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Eólicas no mar podem passar a ‘aterrar’ em betão flutuante

Um projeto das agendas mobilizadoras está a testar a capacidade do betão flutuar para servir de ‘bóia’ a torres eólicas offshore, prometendo também ajudar à competitividade desta energia.

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Desde meados do século XX que o betão é levado mar adentro. Dá corpo a docas flutuantes, caixotões portuários e até a algumas plataformas offshore utilizadas na indústria de petróleo e gás. Nas energias renováveis, pode fazer agora uma primeira incursão. Um consórcio que junta a Etermar Energia, Secil e Wavec Renewables desenvolveram uma plataforma flutuante em betão, desta vez para servir de base a torres eólicas que produzem eletricidade a partir do mar.

Imagem de protótipo partilhada pela Secil.

A aplicação de estruturas flutuantes de betão à energia eólica offshore representa hoje uma das soluções mais promissoras para viabilizar parques em águas profundas“, garante Ana Chambel Carriço, Técnica de Investigação e Desenvolvimento na Secil Betão.

Há dois tipos de projetos para a construção de eólicas no oceano: aqueles com fundações fixas, no fundo do mar, e outras que flutuam. A costa portuguesa pede sobretudo que os projetos flutuem sobre as águas profundas. Foi por isso que, no âmbito da Agenda Mobilizadora que junta projetos de transição energética, e aos quais foram atribuídos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), foi criado um consórcio que junta empresas industriais e entidades científicas, com o objetivo de desenvolver e validar uma plataforma flutuante em betão para turbinas eólicas offshore.

A aplicação de estruturas flutuantes de betão à energia eólica offshore representa hoje uma das soluções mais promissoras para viabilizar parques em águas profundas

Ana Chambel Carriço

Técnica de Investigação e Desenvolvimento na Secil Betão

Nesta fase, ainda de demonstração, as instalações da Etermar acolhem um protótipo, em preparação para a etapa de ensaios. Este protótipo será monitorizado durante cerca de dois anos, complementa a Secil, permitindo validar o comportamento da estrutura em ambiente real e preparar a sua futura industrialização. Luís Machado, diretor executivo da Etermar Energia, explica que a empresa pretende testar a operação e manutenção da plataforma, simulando atividades de intervenção de uma infraestrutura offshore, por exemplo em alto mar.

Ao consórcio foi atribuído um incentivo de 3,2 milhões de euros e o mesmo conta que, após uma avaliação final do IAPMEI – Agência para a Competitividade e Inovação, fique confirmado o cumprimento dos objetivos que dão direito aos fundos em causa.

Os membros do consórcio cobriram diferentes necessidades. A Etermar Energia liderou a engenharia e construção da plataforma. A Secil desenvolveu o betão especializado para ambiente marítimo. O INESC-TEC trabalha na sensorização estrutural, a Wavec Offshore Renewables desenvolve o sistema de monitorização e um gémeo digital. A VSL International fornece soluções de pré-tensionamento estrutural e o Fórum Oceano apoia a divulgação e articulação do projeto no contexto do cluster da Economia Azul.

Betão para ‘densificar’ a competitividade

Este projeto pretende demonstrar que as plataformas flutuantes em betão podem ser uma solução competitiva para a energia eólica offshore, contribuindo para posicionar Portugal na cadeia de valor europeia deste setor emergente”, afirma Ana Chambel Carriço.

Para o CEO da Wavec, Marco Alves, “o que é preciso fazer para promover o setor [da energia eólica offshore] é reduzir o custo da energia produzida (LCOE, na sigla em inglês)”, e isto faz-se através da utilização de novos materiais que sejam mais baratos. “O betão nas plataformas flutuantes é um dos elementos mais promissores”, garante.

O betão nas plataformas flutuantes é um dos elementos mais promissores.

Marco Alves

CEO da Wavec Renewables

Os primeiros parques comerciais de eólica flutuante utilizam sobretudo plataformas metálicas, como o WindFloat Atlantic em Portugal. Mas o diretor executivo da Etermar Energia afirma que “as soluções em betão armado têm potencial para desempenhar um papel mais relevante do que as soluções em aço”, já que permitem reduzir o custo da plataforma que sustenta as torres eólicas, “uma das componentes relevantes do investimento neste tipo de projetos”.

A Secil frisa que o betão utilizado na solução deste consórcio conta com matérias-primas “amplamente disponíveis”, com preços geralmente mais estáveis do que os do aço estrutural. “Estas soluções estão menos expostas a flutuações de mercado tão significativas como as do aço e podem permitir um ritmo de construção superior, contribuindo para responder às necessidades de um mercado em crescimento”, corrobora Luís Machado Machado.

Marco Alves explica que o preço do aço é mais volátil na medida em que é muito solicitado por economias emergentes com forte crescimento industrial, como a China ou a Índia. “O betão não sofre tanto esse problema”, compara, para depois rematar: “é muito mais barato”. Além disso, complementa, as próprias plataformas de betão que o consórcio projetou, pela forma que têm e por terem uma construção simplificada, ajudam a reduzir os custos.

Em Portugal, esta opção é particularmente interessante por permitir recorrer integralmente a fornecedores nacionais, com benefícios diretos para a economia local.

Luís Machado

Diretor executivo da Etermar Energia

No que diz respeito à construção e logística, acrescenta a Secil, o betão “apresenta vantagens significativas”, já que as plataformas podem ser construídas em ambientes controlados e, depois de concluídas, podem ser rebocadas até ao local de instalação, reduzindo a necessidade de embarcações especializadas de grande capacidade, simplificando assim a logística offshore, defende a Secil.

Olhando não só ao produto em si mas também à economia que o rodeia, Luís Machado aponta outra vantagem: “Em Portugal, esta opção é particularmente interessante por permitir recorrer integralmente a fornecedores nacionais, com benefícios diretos para a economia local“.

“A Secil considera que o desenvolvimento de betão e plataformas offshore flutuantes representa um potencial económico significativo, dado o crescimento projetado do mercado de energia eólica offshore e a escassez de soluções adaptadas a turbinas de grande porte”, afirma Chambel Carriço.

Mas o betão flutua?

Ana Chambel Carriço explica que o betão consegue flutuar graças à geometria da estrutura, que é concebida com volumes ocos e câmaras internas que “garantem flutuabilidade e estabilidade”.

Imagens do fabrico do betão flutuante.

Os desafios do projeto passaram por adaptar o betão a requisitos mais exigentes de durabilidade e desempenho em ambiente marinho. O betão utilizado é “altamente especializado”. Apresenta baixa permeabilidade e elevada resistência à fissuração, assegurando “uma longa vida útil em condições exigentes”, que poderá ser superior a 50 anos, nas contas da Secil.

O CEO da Wavec reconhece que, apesar de a plataforma em betão ter esta duração, uma turbina eólica não dura metade de um século. Neste sentido, a mesma plataforma pode receber outra turbina ou ser utilizada para outros fins, mesmo que não sejam ligados à energia.

Em termos da pegada ambiental, a Secil indica que o tipo de betão usado reduz a pegada carbónica através da incorporação de materiais de cimento suplementares, como escórias de alto-forno, cinzas volantes ou fillers calcários, que permitem diminuir o teor de clínquer usado e, consequentemente, as emissões de dióxido de carbono. Além disso, a longevidade ajuda a diluir o impacto ambiental inicial e “a reduzida necessidade de manutenção reforça ainda mais o desempenho ambiental global da solução”, escreve a empresa. É tendo em conta o ciclo de vida completo que o desempenho ambiental do betão “pode ser bastante competitivo” face a soluções metálicas, defende a Secil.

Em paralelo, as estruturas de betão submersas tendem a funcionar como estruturas favoráveis à colonização por organismos marinhos, atuando muitas vezes como “recifes artificiais” ao longo do tempo. Além disso, devido à sua maior massa e rigidez, o betão transmite menos vibração e ruído subaquático do que estruturas metálicas, o que pode ser positivo para espécies sensíveis ao ruído, incluindo mamíferos marinhos.

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