O que é que leva a que cada vez mais investidores americanos invistam no futebol europeu? “Têm uma expressão engraçada: há muita fruta pendurada”, adianta Fernando Veiga Gomes, sócio da Abreu Advogados, que há muito faz a ponte entre investidores internacionais e os clubes portugueses. “O Mundial nos EUA criou interesse ainda maior e acho que com o Mundial em Portugal, Espanha e Marrocos, vai atrair ainda mais. Espero ter aqui quatro anos de muito trabalho”, acrescenta, em entrevista ao ECO.
Para Veiga Gomes, parte deste interesse também se deve ao facto de os clubes nacionais ainda terem preços acessíveis. Por outras palavras, entende que o futebol português tem muito trabalho pela frente para se valorizar e concorrer com as grandes ligas europeias. O que falta?
“Não há investimento em infraestruturas, não há investimento em recursos humanos, não há investimento na sustentabilidade, não há investimento no crescimento do negócio, da marca, dos adeptos. Porquê? O meu objetivo é sobreviver até maio e ficar na primeira liga“, lamenta.
Tem havido um interesse crescente de investidores internacionais no futebol português?
É uma tendência, não é só no futebol português, é no futebol europeu em geral. Os números não mentem: há uma concentração, cada vez mais, de capital em grandes grupos societários ligados ao futebol e estão a ser construídos grandes grupos com vários clubes em diversos países. Há cerca de dez anos eram cerca de 80 clubes que faziam parte destes grupos, agora são mais de 300.
São os chamados grupos multiclube.
E Portugal não foge a essa tendência. E nota-se cada vez mais um movimento de aquisição de participações em clubes em todas as divisões, o que é curioso.
O que é que os investidores procuram?
Há vários perfis, mas procuram um pouco de tudo. Portugal é um país que promove muito bem os jogadores e vende bem. E é um país onde os jogadores se valorizam. É uma boa plataforma para quem quer promover jogadores e vender. Portugal é um país que promove o talento, é um país que é suficientemente competitivo para desenvolver jogadores que venham da África, do Oriente, da América do Sul, da América Central. Os bons jogadores nascem em qualquer parte do mundo.
As várias competições em Portugal têm um nível competitivo adequado, os jogadores desenvolvem-se para depois darem o salto até para clubes maiores portugueses e depois daí, então, é que vêm as grandes vendas.
Por outro lado, também é atrativo o facto de os clubes terem ainda uma valorização baixa e, portanto, são relativamente acessíveis para esses grupos económicos e há sempre uma valorização grande quando há uma subida de divisão. O investimento também pode ser feito nessa perspetiva de adquirir um clube que seja interessante do ponto de vista desportivo, num escalão inferior, promovê-lo, desenvolvê-lo e vendê-lo mais acima com uma mais-valia grande.
O futebol português é periférico, é um mercado reduzido. Mesmo assim continua a ter um grande interesse?
Continua. E isto tem sido uma tendência. Mesmo sendo periférica, não deixamos de ser a 6.ª ou 7.ª maior liga europeia. E com preços muito mais acessíveis do que as grandes ligas. Se eu for comprar um clube da 3.ª divisão em Espanha ou em Inglaterra, e aqui nem se fala, os valores são astronómicos, Portugal não tem nada a ver com isso.
Depois há também aqui uma questão que tem a ver com os direitos de informação televisiva. Há muita curiosidade em ver se as receitas de facto vão aumentar.
O futebol português tem capacidade para ombrear com as cinco maiores ligas europeias?
Sinceramente acho que tem.
Mesmo sendo periférica, não deixamos de ser a 6.ª ou 7.ª maior liga europeia. E com preços muito mais acessíveis do que as grandes ligas. Se eu for comprar um clube da 3.ª divisão em Espanha ou em Inglaterra, e aqui nem se fala, os valores são astronómicos, Portugal não tem nada a ver com isso.
O que é que é preciso fazer?
É preciso fazer muita coisa. Falta sustentabilidade financeira. Precisamos de regras de sustentabilidade financeira. Os clubes têm de viver dentro das suas receitas. E as receitas do futebol português têm de aumentar como um todo.
Faltam infraestruturas. Nos últimos 20 anos, Espanha construiu 20 estádios. Em Portugal, desde o Euro 2004, ou seja, em 26 anos, construímos dois, Tondela e Marítimo, manifestamente pouco. Tem de haver um investimento muito maior nas infraestruturas.
A centralização de direitos televisivos será fundamental para aumentar as receitas e para dar sustentabilidade aos clubes.
Temos de promover a nossa liga em termos internacionais. Nós não o fazemos, o que é uma pena, porque com nomes como Ronaldo, como Mourinho e outros… os anos passam e nós não promovemos os direitos internacionais da nossa liga. No sistema de direitos de transmissão que tivemos durante estes anos todos, os operadores tinham os direitos internacionais, mas simplesmente não o promoviam, nem a Liga, nem ninguém.
Por que razão não havia interesse?
Era a forma como funcionava o sistema, portanto, não haveria de facto esse interesse.
Só para ter ideia, por exemplo, os ingleses nos anos 90 ofereceram os direitos da Premier League ao Médio Oriente, ao Camboja, ao Vietname, à Coreia. Criaram um mercado que representa atualmente uma grande fatia das receitas com diretos televisivos.
Devíamos também oferecer os nossos direitos, pelo menos numa fase inicial de promoção?
Primeiro temos de criar um produto que seja atraente. Depois, podemos passar pela fase de, eventualmente, criar mercado. Há várias estratégias, mas é preciso fazer alguma coisa. Temos a Portugalidade, temos portugueses espalhados nos quatro cantos do mundo, não faz sentido.
Eu julgo que falta disciplina desportiva.
Temos bons exemplos de investidores que estão a desenvolver os seus clubes, criam modelos sustentáveis e com perspetivas de futuro. Mas também temos visto outras experiências e um caso mais recente é o Boavista, que teve um investidor com os problemas todos que nós conhecemos. É possível evitar este tipo de situações?
É possível. Eu respondo com uma pergunta: o futebol português pode-se dar ao luxo de ter um emblema e um clube histórico como o Boavista e um estádio do Euro 2004, um estádio bom, fora das suas competições profissionais? Podemos dar esse luxo?
A questão é: porque é que aconteceu? O facto é que o Boavista é um caso de sobrevivência nos últimos anos, infelizmente, causado por falta de regras de governança e de sustentabilidade e de controlo financeiro.
Nós não podemos ter um clube permanentemente que faz um PER, depois compete durante mais um tempo, depois faz outro PER, e depois anda assim.
Tem de haver regras de controlo financeiro, temos de mudar o paradigma, deixar este sistema arcaico, que é um sistema muito mais permissivo de controlo salarial e declarações de não-dívidas, que são muito pouco fidedignas e verdadeiras, convidam a que haja falhas e não evitam este tipo de questões.
O facto é que um clube que compete com receitas que não tem, tem despesas com os jogadores, está a falsear a competição. Porque, quando contratam um jogador sabendo que não vai ter capacidade financeira para lhe pagar, e no fim da época faz um PER e depois corta as dívidas a fornecedores e credores, esse clube não está a competir de forma séria. Isso altera a verdade desportiva. Portanto, uma coisa está ligada com a outra.
A Inglaterra, para dar um exemplo daquilo que é a melhor competição, um clube que entra em administration, que entra num PER ou qualquer tipo de processo de insolvência, imediatamente perde pontos, salvo erro nove pontos à primeira, e à segunda vez desce de divisão. Nós não podemos, em Portugal, deixar que isto seja assim. Tem de haver regras.

Os clubes têm de viver dentro das suas possibilidades. Se têm receitas de seis, competem com seis e meio ou sete. O que não podemos é ter o que temos atualmente no futebol português: se excluirmos Benfica, Sporting, Porto e Braga, eventualmente o Guimarães, se excluirmos esses cinco, os outros todos, incluindo da Primeira Liga, receitas andam à volta dos cinco milhões de euros, três e tal, quatro de receita, depende do clube, mais patrocínios, bilhetes — estou a falar sem venda de jogadores. E todos têm orçamentos na casa dos 12, 13, 14 e 15 milhões. Uma diferença demasiado grande. Estamos a falar de um risco demasiado grande. A liga deixa os clubes competir com receitas que não chegam a 50% da sua despesa.
Isto é sustentável? Isto é um risco enorme. Claro que depois dizem assim: ‘ah, mas nós depois vamos vender’. E se descem de divisão? E se o jogador se lesiona e aquela venda que eu ia fazer não faço? Isto cria nos próprios clubes um stress enorme.
Não há planos, não há projetos. O projeto destes clubes é maio do ano seguinte.
Depois, não há investimento em infraestruturas, não há investimento em recursos humanos, não há investimento na sustentabilidade, não há investimento no crescimento do negócio, da marca, dos adeptos. Porquê? O meu objetivo é sobreviver até maio e ficar na primeira liga, porque é só assim que eu vou tentar fazer as vendas para ir buscar os quatro ou cinco milhões. Depois, para os investidores, isso implica um stress enorme em termos de tesouraria, porque esses clubes, os investidores, todos os meses têm que pôr lá 500 ou 600 mil euros na conta, porque as despesas estão lá para pagar.
E os investidores sabem dessa realidade cá em Portugal?
Alguns sabem, outros descobrem depois. Mas não é sustentável.
Portanto, se os clubes têm receitas de 5, o orçamento tem de estar limitado a 5,5 ou 6. ‘Ah, mas depois a competitividade do futebol português vai baixar’. Se calhar num primeiro momento sim, mas no longo prazo não. Essa é que é a questão. Porque depois, então, já os clubes podem mudar o seu paradigma de gestão e começar a trabalhar de outra maneira completamente diferente.
Os três grandes ainda são controlados pelos sócios. Acredita que esta realidade vai-se manter assim por quanto mais tempo? Quando é que veremos um grande investidor a controlar um dos três grandes?
Enquanto conseguirem ter receitas para serem minimamente competitivos na Liga dos Campeões, que é o grande objetivo — e temos dois lugares para três, poderemos vir a ter um lugar para três, o que é dramático — enquanto forem minimamente competitivos e passarem a primeira fase e depois conseguirem passar mais uma ou duas eliminatórias, eu acho que essa questão não se irá colocar.
Se os outros evoluírem de tal forma que o futebol português deixe de ter lugar direto na Liga dos Campeões, ou a competitividade dos clubes portugueses, quando forem, seja muito pequena, a sua competitividade seja baixa, isso poderá criar uma maior pressão para encontrar outras soluções. E nessa circunstância a solução poderá ser abrir o capital. Não creio que no imediato isso seja possível. No imediato é provável que haja a aquisição de participações minoritárias, abrir novos mercados, parcerias, parcerias que tenham a ver com o desenvolvimento do negócio, os estádios, a exploração de estádios, etc., eventos, isso sim.
A prazo, a longo prazo, a questão da entrada do investidor, sendo maioritário no capital, depende muito da resposta àquela questão.
Se os outros evoluírem de tal forma que o futebol português deixe de ter lugar direto na Liga dos Campeões, ou a competitividade dos clubes portugueses, quando forem, seja muito pequena, a sua competitividade seja baixa, isso poderá criar uma maior pressão para encontrar outras soluções. E nessa circunstância a solução poderá ser abrir o capital [dos três grandes]. Não creio que no imediato isso seja possível.
Tem sido contactado por investidores a perguntar qual é a disponibilidade do Porto, Benfica Sporting?
Perguntam, os investidores perguntam por todos os clubes e há todos os tipos, mais sofisticados, menos sofisticados…
O que é que diz quando um investidor diz: ‘eu quero comprar um dos três grandes’?
Bem, não é bem assim, mas a resposta óbvia, e que já me aconteceu: ‘Compra de participação maioritária? Não creio que será possível’. Mas esses clubes precisam de capital. E eu sei que procuram, principalmente investidores minoritários, que possam trazer uma injeção de capital e que possam contribuir para o desenvolvimento do negócio.
E sim, eu acho que os três estão abertos a esse tipo de entrada.
O Sporting e o FC Porto criaram empresas para gerir o negócio do estádio, explorar as receitas do estádio e no caso do FC Porto até já vendeu uma participação nessa Stadco. É uma forma que os clubes estão a arranjar para encontrar financiamento?
É uma forma. Há vários mercados no futebol mundial que podem ser desenvolvidos, há redes de academias que podem ser criadas, o desenvolvimento da marca, a exploração de vários direitos, de endorsement, de patrocínios, de televisão, de redes sociais, etc., que podem ser criadas. As próprias arenas, os estádios. Portugal tem muito trabalho a fazer.
Vimos o Mundial dos EUA e a qualidade dos estádios e das arenas, um mundo completamente diferente. Em Portugal há muito para fazer. Os nossos estádios precisam de facto de muito investimento.
Captar esse investimento através destas empresas de estádio pode ser uma forma de não perder essa competitividade em relação aos clubes europeus?
Sim, em termos financeiros. Sim, sem ter de abdicar do controlo e com os sócios continuarem a achar que são donos do clube, que têm a maioria do capital de uma sociedade desportiva.
Tudo está relacionado. A indústria do futebol português, da liga portuguesa, tem de olhar para si como um todo e tem de pensar, uma vez por todas, em vez de ser cada um por si, os clubes têm de pensar o que é que nós podemos fazer em conjunto para fazer crescer a liga portuguesa.
Está-se a fazer esse trabalho?
Acredito que o presidente da Liga é uma pessoa bem-intencionada e que tem a perspetiva certa. Agora, é um trabalho, de facto, muito difícil. Não depende só dele. E, acima de tudo, é preciso uma mudança grande de mentalidade.
Os clubes têm de se juntar para encontrar formas de fazer crescer a Liga como todo. Para todos beneficiarem. E mesmo os grandes.
Há pouco falámos deste interesse cada vez maior de fundos americanos. Há muitos americanos a quererem comprar clubes aqui em Portugal?
As últimas aquisições todas que fiz foram americanos ou empresas com capitais americanos. E foram muitas. E, portanto, já há muitos clubes: agora, a entrada no Casa Pia, americano, o Vitória Sport Club, capital americano, o Estoril Praia, capital americano.
Os americanos consideram que — têm uma expressão engraçada — há muita fruta pendurada ainda por apanhar no futebol europeu. E eles consideram que o produto ainda tem muito para ser desenvolvido. Para eles é de facto interessante.
O Mundial nos EUA criou interesse ainda maior pelo investimento no futebol e acho que com o Mundial em Portugal, Espanha e Marrocos, vai atrair ainda mais. Espero ter aqui quatro anos de muito trabalho.

Com este movimento, vê o futebol europeu a passar de um modelo que nós conhecemos até agora para um modelo mais americano, de franchising?
Não acredito que se mexa na questão da tradição europeia das subidas e das descidas. Poderá haver algum acerto em alguns países, mas nos campeonatos mais baixos. Isso não acredito. Mas sim, acho que vai mudar bastante.
Vamos ver se aquele projeto da Liga Europeia se avançará ou não.
Mesmo estas alterações todas com o Mundial passar a ter 64 clubes, não sei se a UEFA não tenderá a seguir também o mesmo e o europeu também ser mais alargado.
Recentemente, o Bank of America publicou um relatório com várias previsões meio, vamos chamar, incríveis. Brevemente teremos jogadores transacionados ou passes de jogadores transacionados acima dos mil milhões de dólares. Vamos ter IPO de jogadores de futebol, ou seja, seria uma forma dos clubes financiarem a aquisição de jogadores. E também uma espécie de Netflix para a transmissão dos jogos de futebol. São realistas? Vai acontecer?
Eu quero ser o advogado de uma dessas transferências de mil milhões. (risos)
Tudo isto mudou e muda muito. Se estivéssemos no Euro 2004 a falar que podíamos ver um jogo no telemóvel… estaríamos já fora da realidade. É uma indústria cada vez mais forte, mais desenvolvida, que não pára de nos surpreender. Cresceu sempre a um nível estratosférico e o que é um facto é que os clubes precisam cada vez mais de receitas.
Vimos agora no Mundial, por exemplo, as paragens para hidratação, mas não eram mais do que pausas para publicidade, que aumentaram as receitas brutalmente, salvo erro 60 horas mais de publicidade durante todo o Mundial. Loucura. Por exemplo, o facto de o intervalo da final ter sido mais prolongado e ter quase chegado a 30 minutos de intervalo para ter um half-time show e também mais publicidade e mais receitas, mais interesse das pessoas.
Só que isso colide depois com a tradição do futebol, com as leis do jogo… haverá esse choque, certamente, mas vai ser interessante.
Como é que o modelo de negócio vai evoluir daqui a dez anos?
É difícil de prever porque isto é uma indústria que sempre nos surpreendeu nos últimos anos. Haverá certamente um impacto maior dos streamings. Eu vejo isso, por exemplo: o meu filho é adolescente, eles consomem o futebol de uma forma totalmente diferente do que nós consumimos. Completamente diferente. O meu filho não vê um jogo completo, só vê os highlights. Consomem muito no telemóvel, nas redes sociais, apps, etc. Têm uma forma completamente diferente de se relacionarem com o futebol. O produto que também lhe chega de uma forma completamente diferente.
Os adeptos vão continuar a ter um papel central. São eles os consumidores do futebol. Agora, essa relação vai ser completamente diferente. A experiência no estádio, por exemplo, vai ser completamente diferente. A interação com os adeptos, aquilo que será a forma como eles consomem o produto, como investem, como gastam em merchandising, etc.
Esse exemplo de termos IPO sobre os jogadores e outros exemplos podem, de facto, mudar a face do futebol. Mas depois choca com a tradição e com a cultura do futebol, choca com leis, choca com regras europeias, que nos limitam muito. Por outro lado, depois também nos vêm dizer que há regras que existem no futebol e que são compreensíveis. Umas são aceitáveis, outras são contra os tratados europeus. Então, é algo interessante para acompanhar nos próximos anos.






