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‘Boom’ da defesa fez ações da Rheinmetall voarem 202% em quatro anos. Futuro já está descontado ou pode subir mais?

A empresa alemã foi a que mais beneficiou com o rearmamento europeu, deixando para trás valorizações de pares como a francesa Thales, a britânica BAE e a italiana Leonardo.

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O rearmamento europeu criou um ciclo sem precedentes para a indústria da defesa, mas nem todas as grandes cotadas do setor estão a beneficiar da mesma forma em bolsa. Entre a alemã Rheinmetall, a britânica BAE Systems, a francesa Thales e a italiana Leonardo, é a empresa germânica que se destaca com uma valorização de mais de 200% desde 2022, impulsionada pela maior exposição às crescentes encomendas de armamento.

O escalar dos orçamentos da defesa na Europa proporciona outlooks positivos para as cotadas do setor, mas os analistas ainda estão a avaliar se os ganhos recentes, especialmente os da Rheinmetall, correspondem principalmente às encomendas já assinadas, ou se já antecipam os ganhos com negócios futuros.

A capitalização bolsista da empresa de defesa alemã passou de 26,6 mil milhões de euros em 2022 para 80,4 mil milhões, enquanto a BAE Systems avançou 33%, de 58,9 para 78,3 mil milhões de libras (cerca de 91,5 mil milhões de euros). A Thales ganhou 30%, de 41 para 53,3 mil milhões de euros, e a Leonardo apenas 5%, de 37,5 para 39,5 mil milhões de euros.

Contudo, a diferença não significa que as encomendas das três rivais estejam estagnadas. A BAE Systems fechou o primeiro semestre com 16,4 mil milhões de libras (aproximadamente 19,2 mil milhões de euros) em novas encomendas e uma carteira recorde de 84 mil milhões de libras. As vendas cresceram 9% e o lucro operacional subjacente aumentou 11%, referiu a empresa britânica em comunicado.

Na Thales, as novas encomendas aumentaram 21% no primeiro semestre, para 12,47 mil milhões de euros, enquanto o EBIT ajustado cresceu 11,4%, para 1,37 mil milhões. A empresa manteve ainda a previsão de crescimento orgânico das vendas entre 6% e 7% e sua margem EBIT ajustada entre 12,6% e 12,8% este ano, noticiou a Reuters.

Já a Leonardo registou cerca de 16 mil milhões de euros em novas encomendas no primeiro semestre de 2026, mais 40% em termos homólogos, com receitas de cerca de 10,5 mil milhões de euros. A forte evolução levou a empresa italiana a rever em alta a previsão para o conjunto do ano.

Na relação entre encomendas, exposição à Defesa e valorização em bolsa a Rheinmetall ganha particular destaque. A tese da corretora XTB é que a empresa alemã está particularmente posicionada para beneficiar do reforço dos investimentos militares europeus, sobretudo em áreas como munições e sistemas terrestres.

“Empresas europeias do setor da defesa, como a alemã Rheinmetall, viram a procura pelos seus produtos disparar de forma sem precedentes. As carteiras de encomendas para tanques, munições, helicópteros, sistemas de radar e tecnologias de cibersegurança atingiram níveis históricos, impulsionando fortemente a valorização das suas ações em bolsa desde 2022 até aos momentos atuais”, afirmou, numa nota de análise.

Ponto de entrada

A 11 de agosto, tanto o Royal Bank of Canada (RBC) como o Barclays iniciaram cobertura do setor, com enfoque no aumento dos orçamentos militares, que oferecem previsões sólidas a médio prazo para as empresas.

O RBC, numa nota de research citada pela Reuters, afirma que o rearmamento europeu deverá impulsionar um crescimento das despesas com a defesa de 16% ao ano até 2030, com o setor do equipamento militar a registar uma queda de 13% em relação ao pico atingido em março, criando um ponto de entrada atrativo.

O banco canadiano considera que o crescimento relacionado com a recuperação nos setores terrestre e de munições irá impulsionar um crescimento a médio prazo superior a 20% ao ano, destacando a Rheinmetall (83% das vendas) e a checa CSG (97% das vendas) como as empresas mais expostas.

O Barclays, entretanto, afirma que a fraqueza nos resultados continua a ser um tema em 2026, mas nota que os orçamentos de defesa mais elevados e a atividade de aquisições deverão apoiar as ações a médio prazo.

Blindado da Rheinmetall

A fabricante alemã – que produz os famosos tanques Leopard 2 – está, de facto, num momento de expansão operacional. No segundo trimestre, a receita cresceu quase 70%, para cerca de 3,3 mil milhões de euros, enquanto o resultado operacional atingiu 562 milhões, acima das previsões dos analistas. A carteira de encomendas ultrapassou os 80 mil milhões de euros, depois de a empresa ter registado 11,37 mil milhões de euros em novos contratos e programas.

Ao contrário de grupos mais diversificados, com exposição significativa à aeronáutica, espaço, eletrónica, cibersegurança ou áreas civis, a Rheinmetall está fortemente concentrada em Defesa, sublinha a XTB. É, por isso, uma das empresas europeias que mais diretamente beneficia quando os governos aceleram compras de munições, veículos e sistemas terrestres.

Em junho, a empresa alemã de armamento anunciou a assinatura de contratos com as forças armadas da Roménia no valor de 5,7 mil milhões de euros, um dos maiores pacotes de encomendas internacionais da sua história.

A XTB vê precisamente aqui uma diferença importante: quanto maior for a exposição direta ao aumento da despesa militar, maior é a sensibilidade da empresa ao ciclo de rearmamento europeu.

Mercado já descontou?

A principal questão identificada pela XTB é agora a avaliação das empresas. Depois de anos de valorização muito rápida – impulsionadas pelo começo da guerra na Ucrânia -, os investidores deixaram de negociar apenas a realidade atual das empresas e passaram a negociar aquilo que esperam que estas sejam dentro de cinco ou dez anos.

O rearmamento da Europa não é um sprint, mas sim, uma maratona. Para o público em geral e para quem acompanha os mercados, o desafio passa por distinguir o entusiasmo mediático imediato da verdadeira capacidade destas empresas transformarem a sua carteira de encomendas em lucros sustentáveis.

XTB

O rearmamento da Europa não é um sprint, mas sim, uma maratona. Para o público em geral e para quem acompanha os mercados, o desafio passa por distinguir o entusiasmo mediático imediato da verdadeira capacidade destas empresas transformarem a sua carteira de encomendas em lucros sustentáveis”, referiu a corretora na nota.

Na Rheinmetall, essa antecipação foi particularmente forte. A cotação disparou ao mesmo tempo que governos europeus anunciaram aumentos de despesa militar, contratos plurianuais e investimentos em capacidade industrial.

O problema é que as encomendas não se transformam instantaneamente em receita e, sobretudo, em lucro. Construir novas fábricas, aumentar linhas de produção, contratar trabalhadores qualificados e garantir fornecimento de matérias-primas pode demorar anos.

A XTB alerta para o risco de que, se os resultados não acompanharem a velocidade da valorização bolsista, qualquer atraso na execução dos contratos, problema na cadeia de fornecimento ou revisão de despesa pública poderá desencadear uma correção acentuada.

O exemplo da própria Rheinmetall mostra que nem tudo corre em linha reta. Em agosto, a empresa reduziu a previsão de vendas para 2026 depois de um revés relacionado com um programa de fragatas, embora tenha mantido as ambições de crescimento no negócio naval e noutros segmentos.

Existe, porém, uma segunda leitura. A diferença entre o preço atual e os lucros presentes não significa necessariamente que as ações estejam sobreavaliadas. Pode significar que os investidores estão a antecipar um ciclo estrutural de crescimento que ainda demorará anos a materializar-se.

A NATO aprovou uma nova meta de investimento que prevê que os aliados europeus e o Canadá cheguem a 5% do PIB em despesas relacionadas com Defesa e segurança até 2035. A União Europeia criou também o SAFE, com 150 mil milhões de euros em empréstimos para financiar compras conjuntas de equipamento militar, através do qual Portugal adquiriu três fragatas à italiana Fincantieir por cerca de 3,9 mil milhões de euros.

Isto significa que a procura não depende apenas das decisões orçamentais de 2026 ou 2027. Há uma alteração mais profunda na política de Defesa europeia, o que beneficia empresas com carteiras de encomendas plurianuais. A questão, portanto, já não é saber se há procura, mas perceber quanto dessa procura já está refletida nas cotações.

É neste ponto que a Rheinmetall se distingue das restantes empresas analisadas pela XTB. Não apenas porque valorizou muito mais, mas porque a exposição da alemã ao rearmamento europeu é mais direta, sobretudo nos mísseis e munições, segmentos em que a Europa apresenta um défice de capacidade particularmente evidente.

“À exceção da Rheinmetall, todas as outras empresas aumentaram as suas encomendas a um ritmo muito lento, o que pode simbolizar que estas ações estão a entrar em campos sobrevalorização, uma vez que os seus fundamentos de curto-prazo não estão em linha com o preço”, assinalou a corretora.

EPA/MARTIN DIVISEK

O problema para o investidor é que essa mesma exposição, que tornou a empresa uma das grandes vencedoras da nova corrida ao armamento, é também aquilo que torna a cotação mais dependente de expectativas elevadas.

A BAE Systems, a Thales e a Leonardo têm carteiras de encomendas fortes e resultados que mostram o efeito do aumento da despesa militar. Mas a evolução bolsista mais moderada pode significar que o mercado já incorporou uma parte menor do crescimento futuro.

Para a Rheinmetall a equação é inversa, uma vez que a bolsa já reconheceu grande parte da história de crescimento, e agora a empresa terá de provar que consegue transformar a avalanche de encomendas em produção, receitas e lucros à mesma velocidade. É essa diferença que pode determinar quais destas cotadas continuam a beneficiar da maratona do rearmamento europeu — e quais já correram demasiado depressa.

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