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“Se a centralização conseguir manter o bolo atual já será uma vitória”

Para Fernando Veiga Gomes, sócio da Abreu Advogados, o processo de centralização dos direitos televisivos "peca por tardia". Ainda assim, acredita que vai fomentar a competitividade dos clubes.

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Fernando Veiga Gomes considera que “andamos a dormir” na questão da centralização dos direitos audiovisuais do futebol e que o processo tarda. O sócio da Abreu Advogados ligado à área do desporto admite que o resultado inicial poderá ficar abaixo em termos de encaixe. Ainda assim, acredita que vai ser bom para a competitividade e sustentabilidade do futebol português como um todo.

“Neste primeiro ciclo, se conseguirmos manter o bolo atual, distribuí-lo de uma melhor forma, eu acho que já era uma vitória”, diz, em entrevista ao ECO.

A centralização dos direitos de transmissão é uma coisa boa para o futebol português? Como é que poderá ajudar?

Peca por tardio, muito tardio. Andámos demasiados anos à espera e o que acontece é que não vamos centralizar também na melhor altura.

Os melhores tempos foram no anterior ciclo.

Exatamente. O anterior ciclo era quando nós andámos a dormir, em guerras internas, a tentar perceber não sei o quê, quando tínhamos um sistema onde 80% do bolo ia para três clubes, o que não faz qualquer sentido.

A indústria do futebol português precisa se desenvolver como um todo. E ainda que alguns possam perder marginalmente receita, ganham como um todo, porque a indústria valoriza-se como um todo. E é preferível ser o maior de algo grande do que ser o maior de algo que não gera receita. E tira a competitividade ao futebol português. A diferença é tão grande entre as receitas de transmissão televisiva de um clube grande com um clube mais pequeno que participa na mesma competição, isso retira a competitividade.

O modelo que vai ser adotado para a distribuição das receitas é adequado?

Parece-me bem pensado, equilibrado, a Autoridade da Concorrência também está de acordo, a Liga também, os clubes já votaram favoravelmente, agora é preciso fazer os leilões e conseguir operadores que de facto se interessem por transmitir os jogos e criar pacotes de direitos de transmissão televisiva, vendê-los, vendê-los o melhor possível, para que os clubes não percam receitas e, se possível, aumentem.

Teme-se que possa nivelar as receitas por baixo.

Esse é o risco sempre de quem entra nesta coisa. Poderá até acontecer num primeiro momento, mas temos de confiar no processo e não no resultado imediato. Temos de confiar no processo e pensar que isto é um caminho para, se calhar, no próximo ciclo, aumentar decisivamente as receitas.

Não gosto de dizer que as coisas não caem do céu. Se calhar temos de fazer por isso. A questão dos direitos internacionais: desde que saiu o decreto-lei da centralização, até agora, não se fez praticamente nada para engordar o bolo. Então, se calhar, agora fazemos a centralização dentro daquilo que é possível. E depois vamos, então, preparar, começar já a trabalhar no próximo ciclo.

O mercado português é pequeno. Somos 11 milhões e meio. E há muita pirataria em Portugal, infelizmente. É algo que o Governo não tem tomado atenção, porque é impopular, mas tem de começar a trabalhar nisso. Se isso não for controlado, se não houver sanções, coimas, controlo, fiscalização… e hoje em dia com a tecnologia consegue-se fiscalizar.

Há um bocadinho esta coisa de ‘É um streaming ilegal, pode ser’. Depois o que acontece é que o produto é caro, depois o pacote Sport TV ou o pacote da Dazn são caros. Porquê? Porque há poucos subscritores. Era preferível ter mais gente pagar e pagar menos e as receitas serem maiores. Mas é preciso vontade política para isso.

Ou seja, a centralização está muito ligada a isso. Isso é um aspeto que acho que o Governo está a descurar.

Há interesse do mercado pelos direitos portugueses?

Claramente há. Há uns anos fui a uma conferência organizada pela Liga no Porto, estava uma pessoa da MP Silva, que é uma empresa conhecida que comercializa os direitos. Ele disse uma coisa muito clara: “Querem que eu venda os direitos da Liga portuguesa? Eu vendo. Mas não me apresentem estádios vazios.”

Não posso estar a vender um jogo da Liga portuguesa, um Moreirense-Arouca, vejo as imagens na televisão e vejo um produto que não é atrativo.

A pessoa que está a sete ou oito mil quilómetros daqui, olha para a televisão e vê se as próprias pessoas daquele país não tratam bem aquele produto e não o consomem, eu vou estar aqui a ligar a televisão, qual é o interesse disto?

Na LaLiga, por exemplo, os clubes são multados quando há imagens de televisão que focam bancadas sem estarem preenchidas. Isto para forçar a ter uma política de adeptos, seja ela qual for, de chamar adeptos ao estádio. Não me interessa se são os jovens da universidade, não me interessa se são pessoas do bairro local, se ofereceram bilhetes, não me interessa. O estádio tem de estar bem composto. Nós em Portugal temos uma política de adeptos? Não. Nenhuma. Uma política de adeptos da liga? Não. É cada um por si. Depois, os estádios são o que são. Muitos deles ainda por cima vazios, que criam imagens que não são atraentes.

Há uns anos fui a uma conferência organizada pela Liga no Porto, estava uma pessoa da MP Silva, que é uma empresa conhecida que comercializa os direitos. Ele disse uma coisa muito clara: ‘Querem que eu venda os direitos da Liga portuguesa? Eu vendo. Mas não me apresentem estádios vazios’.

Tiago Veiga Gomes

Sócio da Abreu Advogados

Quanto é que os direitos da transmissão dos jogos portugueses podem valer? O que é que seria um bom valor para a partida?

Eu não sei dizer. Neste primeiro ciclo, se conseguirmos manter o bolo atual, distribuí-lo de melhor forma, mas manter o bolo atual, eu acho que já era uma vitória para depois se começar a construir. Este primeiro ciclo será o ciclo zero. Portanto, é não perder receita, até para não levantar logo vozes contra. Acho que é o mais importante. E depois, com o tempo, começar a preparar as coisas para o futuro.

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