Da dívida americana à japonesa, passando pela alemã ou francesa, os investidores estão a exigir juros que não se viam há décadas para emprestar dinheiro aos Estados. O regresso da inflação e a escalada do petróleo deram novo impulso à subida das taxas, mas a pressão vem de trás: défices elevados, montantes crescentes de dívida e necessidades recorde de financiamento estão a mudar o preço do dinheiro.
A taxa da dívida pública americana a 30 anos, que tem sido o barómetro do mercado global, atingiu esta terça-feira os 5,32%, o valor mais elevado em 19 anos. No Japão, onde o banco central tem feito intervenções no mercado para segurar o iene, as yields dos títulos a dez anos atingiram máximos de 30 anos, nos 2,93%.
Charu Chanana, estratega-chefe de investimento do Saxo Bank em Singapura, alerta em declarações à Reuters que esta subida das taxas aumenta a taxa de rendibilidade mínima exigida às ações, aperta as condições financeiras e coloca pressão sobre empresas e governos muito endividados. “A Ásia já está a mostrar alguns desses efeitos de contágio”, afirma. A Europa também não escapa a esta tendência.

No Reino Unido, os títulos a 10 anos chegaram aos 5,09%, máximos de 2008. Em França, que vive uma situação orçamental periclitante, a taxa exigida pelos investidores na mesma maturidade já vai em 4.1%, o nível mais alto também desde 2008. Mesmo na Alemanha, uma referência de estabilidade orçamental na Europa, desde 2011 que os juros não eram tão altos, com a taxa nos 3,25%.
Quando a referência europeia sobe, os outros países vão atrás. A taxa de Portugal a 10 anos está nos 3,59%, o nível mais elevado desde outubro de 2023, na ressaca do surto inflacionista que se seguiu à pandemia e à invasão russa da Ucrânia. Na vizinha Espanha, as yields estão nos 3,69%.
Porque sobem as taxas de juro?
Nas obrigações, quando os preços descem as yields sobem. A explicação é simples: se eu comprar o título mais barato, o retorno que vou receber até à data de reembolso (capital mais juros) é mais elevado. E os preços descem porque há menor apetite dos investidores por obrigações, sobretudo em prazos mais longos.
Há motivos específicos de cada país — como os défices elevados e o acelerado crescimento da dívida nos EUA ou em França, que tornam o investimento mais arriscado — e fatores mais globais, como a subida do petróleo provocada pela guerra no Médio Oriente.
Com as negociações num impasse e sem um fim à vista para o conflito, o Brent negoceia esta terça-feira novamente acima dos 90 dólares por barril, criando uma pressão persistente sobre a inflação. O que, por sua vez, induz uma subida das taxas de referência pelos bancos centrais para travar um aumento dos preços, como fizeram o BCE e o Banco do Japão em Julho.
A guerra não é o único fator de pressão: na Europa, as altas temperaturas e a seca estão também a impulsionar o preço da energia e dos alimentos. A incerteza geopolítica também contribui para prémio exigido pelos investidores, tal como o receio de um aumento do imcumprimento no crédito privado (concedido por fundos) ou de problemas no financiamento dos elevados investimentos em inteligência artificial.
A estas condicionantes conjunturais, soma-se outra mais estrutural: os défices persistentes e a montanha crescente de dívida obrigam os Estados a pedir mais financiamento aos investidores, embatendo de frente com um mercado onde o apetite pela dívida é menor e os bancos centrais deixaram de estar ativamente às compras para impulsionar a economia.
A OCDE estima no Relatório Global de Dívida que os estados que fazem parte da organização tenham de levantar 18 biliões de dólares este ano, mais seis mil milhões do que em 2022. A dívida em percentagem do PIB deverá subir para 86%.
Quais as consequências?
Taxas de juro mais elevadas significam que os Estados têm de se financiar a custos mais altos. O impacto é, para já, reduzido, porque só se faz sentir sobre a dívida nova emitida e não sobre o stock já existente, mas contribui para aumentar a bola de neve. A OCDE estima que só a fatura com juros irá agravar em 2,5 pontos percentuais o rácio da dívida dos países da organização em 2026.
Esta subida das taxas dos Estados acaba por contaminar toda a economia, já que serve de referência para os juros cobradas nos empréstimos a negócios e particulares. Tanto os novos créditos como o refinanciamento dos anteriores ficam mais caros, retirando fôlego ao orçamento de empresas e famílias. Juros mais altos retraem o investimento e o consumo, freando o crescimento económico.
O envelhecimento da população, o aumento das despesas com defesa, o investimento em infraestruturas e até o combate aos efeitos do aquecimento global colocam pressão para um crescimento contínuo do endividamento. O FMI estima que a dívida pública mundial, que chegou a 93,9% do PIB em 2025, ultrapasse 100% em 2028, um nível inédito em tempo de paz.
A dívida pública elevada deixou de ser apenas um problema de sustentabilidade de longo prazo e passou a ser também um risco imediato para os mercados financeiros e para o crescimento.






