- Retrato é uma rubrica do ECO na qual, durante o mês de agosto, é publicado diariamente o perfil de uma personalidade que se distinguiu no último ano, em Portugal
Seja qual for o compromisso, Maria da Graça Carvalho geralmente chega “acompanhada”: traz debaixo do braço pastas, dossiers, papéis. Foi assim que, na década de 2000, quando a universidade era a sua casa, se apresentou ao então primeiro-ministro, José Manuel Durão Barroso – a figura que lhe abriu a porta aos longos anos de vida política que ainda correm.
O aumento das propinas e a demissão do ministro da Ciência e Ensino Superior ditaram um início de século agitado na academia. Foi neste contexto que o reitor do Instituto Superior Técnico, Diamantino Durão, tio do então primeiro-ministro, recomendou que este consultasse Maria da Graça Carvalho sobre os temas quentes. Encontraram-se, e a professora catedrática partilhou as suas ideias. Defendia “uma forte ação social”, diz.
O último pedido que recebeu nesse dia foi que indicasse alguém com perfil para assumir a pasta que havia ficado sem dono no Governo. “Não escolha um académico, nunca um académico!”, é o conselho que Maria da Graça Carvalho se lembra de ter dado, já que achava necessário “um político experimentadíssimo”. Não foi essa a decisão do primeiro-ministro: “No dia seguinte, convidou-me”, conta a agora ministra do Ambiente e Energia, que na altura aceitou ficar responsável pela Ciência e Ensino Superior.
Havia na altura um debate sobre energia nuclear em Portugal, queriam construir uma central nuclear. Ficava fascinada com aquilo. Não percebia ainda se era pró ou contra, embora achasse os argumentos contra muito interessantes. Queria perceber mais e disse: é esta área que eu quero.
Até então, Maria da Graça Carvalho nunca havia tomado contacto com o mundo da política, nem tinha qualquer ambição nesse sentido. Desde os 14 anos de idade que tinha todas as certezas: queria ser engenheira na área da energia. “Havia na altura um debate sobre energia nuclear em Portugal, queriam construir uma central nuclear. Ficava fascinada com aquilo”, conta. Acompanhava o assunto através dos jornais, muitos dos artigos escritos por Maria Antónia Palla, que mais tarde veio a conhecer como mãe do primeiro-ministro socialista António Costa. Outra figura que a marcou no debate foi Delgado Domingos, que liderava o movimento contra a central, e que mais tarde veio a ser seu professor no Instituto Superior Técnico. “Não percebia ainda se era pró ou contra, embora achasse os argumentos contra muito interessantes. Queria perceber mais e disse: é esta área que eu quero”.
Assim foi. Ainda não tinha chegado a década de 80, já era formada em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico, curso que terminou com 16 valores. Mas não se ficou por aqui, literalmente: de Lisboa voou para Londres, “à boleia” de uma bolsa de investigação que lhe permitiu doutorar-se no Imperial College. Lá, deparou-se com exigência, mas muito mais que isso: “há uma série de atividades extracurriculares que incentivam os alunos a fazer, que dão uma formação e cultura geral muito interessante. É engraçado ter essa perspetiva mais aberta”, partilha.

Maria da Graça Carvalho, Ministra do Ambiente e Energia, em entrevista ao ECO/Capital Verde
Hugo Amaral/ECO
Tanto quis abrir horizontes que acabou por ir parar a um curso e a um clube de cinema. Todas as quartas-feiras, em conjunto com uma colega do Brasil, estava encarregue de escolher um filme e de o projetar para os colegas. “Íamos à BBC buscar o filme, trazíamo-lo e tínhamos de o pôr a correr. Era com bobinas pesadíssimas”, descreve a ex-aluna. Pelo meio, se a bobina encalhava, começava tudo a protestar, recorda, entre risos.
Vi o filme [Miss Sloane] e gostei da cor [do cabelo].
Os anos passaram, mas a paixão ficou e tornou-se de certa forma parte de Maria da Graça Carvalho. Por volta de 2016, Miss Sloane, a personagem principal do filme ao qual ‘empresta’ o nome, impôs-se no grande ecrã com a determinação, contradições, perspicácia e trabalho árduo que a caracterizam. Depois de a tela passar a negro, Maria da Graça Carvalho não abandonou a película por completo: guardou consigo alguns dos traços da personagem. Foi deste filme que retirou aquela que é hoje outra das suas imagens de marca, o cabelo ruivo vibrante. “Vi o filme e gostei da cor [do cabelo]. Mas o meu ainda é mais vermelho”, observa, divertida, confessando que foi desde então que decidiu mudar a cor do seu cabelo, ficando também fã do batom vermelho e do estilo exibido pela atriz. “Ela veste muito bem”, aprecia.

O coração no coração da Europa
De Londres, Maria da Graça Carvalho regressou a Lisboa e ao Instituto Superior Técnico, no qual se dedicou ao ensino e à investigação até trocar a Alameda por São Bento, a academia pela política. Depois de dois anos como ministra, houve mais uma reviravolta e a vida encarregou-se de lhe apresentar um novo destino, onde prosseguiu o seu percurso político. Emigrou para Bruxelas, “uma cidade que se aprende a gostar” e onde “a vida é mais fácil”.
“Quem vai para Bruxelas vai muitas vezes com a ideia de ficar seis meses, e acaba por ficar oito, dez ou 20 anos. É normal”, graceja.
No salto para a política internacional, começou por aceitar o convite para ser conselheira principal na área de Energia, Alterações Climáticas, Ciência e Inovação de Durão Barroso, quando este foi designado presidente da Comissão Europeia. A estes três anos, seguiu-se mais de uma década como eurodeputada. Na bagagem levou o gosto pela ciência, que a acompanhou no trabalho que desenvolveu como relatora de programas europeus de investigação e inovação, o Horizonte 2020 e Horizonte 2030.
Na sua passagem pelas instituições europeias, as questões da ética e ciência estiveram também muito presentes. Falou com teólogos, filósofos e cientistas, em coordenação com o European Group of Ethics, para perceber que princípios éticos deveriam estar presentes na definição de políticas públicas para as áreas de energia e inteligência artificial. Dedicou-se a fazer recomendações neste âmbito às direções gerais competentes. “O pensar a ética na política pública é algo muito interessante“, considera a agora ministra.
"O pensar a ética na política pública é algo muito interessante.”
Além de trabalhar para que a ética não fosse descurada, como não poderia deixar de ser, fez um trabalho semelhante no que toca a garantir que as políticas públicas se baseiam em evidências científicas. “As políticas públicas começam na evidência científica, depois têm a componente ética e por fim, consideram a componente das restrições políticas e orçamentais”, explica. Confrontada sobre como olha ao trabalho que desenvolveu na altura no contexto atual, no qual cada vez mais os factos científicos são postos em causa, desvaloriza, e considera que o respeito pela ciência continua a ser a norma: “Quando alguém não segue estes princípios fica evidente, não é?“.
Outro dos dossiers que se orgulha de ter carregado foi o da diretiva “Mulheres nos Conselhos de Administração”, que pretendia incentivar um aumento do número de mulheres sentadas à mesa da administração de empresas cotadas em bolsa. Era uma iniciativa que se arrastava há 12 anos. “Tive um papel importante porque a diretiva estava bloqueada e o nosso grupo político não era a favor. Consegui que se mudasse a posição e que me nomeassem para negociadora. A partir dali conseguimos fechar”, assinala.
Esta era uma causa que já vinha de trás. “Quando fui para o técnico éramos só duas [mulheres] em cerca de 100 alunos”, conta. E por isso assume-se, sem hesitações, como feminista. Foi desde essa altura que ficou desperta para os desequilíbrios e os tentou contrariar. Fê-lo, por exemplo, quando ficou encarregue de preparar o Dia Aberto, um dia “importante” em que os alunos visitam a faculdade para conhecerem e escolherem o seu curso.
Quando fui para o técnico éramos só duas [mulheres] em cerca de 100 alunos.
“Decidi que íamos fazer um dia em que só mulheres apresentavam”, relata a catedrática. Apesar de não haver professoras que pudesse convocar, havia alunas de doutoramento no seu departamento, que ajudaram a mostrar os laboratórios. “Costumávamos ter duas ou três raparigas no curso. Nesse ano tivemos 25”, conta. Recorda até um episódio caricato, de um rapaz que no final ficou com dúvidas: “Não tenho a certeza que isto seja um curso para homens, só vejo senhoras… a professora acha que eu me vou sentir aqui bem?”, perguntou-lhe.
Considera, por isso, que “é muito importante perceber que existem outras mulheres que fazem o mesmo, ter o modelo, não sermos as únicas”. E mantém-se ativa nesta frente, fazendo parte do grupo Mulheres na Energia, ao mesmo tempo que reconhece que, da última vez que preencheu um relatório sobre este assunto no Parlamento Europeu, mesmo antes de voltar ao Governo, o resultado ainda não era positivo: só 13% dos profissionais de energia, no bloco, eram mulheres.
Trabalho muito, mas eu gosto de trabalhar. Para mim o trabalho não cansa, só quando me interrompem muito. Ler coisas, pensar, não é trabalho. Gosto, gosto muito.
Os anos em Bruxelas prolongaram-se, com gosto. Lá encontrou “coisas básicas” como bons transportes e um bom sistema de saúde e, claro, “oportunidades” e uma comunidade grande de portugueses. Rapidamente se tornou parte de um grupo que se auto intitulava o “grupo do autocarro”, no qual se juntavam portugueses que percorriam com frequência a rota da TAP entre Lisboa e Bruxelas. Trocavam favores entre si, quando queriam levar ou trazer algo para Bruxelas.
“O que gostava menos era que chovia bastante”, confessa. Andava muito a pé, um hábito que a acompanhou da infância aos dias de hoje, e acabou por dispensar até o guarda-chuva, substituindo-o por um capuz. “Depois uma pessoa habitua-se”, garante.

A ministra “superpresidente”
O regresso a Lisboa deu-se em 2024, a convite do primeiro-ministro, Luís Montenegro, que desafiou Maria da Graça Carvalho a voltar a agarrar uma pasta ministerial, desta vez, a do Ambiente e Energia. Aceitou mas, tal como elencou numa entrevista ao ECO/Capital Verde em maio, já lidou com várias crises desde que tomou posse: primeiro, “uma seca enorme” no sul do país, sobretudo no Algarve. Depois, os incêndios de 2024 e 2025, o apagão, as sete tempestades e, finalmente, o conflito no Médio Oriente, entre o Irão e os Estados Unidos, que tem tido um impacto relevante nos preços dos combustíveis.
“Trabalho muito, mas eu gosto de trabalhar. Para mim o trabalho não cansa, só quando me interrompem muito. Ler coisas, pensar, não é trabalho. Gosto, gosto muito”, assume a ministra, que estima trabalhar cerca de 16 horas por dia. O que a motiva, diz, são os assuntos que sempre abraçou: energia, ciência, ensino superior e inovação.
Eu sinto-me uma ‘superpresidente’ de Câmara. Nesta área é essencial [a deslocação], porque senão não me apercebia dos problemas. É ir lá, falar e ver.
Apesar desta constante, nota uma grande diferença entre a primeira e a segunda vez que tomou as rédeas de um ministério: agora, muito por causa das responsabilidades ligadas ao ambiente – os parques naturais, os rios, os resíduos –, tem uma relação mais próxima com o território.
“Eu sinto-me uma superpresidente de Câmara”, brinca, quando confrontada com a agenda preenchida que a leva a percorrer quase todas as semanas vários quilómetros, de Norte a Sul do país. “Nesta área é essencial [a deslocação], porque senão não me apercebia dos problemas. É ir lá, falar e ver”, defende. E, sempre que pode, aproveita para juntar o útil ao agradável: “Adoro cafés históricos. Vou sempre que posso”. Quando visita outras cidades, propõe, recorrentemente, encontro neste tipo de estabelecimentos.
Esta espécie de “omnipresença” da ministra foi particularmente notória no início do ano, durante o comboio de tempestades que devastou sobretudo a zona Centro, mas também outras localidades. A revista Sábado relatou, na altura, como Maria da Graça Carvalho foi o primeiro membro do Governo a chegar ao terreno, como se preocupou em veicular a imagem de destruição através da comunicação social de forma a desbloquear a ajuda rápida de Bruxelas e também como se mostrou próxima da população.
Apesar de ter vivido a maioria da sua vida em grandes cidades, Maria da Graça Carvalho está familiarizada com a vida fora dos grandes centros. Nasceu em Beja, em 1955, e considera que essa vivência “teve uma grande influência” na sua vida. Levou a infância a cantar – cantava com os amigos no caminho para a escola e nos passeios no campo, onde iam brincar e colher flores e espigas. Mas o verão quente “convida a levar a vida mais devagar”, e acabava também por se recolher, “estudar muito e ler muito”. Aos 15 anos já tinha devorado muitos dos clássicos, do neorrealismo de Manuel da Fonseca e Soeiro Pereira Gomes aos latino-americanos como Gabriel García Márquez, passando por aquele que elege como, “provavelmente”, o seu preferido: Fiódor Dostoiévski.
Estes hábitos acabam por se refletir na ética de trabalho de hoje. Diz-se “treinada para estudar”. Valoriza, também, a “educação de qualidade” que o ensino público lhe proporcionou. Por outro lado, afirma que a literatura foi a janela que lhe permitiu “perceber o mundo” numa altura em que não viajava, mas também navegar pelos “sentimentos mais complexos” que encontrava nas páginas. Acredita que lhe emprestaram “alguma sensibilidade ou, como se diz agora, inteligência emocional”.
Quando pensa no que será o futuro, a resposta é imediata: “a fazer o que gosto”, que é estudar e trabalhar. “Posso-me dar ao luxo de acompanhar as questões mesmo sem voltar à academia”, encerra, dizendo-se focada nos vários assuntos que tem para já em mãos, mais do que nos próximos passos.

Lusa
Quando chegar o momento de arrumar a pasta ministerial, espera ter conseguido dar uma maior independência a Portugal no setor da água, para o país ser mais resiliente às secas; atingir também uma maior independência na produção de energia e, finalmente, quebrar a ligação entre crescimento económico e a produção de resíduos, que gostava de ver a decrescer.
Seja qual for o desfecho deste capítulo, os largos anos ao longo dos quais tem acompanhado as áreas de energia e ambiente permitem-lhe o otimismo. O panorama energético “já mudou profundamente” desde os tempos em que começou o seu percurso. “Eu trabalhei muito em carvão, em emissões de carvão e partículas”, recorda. Desde então, a queima de carvão tornou-se mais limpa e foi gradualmente substituída por gás natural, para depois chegarem as energias renováveis. “Essa transformação foi feita em 30 anos. E foi tecnologia e ciência”, frisa. “Temos melhor ar, melhor água e houve uma verdadeira revolução tecnológica no Ambiente. E vai continuar. Isto independente da tecnologia que se usa. Tem é que ser uma tecnologia limpa”, conclui.


















