Imagine um excelente profissional. Conhece profundamente a empresa, domina os processos, tem dez anos de experiência e sabe exatamente como executar aquilo que lhe é pedido. Agora imagine que, num espaço de dois ou três anos, uma parte significativa das tarefas que sustentavam essa experiência passa a poder ser realizada em minutos — ou segundos — com Inteligência Artificial (IA). O profissional não ficou menos inteligente. Nem perdeu a experiência acumulada. Mas o valor de algumas das suas competências mudou. E esta é provavelmente uma das questões mais urgentes que a IA está a colocar às empresas.
Falamos muito sobre ferramentas, automação, modelos e agentes inteligentes. Falamos menos sobre uma pergunta mais desconfortável: As competências das nossas equipas estão a evoluir à mesma velocidade que o trabalho?
59 em cada 100 trabalhadores vão precisar de formação
Segundo o Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, 39% das competências atualmente utilizadas pelos trabalhadores deverão transformar-se ou ficar desatualizadas até 2030. Se representássemos a força de trabalho global através de 100 pessoas, 59 precisariam de formação nesse período.

Não estamos a falar apenas de programadores ou especialistas em tecnologia. Marketing. Comercial. Operações. Recursos Humanos. Financeiro. Gestão. A Inteligência Artificial está progressivamente a entrar em praticamente todas as funções baseadas em informação. E quanto mais uma função é exposta à IA, mais depressa muda aquilo que o mercado espera do profissional.
A PwC concluiu no seu Global AI Jobs Barometer que as competências procuradas nas profissões mais expostas à Inteligência Artificial estavam a mudar 66% mais depressa do que nas menos expostas. Entretanto, a edição de 2026 do estudo reforça um fenómeno particularmente relevante: à medida que determinadas tarefas são absorvidas pela IA, competências humanas como julgamento, liderança, criatividade e empatia tornam-se mais importantes nas funções expostas à tecnologia. Ou seja, o desafio não é simplesmente ensinar os colaboradores a utilizar IA. É prepará-los para continuarem a criar valor quando a IA conseguir fazer uma parte crescente daquilo que hoje fazem.
Fazer mais depressa não chega
Imagine um profissional que demorava duas horas a produzir uma análise e passa a fazê-la em vinte minutos. Existe um ganho evidente de eficiência, mas ainda não sabemos se existe um ganho de produtividade. Tudo depende do que acontece nos cem minutos seguintes. Se esse tempo servir apenas para produzir mais análises semelhantes, aumentámos o volume de execução. Mas se for utilizado para questionar os resultados, testar hipóteses, identificar oportunidades, falar com clientes ou tomar melhores decisões, começámos verdadeiramente a gerar mais valor com os mesmos recursos. É esta diferença que muitas empresas terão de aprender rapidamente.
A IA reduz o custo de execução. Mas não decide automaticamente o que devemos fazer com a capacidade que liberta. Essa decisão continua a pertencer às pessoas. E obriga as organizações a repensarem funções, processos e competências. Não basta dar ChatGPT, Copilot ou agentes inteligentes às equipas e esperar por um aumento automático de produtividade. É necessário decidir que trabalho queremos que deixe de ser feito por pessoas e que trabalho de maior valor queremos que essas mesmas pessoas passem a fazer.
É precisamente este desafio que está no centro de novos modelos de formação executiva para empresas: deixar de formar apenas para a ferramenta e começar a formar para novas formas de trabalhar. A própria oferta B2B da Click Academy está estruturada em torno de produtividade, transformação empresarial e aplicação de IA aos desafios concretos das organizações.
Talvez seja altura de auditar competências
As empresas fazem inventários de software, infraestrutura, licenças e tecnologia. Talvez devam começar a fazer o mesmo com as competências.
Para cada função, algumas perguntas tornam-se inevitáveis:
- Que tarefas podem ser automatizadas?
- Que tarefas podem ser aceleradas?
- Que competências estão a perder relevância?
- Que novas responsabilidades podem surgir?
- E que competências precisa esta pessoa para gerar mais valor daqui a dois anos do que gera hoje?
Isto muda também a lógica tradicional da formação. O plano de formação não pode ser apenas uma lista de cursos escolhidos no início de cada ano. Deve tornar-se parte da estratégia de produtividade.
Em funções de gestão, por exemplo, o desafio já passa por aprender a organizar equipas onde pessoas e sistemas de IA trabalham em conjunto, redesenhar responsabilidades e criar novas métricas de performance — temas que começam já a ser abordados em programas como Gestão de Equipas com AI.
E em áreas como Marketing e Dados, o valor está cada vez menos em recolher informação e cada vez mais em interpretá-la e transformá-la em decisões — a lógica subjacente, por exemplo, ao programa AI, Data & Marketing Intelligence.
Reciclar competências antes de reciclar organigramas
Existe uma tentação natural para olhar para a IA sobretudo através da redução de custos. O próprio World Economic Forum reporta que uma percentagem significativa dos empregadores prevê reduzir equipas onde a AI consiga automatizar tarefas. Mas o mesmo relatório mostra que o desenvolvimento de novas competências é uma das principais respostas das organizações à transformação do trabalho. Talvez a sequência das decisões seja importante.
Antes de perguntar: “Quantas pessoas podemos substituir?” uma organização deveria perguntar: “Quantas destas pessoas conseguimos tornar significativamente mais produtivas?” Antes de eliminar funções, é necessário perceber como podem essas funções evoluir. É nesta lógica que a Click Academy assume que a Inteligência Artificial deve ser tratada como ferramenta e não como fim: combinando conhecimento tecnológico com pensamento crítico, aplicação prática e capacidade de decisão. Porque o maior risco para uma empresa talvez não seja ter pessoas substituídas pela Inteligência Artificial. Pode ser continuar a ter exatamente as mesmas pessoas, com exatamente as mesmas competências e a trabalhar exatamente da mesma maneira, enquanto os concorrentes aprenderam a fazer melhor. A reciclagem de competências já não é apenas uma questão de Recursos Humanos. É uma questão de produtividade. E, cada vez mais, de sobrevivência competitiva.






