram, e a dada altura o autarca causou polémica ao dizer que Leiria não podia ser local de visita como um jardim zoológico.
“Nós não precisávamos de aulas. O que precisávamos era soluções”, afirmou no final de fevereiro. “Há uma maneira [de fazer] política com a qual não me identifico. Os partidos principais, PS e PSD, e os outros, deixem esta tentação do parecer. As pessoas muito esclarecidas, que felizmente são muitas, já não conseguem aturar esse tipo de política. Sobretudo aqueles que andam há anos nisto”. E meditava em perguntas que o próprio ia fazendo: “Você vem para resolver alguma coisa?” Vem para fazer um número? Mais? Estou cansado. Missas? Tem que acabar esta maneira de fazer política”.
Há uma diferença entre “política de proximidade” e “quem faz política para a televisão e para o espetáculo. Para ser eleito presidente da câmara, não precisei da televisão para me ajudar”, atirou Gonçalo Lopes.
Nas primeiras semanas, sucederam-se as conferências de imprensa. Numa delas foi ao castelo e ali alertou que a estrutura estava em risco. Noutra, exigiu apoios do Estado e acentuou que estes “resultam de impostos. Não estou a pedir nada de mais. Estamos habituados a trabalhar, pagar impostos e fazer coesão com os territórios. Está na altura de o país agora nos ajudar a nós”.
Reivindicativo, o também presidente da Federação Distrital de Leiria do PS exigiu a extensão da isenção de provisória de portagens na zona. E pediu que o “Governo ponha a mão na consciência“.
Em abril, nos três meses passados desde Kristin, Gonçalo Lopes criticava, numa entrevista ao ECO/Local Online, o part-time dos técnicos da bolsa de avaliadores dos pedidos de auxílio da população. Uma resposta às críticas de demora da autarquia em responder aos cidadãos com casas afetadas.
Antes, em março, a Comissão Política Distrital de Leiria do PSD (na qual é presidente da Assembleia Distrital o secretário de Estado Rui Rocha, um dos dois enviados por Montenegro para Leiria ao final da tarde de dia 28 de janeiro), acusara o autarca de tomar posições “que privilegiam o individualismo político e a afirmação partidária” e escreveu, num comunicado:
"A tempestade Kristin, assim como as que se seguiram, acabou também por evidenciar esse caminho, protagonizado pelo presidente da Câmara Municipal de Leiria, que optou por um discurso de natureza marcadamente partidária e de afirmação pessoal num momento que deveria ser de convergência institucional em defesa do território.”
Num momento de fragilidade do Partido Socialista nacional, menos de um ano passado desde a grande derrota que atirou o PS para terceira força política nas legislativas, atrás do Chega, Gonçalo Lopes, ex-mandatário da candidatura de Pedro Nuno Santos (o secretário-geral que permitiu esse desastroso resultado eleitoral) às legislativas de 2025 e presidente da distrital socialista de Leiria, torna-se uma voz forte a nível nacional. Com José Luís Carneiro ainda a sondar os terrenos que pisava enquanto secretário-geral, uma das vozes mais fortes contra o Governo surgia de Leiria.

O líder do Chega também não passava incólume das posições públicas do autarca, aproveitando o tempo de antena que ganhou a 28 de janeiro. “Aquilo que aconteceu a seguir à tempestade foi uma intervenção que gerou uma enorme confusão em muitas cabeças de quem só pensa Lisboa”, dizia Gonçalo Lopes em janeiro, ainda o país o começava a conhecer das televisões. Da sua terra enviou, já em fevereiro, uma outra mensagem que se lhe colou à pele:
"Aquilo que tenho assistido nos últimos dias é um carrossel de pessoas a vir a Leiria como se de um jardim zoológico se tratasse.”
De voz firme em frente ao Estádio Municipal, Gonçalo Lopes pedia “um Governo forte, sensibilizado e próximo das pessoas” e dizia, com André Ventura como alvo, ser “ridículo quando alguém quer oferecer meia-dúzia de garrafas de água e se filma para trazer, numa carrinhazinha pequenina, ajuda ao distrito e ao concelho de Leiria. Acho que é ridículo! Acho que é uma ofensa ao que estamos a passar!”.
Mais tarde, em maio, numa entrevista na Antena 1, regressou ao tema e acentuou que naquela visita de Ventura a Leiria se “sentiu revoltado”. “Não se pode aproveitar da catástrofe para ir buscar meia dúzia de votos”, reiterou.
O Chega já havia reagido, nas reuniões de câmara, às declarações iniciais. Luís Paulo Fernandes, vereador do partido, exigiu um pedido de desculpas para Ventura, dizendo, sobre o facto de Ventura “ter carregado numa carrinha pequenina água”, que “o presidente de um partido deve dar o exemplo. Nem que fosse só uma garrafa!”
Gonçalo Lopes já admitiu que Kristin marcou um novo passo na sua vida política e que algo ficou claro a partir de 28 de janeiro: “o escrutínio sobre o meu trabalho iria ser muito maior a partir da tempestade. Tudo o que faria ou dizia ia ser ouvido e escrutinado por muito mais pessoas”.
Comecei a receber mensagens da Suíça, da Holanda, ameaçadoras… nunca me aconteceu isto. Mas nunca me preocupei muito com isso.
Sem papas na língua, regressou a um tema gerador de conflito com o vereador Luís Paulo Fernandes: “Nunca tinha a ideia de que o escrutínio iria ser numa lógica de um exército de seguidistas sem massa crítica. Longe de mim pensar que isto existia”. Contudo, assegurava o autarca socialista, as críticas lançadas às visitas de políticos vindos de Lisboa criaram uma nova realidade: “comecei a receber mensagens da Suíça, da Holanda, ameaçadoras… nunca me aconteceu isto. Mas nunca me preocupei muito com isso”.
Luís Paulo Fernandes, deputado do Chega no Parlamento e vereador sem pelouro na câmara de Leiria, acusou o edil de estar num “delírio democrático”, considerando mesmo que Gonçalo Lopes “não estará em plenas condições intelectuais”.
Gonçalo Lopes referira, ao mesmo Região de Leiria:
"Há aqui um capital político que é eminentemente próximo do Governo e próximo do Chega. Hoje tenho uma seita a mandar-me mensagens, a ofender-me e a ameaçar-me de cima a baixo. Todos os dias. Por causa de uma declaração que fiz em plena campanha. É esta a política de violência que existe, porque hoje o presidente da Câmara de Leiria virou um alvo de fanáticos.”
“O senhor presidente, se não recebe ameaças todos os dias, é um caluniador, é um mentiroso”, apontou o vereador do Chega, ex-membro da Assembleia Municipal de Pedrógão Grande pelo PSD, em reação à entrevista dada em maio.
Do lado do PSD, a comissão política concelhia de Leiria acusou o socialista de afirmação “grave e reveladora de uma preocupante e repetida incapacidade de lidar com a crítica”, acrescentando que “o combate político faz-se com verdade, respeito institucional e educação democrática. Não se faz com insinuações, vitimização ou afirmações sem fundamento”.
Neste tema central em Portugal, o primeiro militante socialista a chegar a autarca de Leiria no meio século de democracia local tornava-se o ator principal do Partido Socialista.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Leiria e Marinha Grande, nas zonas afetadas pela tempestade Kristin.
Rui Miguel Pedrosa/ECO
A previsão da bruxa da Barosa não o retira do objetivo autárquico
Noutro fórum, o das redes sociais, se até 28 de janeiro as fotos do autarca continham gente genericamente desconhecida no país, excetuando situações excecionais como a presença num jantar de campanha ao lado do candidato presidencial António José Seguro, a passagem de Kristin a 28 de janeiro revirou o “cachet digital” do socialista nas redes sociais. Além de uma vasta gama de governantes, veem-se estrelas maiores do showbiz, como Herman José e Ricardo Araújo Pereira.
O autarca tornou-se presença na quase totalidade dos media, em entrevistas, presença em programas da manhã na televisão e em reconhecidos podcasts.
“O primeiro sinal de alerta, de que era um ambiente de guerra, não deveria ter sido eu a dá-lo, nem devia ser eu a apelar [a considerar-se] a uma calamidade. Isso acontece a seguir ao almoço, num telefonema que faço ao primeiro-ministro em que lhe digo que tenho um problema em Leiria, tem que declarar calamidade, preciso de mais meios cá”, explicou no podcast “Perguntar Não Ofende”.
De língua afiada, apontou um motivo para a resistência do Governo em declarar estado de emergência: “Primeiro, [o] estado de calamidade faz com que as companhias de seguro não paguem. As grandes questões relativamente à proteção civil, essencialmente, são financeiras, não é salvar vidas. Depois comecei a perceber que começar a pôr meios o mais cedo possível no terreno custa muito dinheiro. Nomeadamente o exército”, criticou o autarca.
Keynesiano, o economista formado no ISEG estudou e viveu nesse tempo a escassas centenas de metros do Parlamento. À câmara de Leiria poderá candidatar-se ainda uma terceira vez, em 2029. Isto, se não for chamado à Assembleia antes disso.
Apesar de, certo dia, uma vidente da Barosa, em Leiria, ter vaticinado à avó paterna de Gonçalo que esta iria ter um neto com muito sucesso, como contou numa entrevista a Luís Osório na Antena 1, o leiriense ateu que já disse não acreditar em previsões dessa índole, antevê um futuro enquanto autarca até 2033.
Em resposta à provocação do ECO sobre o seu potencial papel futuro como ministro da Administração Interna após a experiência em gestão de catástrofes obtida ao longo de 2026, vira a agulha para a defesa de Carneiro como candidato a primeiro-ministro, cargo para o qual “está mais preparado do que aquela vez em que se candidatou”. Sobre si, diz ao ECO:
"Não me considero peça fundamental para essa ambição do partido. Hoje temos figuras com muita capacidade para fazer parte do futuro Governo PS, que envolva também muitos independentes. O meu objetivo é continuar este trajeto autárquico durante estes três anos. Em princípio, não haverá eleições legislativas nos próximos tempos. Há um desafio muito grande por parte dos partidos moderados de conseguir captar massa crítica, especialistas, intelectuais, para o Governo. Enquanto estiver envolvido na autarquia, darei o meu esforço para fazer uma equipa assim, ter os melhores do meu lado. O meu desejo é ter mais um mandato [de autarca]. Não tenho aspirações a ser membro do Governo.”






