Cresci numa família com negócios de pronto-a-vestir e nas milhares de horas que passei a arrumar, vigiar e depois a vender ‘trapos’ (como dizíamos lá em casa), aprendi a identificar com alguma precisão os diferentes perfis dos clientes que entravam nas lojas.
Regra geral, e para simplificar, havia três tipos de compradores. Primeiro, aquele que vinha adquirir uma peça de substituição. Tinha entornado mostarda ou vinho tinto numa camisa ou outro item de uso regular e era preciso colmatar a repentina escassez. Isso ou a fiel camisa já tinha dado tanto que nem uma pequena costura mascarava a inadequação para uso em público, ou simplesmente tinha sido ultrapassada pela moda e tinha de ser trocada por uma versão mais fashion. Em qualquer caso, esse cliente sabia o que vinha comprar – o que precisava – e, munido de experiência, já sabia quanto deveria desembolsar, portanto por norma saía da loja satisfeito.
Em segundo, o curioso. Entra na loja sem grande intenção de comprar, acaba (por vezes com a nossa persuasão) por gostar muito de uma peça e acabar por levar, sabendo que não precisa mesmo do item, que não tem grande justificação, ou seja, uma compra por impulso. Leva no saco algo para o qual não tem grande explicação e na cara um sorriso.
Por fim, o gabarolas, aquele que vem comprar algo para mostrar aos amigos, aos colegas, à família ou aos vizinhos que pode, que está em controlo e que sabe o que quer. O problema é que muitas vezes essa ânsia de demonstração ultrapassa o discernimento na escolha do produto, acabando por adquirir um item vistoso e caro, mas que infelizmente nem fazia falta no roupeiro. Qualquer tentativa pelo pobre funcionário da loja de questionar o motivo da compra ou sugerir uma alternativa acaba por ser em vão, resultando numa resposta do género “sei o que estou a fazer”.
Na reentrada do Estado no capital da REN, Luís Montenegro revelou ser este terceiro tipo de cliente. Foi ter com o fundador da Zara (ou os seus representantes na Pontegadea Inversiones) e adquiriu 13,7% da empresa que gere as redes elétricas nacionais.
Comecemos pelas motivações. Será que o Estado precisava mesmo voltar a ter parte da REN no saco? Na Festa do Pontal – um evento partidário pouco apropriado para um anúncio deste género – o primeiro-ministro explicou que sim, que a salvaguarda do interesse estratégico, a participação nas decisões de investimento e o objetivo de baixar o preço da energia justificam a compra.
No entanto, fora do Governo e dos partidos que o apoiam, é difícil encontrar quem concorde com este racional. Especialistas em energia, gestores do setor, antigos reguladores, economistas e ex-ministros criticam a decisão. Alguns dizem que a posição minoritária é insuficiente para o Estado ter real influência nos investimentos da REN, outros sublinham que o Estado já tem uma palavra a dizer via a ERSE e que a fatia do transporte na fatura da energia é pequena. Ou seja, não é por aí que o Governo deveria intervir.
O apagão de 28 de abril de 2025 também não motiva a reentrada do Estado na empresa liderada por Rodrigo Costa, adiantam, pois as autópsias mostram que a REN teve pouca ou nenhuma responsabilidade e que está a implementar as medidas necessárias para evitar uma repetição.
Na questão da soberania até poderá existir um racional, mas é difícil de sustentar. A China detém 25% da REN e não parece muito interessada em desfazer-se dessa fatia. Não sabemos se o Governo tentou comprar essa participação, só que acabou por comprar os 13,7% ao family office de Amancio Ortega para não deixar os chineses sozinhos na empresa. Essa lógica não cola, por várias razões. A China já está há 14 anos na REN ‘sozinha’ e ninguém pareceu muito preocupado com o assunto, incluindo no PSD, que liderava o Governo na altura da venda da posição. E mais, por essa lógica o Estado vai também comprar uma posição minoritária na EDP, por exemplo, para não deixar a China Three Gorges desacompanhada? Os Estados Unidos até aplaudiram os esforços portugueses na REN, mas no final de contas Pequim continua com a maior presença e se isso envolve riscos esses também se mantêm.
Numa altura de transição energética e tensão geopolítica, ninguém pode criticar a vontade de o Governo ter mais controlo da estratégia numa área crítica, mas, sim a forma como quer adquirir esse poder. O ministro da Presidência de Conselho de Ministros, António Leitão Amaro, realçou que nenhum país da Europa está fora do capital da rede elétrica. É verdade, mas não é tão simples e a maioria dos peritos aponta para outras opções, especialmente a britânica, que separou da National Grid as funções de operação e planeamento do sistema e criou o National Energy System Operator, posteriormente adquirido pelo Estado, numa filosofia de separar as funções estratégicas dos interesses dos proprietários das redes. Não é por alguns comprarem algo que temos de ir a correr fazer o mesmo. É preciso é pensar e debater antes de ir à caixa pagar, até para evitar comprar uma camisa quando o que realmente se precisava é de um par de calças.
E assim chegámos à questão central – a falta de transparência sobre a aquisição da participação. No dia do anúncio, Montenegro optou por omitir qualquer informação sobre o preço e o financiamento da operação. O primeiro-ministro expôs-se a perguntas da oposição (e dos jornalistas, já agora) e o Governo só respondeu depois de ter sido revelado que pagou um prémio de 17%. E mesmo aí, pelo meio de explicações sobre cálculos de cotações médias, Leitão Amaro acabou por nem revelar o valor (espera pelo parecer do Tribunal de Contas) e justificou o prémio pago pelo “poder inerente” que a participação traz e pelo mercado pequeno.
É mais uma característica do nosso terceiro tipo de cliente. Não gosta de se gabar do preço pago, mas quando alguém descobre, diz que a camisa era muito gira e útil e teve der ser, até porque era o que havia.






