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Calor e seca travam recuperação da Alemanha e podem obrigar BCE a subir juros

AllianzGI admite recuperação de perdas a curto prazo, mas prevê implicações para o crescimento económico e a inflação, o que dá mais argumentos ao BCE para uma subida dos juros.

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A vaga de incêndios florestais este verão na Europa — em particular em França e Espanha — vai ter um impacto negativo “modesto e retardado” na atividade económica, segundo uma análise divulgada esta terça-feira pela Allianz Global Investors (AllianzGI).

O impacto mais significativo será no crescimento económico, com a gestora de ativos do grupo alemão Allianz a estimar que o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) da maior economia da Zona Euro este ano deverá manter-se abaixo de 1% devido à seca e ao calor recordes.

A estimativa de crescimento da economia alemã parecia prestes a ser revista em alta em cerca de 0,3 pontos percentuais, para aproximadamente 1,0% este ano e 1,4% em 2027, após ter conseguido manter-se resiliente no segundo trimestre, com um crescimento de 0,2%, e de um aumento do otimismo no início do terceiro trimestre.

Segundo Christian Schulz, economista-chefe, e Antje Stobbe, diretora com a tutela corporativa da AllianzGI, os únicos “fatores atenuantes” são, por um lado, o reforço da resiliência das empresas desde 2018 e após 2022, e, por outro, a retoma do transporte rodoviário de mercadorias ao domingo. Por isso, “é provável” que haja uma recuperação das perdas, preveem na análise intitulada “Seca na Europa em 2026: choque a curto prazo, lições a longo prazo”.

No que diz respeito à política monetária do Banco Central Europeu (BCE), que tem agendada a próxima reunião para 9 e 10 de setembro, este cenário tem implicações ao nível da inflação. “Em toda a Europa, a seca tende a fazer subir os preços dos alimentos e da energia — estes últimos devido à redução da produção nuclear e hidroelétrica, à medida que os rios baixam de caudal e aquecem —, mesmo que o impacto no crescimento seja negativo”, assinalam Christian Schulz e Antje Stobbe.

Ora, com o BCE, de “postura restritiva, provavelmente mais sensível ao risco de subida dos preços do que a um ligeiro abrandamento do crescimento”, a seca e o calor que têm assolado o continente “reforçam os argumentos a favor de mais duas subidas das taxas de juro este ano”, depois do aumento de 25 pontos base na reunião de política monetária realizada em junho para conter a inflação provocada pela guerra no Médio Oriente.

Empresas devem reforçar preparação para riscos climáticos crescentes

A perspetiva da AllianzGI é de que as perdas a curto prazo possam ser recuperadas. Não obstante, “estas podem deixar um impacto duradouro nas decisões de investimento“, ressalva a gestora alemã, notando que, “para os investidores, avaliar a capacidade das empresas para antecipar, absorver e adaptar-se a estes choques está a tornar-se indispensável”.

Isto porque, “à medida que as secas e os períodos de baixos níveis de água se tornam mais frequentes e graves, as empresas localizadas em zonas expostas poderão enfrentar perturbações recorrentes devido à perda de produção, ao aumento dos custos logísticos e energéticos e à subutilização de ativos“, realça, na análise a que o ECO teve acesso.

Indústria química, energia, siderurgia, refinação e bens de capital estão entre os setores mais expostos aos riscos climáticos. No entender da AllianzGI, as empresas destas áreas devem dispor de “análises de cenários que lhes permitam identificar com precisão os riscos físicos que enfrentam” e, caso já as tenham, devem atualizá-las, a par com as suas estratégias climáticas, à medida que esses riscos se intensificam.

À medida que as secas e os períodos de baixos níveis de água se tornam mais frequentes e graves, as empresas localizadas em zonas expostas poderão enfrentar perturbações recorrentes devido à perda de produção, ao aumento dos custos logísticos e energéticos e à subutilização de ativos.

Por outro lado, nas situações em que as empresas operam em áreas de elevado risco de incêndio ou nas suas proximidades, como os fogos florestais podem resultar na evacuação das instalações de produção e causar perturbações na produção, a gestora de ativos alemã defende que se defina quem é responsável pela resposta a emergências, coordenar-se com as autoridades locais e manter planos de crise. Além disso, destaca a importância da “formação regular” dos trabalhadores.

Para as empresas que dependem de matérias-primas transportadas por via marítima (como é o caso dos produtos químicos, aço, petróleo e produtos refinados), devido aos níveis excecionalmente baixos da água nos principais rios da Europa, é “fundamental” a gestão da escassez de abastecimento, que deve incluir a avaliação dos efeitos na produção e nos preços, bem como a verificação de fontes de abastecimento alternativas, sugerem os analistas da AllianzGI.

Evolução dos níveis de água do rio Reno na Alemanha:

Episódios anteriores de níveis de água excecionalmente baixos no Reno coincidiram com períodos de menor produção de produtos químicos, ilustrando como as perturbações nos transportes podem repercutir-se na atividade industrial. Fonte: AllianzGI

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