Há 60 mil alunos para os quais 23 de agosto será um dia importante. Será nessa data que serão conhecidos os resultados da primeira fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior. No ano passado, foram 44 mil os colocados, o número mais baixo desde 2016, refletindo uma mudança nas regras de entrada. Esta foi, entretanto, revertida e, apesar das dificuldades nos exames nacionais, as candidaturas dispararam. Os especialistas ouvidos pelo ECO antecipam, por isso, que o ano letivo que está à porta será sinónimo de uma subida das colocações no ensino superior.

Comecemos pelo cenário estatístico. No último ano letivo, menos de 50 mil alunos candidataram-se à primeira fase do concurso de acesso ao ensino superior, dos quais 43.899 acabaram por ser colocados. Esse último número representou um recuo de 12,1% face à mesma fase do ano anterior, e foi o mais baixo em quase uma década.
De acordo com um estudo da Secretaria de Estado do Ensino Superior, entre os fatores que explicaram esse recuo histórico estiveram, nomeadamente, a evolução demográfica (a redução progressiva da população jovem) e a inadequação das bolsas de ação social (estando o modelo atual “fragmentado e desajustado do custo de estudar”), mas também as alterações ao regime de acesso.
Em concreto, as instituições de ensino superior tiveram de exigir um mínimo de duas provas de ingresso, em vez de apenas uma, como até aí acontecia. “A evidência empírica indica que a alteração de uma para duas provas reduziu estruturalmente o universo de candidatos elegíveis e pode relacionar-se com cerca de 46% da quebra na primeira fase de 2025/2026, sem ganhos demonstrados em sucesso académico“, sublinhava a Secretaria de Estado do Ensino Superior, na análise já referida.
Do universo dos 1.519 pares instituição/curso que podiam fixar elencos com apenas uma única prova de ingresso, 1.330 decidiram fixar pelo menos 1 elenco com uma única prova de ingresso, o que representa 88%.
Por isso, no início deste ano, o Governo aprovou em Conselho de Ministros a reversão das mudanças que tinham sido feitas nas regras de acesso ao ensino superior, permitindo que as universidades e politécnicos possam exigir entre uma e três provas de acesso.
De acordo com um comunicado recente da tutela, das 1.519 licenciaturas que podiam fixar apenas um exame de entrada, 1.330 decidiram fazê-lo, ou seja, em 88% dos casos o acesso voltou a ficar mais fácil este ano.
Entretanto, há a referir também que, na primeira fase da apresentação das candidaturas no concurso de acesso ao ensino superior — que terminou a 6 de agosto –, inscreveram-se 60.391 alunos.
Assim, apesar dos sérios constrangimentos registados na avaliação digital dos exames nacionais, o número de candidatos subiu quase 22% face a 2025/2026, retomando mesmo os níveis pré pandemia. Evolução que o investigador Pedro Luís Silva liga fortemente à referida reversão das regras de acesso.
Ler maisCandidaturas ao superior sobem 21,8% para máximo em 30 anos“Uma explicação plausível é a reversão da regra que exigia pelo menos duas provas de ingresso, voltando a ser possível, em muitos casos, concorrer com apenas uma”, salienta, em declarações enviadas ao ECO. O também professor da Universitat Autònoma de Barcelona alerta, contudo, que a quebra de 2025 teve “características diferentes consoante o percurso de ensino secundário“. “Fora dos cursos científico-humanísticos, a redução concentrou-se sobretudo na decisão de candidatura e foi proporcionalmente mais acentuada”, adianta.
Os alunos das vias profissionalizantes, importa explicar, não precisam dos exames nacionais para concluir o ensino secundário. Logo, candidatar-se através do concurso nacional de acesso implica, nestes casos, “um esforço adicional de preparação”.
Em 2024, por exemplo, esse esforço limitava-se a uma prova. Em 2025, porém, passou a implicar, pelo menos, duas, o que poderá ter desincentivado essa aposta. Já em 2026, voltou a ser possível concorrer com apenas uma. “É, portanto, possível que uma parte importante deste aumento [das candidaturas] esteja concentrada precisamente nos alunos provenientes das vias profissionais“, defende, assim, Pedro Luís Silva.
É possível que uma parte importante deste aumento [das candidaturas] esteja concentrada precisamente nos alunos provenientes das vias profissionais
Também Luís Catela Nunes, professor da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), concorda que a reversão das regras de exame terá sido um “fator importante” na recuperação de candidatos, mas aponta também o fator demográfico. No último ano letivo, eram mais os alunos no 11.º ano de escolaridade do que no 12.º, pelo que é plausível que uma parte da subida dos candidatos agora verificada seja um reflexo disso, aponta o especialista.
Há ainda outro contributo a considerar: o dos alunos que não conseguiram entrar no ensino superior em 2025, devido às regras mais restritivas, e que agora engrossaram o universo de candidatos.
“Podemos ter alunos que em 2025 não reuniam as duas provas de ingresso necessárias e que, perante a reversão da regra, decidiram candidatar-se em 2026. Como as provas de ingresso têm validade de cinco anos, alguns candidatos podem ter simplesmente adiado a candidatura“, recongece Pedro Luís Silva.
Luís Catela Nunes também o admite e destaca mesmo que, no ano passado, o número de alunos a entrar em cursos técnicos superiores profissionais (os CTeSP) aumentou, o que pode ter sido explicado pela maior exigência à entrada no ensino superior, o que terá direcionado os jovens para opções de formação alternativas.
“Será importante perceber quantos dos candidatos deste ano concluíram o ensino secundário em 2026 e quantos são diplomados de anos anteriores, em particular de 2025. Isso permitirá perceber se estamos sobretudo perante novos candidatos ou também perante uma recuperação da procura que ficou suspensa no ano passado“, frisa o investigador Pedro Luís Silva, que tem sido um dos autores do estudo anual “Balanço da Educação” do EDULOG, think tank da Fundação Belmiro de Azevedo cujo objetivo é “contribuir para a construção de um sistema de educação de referência” e a informação das políticas públicas “para a inovação e mudança na Educação”.
Adiamento das novas bolsas impediu subida maior das candidaturas?

Em julho, o Governo fez publicar em Diário da República um decreto-lei que estabelece um novo modelo para a política de ação social escolar no âmbito do ensino superior. A intenção é criar um “sistema mais justo, transparente e eficaz“, segundo o Ministério da Educação.
“A evidência disponível demonstra que a origem social continua a exercer uma influência determinante nos percursos educativos, com probabilidades substancialmente distintas de atingir o ensino superior em função do nível de escolaridade dos pais. Atendendo a esta realidade, a promoção da igualdade de oportunidades no acesso e na frequência do ensino superior impõe uma intervenção pública ativa e consistente, orientada para contrariar a reprodução das desigualdades sociais e para reduzir os obstáculos económicos que condicionam as escolhas educativas dos estudantes e das suas famílias“, sublinhava o Executivo de Luís Montenegro, no referido diploma.
O novo modelo prevê mudanças não só nos apoios sociais direitos (as bolsas de estudo), mas também nos apoios sociais indiretos (nomeadamente, as residências estudantis).
A 29 de julho, o Ministério da Educação anunciou, no entanto, que decidiu aplicar este novo sistema de forma faseada, tendo em conta que a coincidência entre a conclusão deste processo legislativo e a primeira fase de apresentação das candidaturas ao concurso nacional de acesso de 2026.
Assim, o novo modelo que determina que as bolsas de estudo passam a ser calculadas com base no custo real de estudo em determinada localidade e no rendimento que pode ser disponibilizado ao estudo pelo agregado só será aplicado a partir do ano letivo de 2027/2028. Ainda assim, as chamadas bolsas de incentivo, um apoio que visa “atenuar o custo de oportunidade associado à decisão de prosseguir estudos no ensino superior“, avançam já.
Ora, de acordo com a análise da Secretaria de Estado do Ensino Superior, a inadequação da bolsa de ação social foi um dos motivos por detrás da queda de colocados no último ano letivo, admitindo o Governo, nesse estudo, que o atual pouco é “pouco progressivo” e está desajustado, pelo que a sua eficácia enquanto “instrumento de promoção do acesso e permanência no ensino superior” está limitada.
É possível que o aumento das candidaturas pudesse ter sido um pouco superior com o novo modelo de bolsas, mas é difícil quantificar esse efeito sem dados adicionais.
A pergunta que se impõe é, pois, se o adiamento da implementação do novo modelo de bolsas de estudos terá impedido uma recuperação ainda mais significativa das candidaturas ao ensino superior.
O investigador Pedro Luís Silva admite-o, ainda que realce que não há dados que permitam quantificar por agora esse potencial fenómeno.
“Sabemos que as condições financeiras constituem uma barreira relevante no acesso ao ensino superior. A literatura mostra que os jovens provenientes de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos têm, em média, uma menor probabilidade de se candidatarem ao ensino superior do que jovens de contextos mais favorecidos com características académicas semelhantes”, começa por sublinhar o também professor universitário.
“Nesse sentido, o adiamento do novo modelo de bolsas pode, em teoria, ter condicionado a candidatura de alguns estudantes, sobretudo daqueles para quem os custos de deslocação, alojamento e frequência têm maior peso na decisão“, salienta.
Não basta que o sistema mude. É preciso que seja anunciado. Que os alunos o conheçam. E que o sistema seja previsível e automático.
Já Luís Catela Nunes prefere olhar para o futuro, afirmando que o novo sistema de bolsas vai permitir aos alunos ter acesso a um apoio mais considerável, sendo plausível que o número de candidatos ao ensino superior aumento. “Alunos que não conseguem hoje [estudar no ensino superior] poderão fazê-lo”, antecipa. “Mas não basta que o sistema mude“, alerta o professor da Nova SBE. É preciso que as alterações sejam devidamente anunciadas e publicitadas, isto é, que os alunos o conheçam, defendem. “Que o sistema seja previsível e automático“, insta.
Já sobre as questões demográficas, o professor da Nova SBE sublinha que esta continua a ser uma matéria importante, apesar da recuperação de candidatos contabilizada este ano. Luís Catela Nunes prevê uma redução gradual dos jovens, embora “obviamente” que haja flutuações. “A tendência vai ser uma redução, sobretudo no interior. As instituições vão ter de se adaptar e repensar a oferta formativa“, considera, referindo-se, por exemplo, a cursos para adultos e para requalificação de profissionais.
“As projeções continuam a apontar para uma redução da população jovem nos próximos anos, embora os fluxos migratórios possam atenuar essa tendência. Portanto, a pressão demográfica continua a ser um desafio estrutural para o ensino superior português“, corrobora Pedro Luís Silva. “A comparação entre 2026 e 2027 será particularmente informativa. Se as regras de acesso se mantiverem, teremos dois anos mais comparáveis e será mais fácil perceber a evolução efetiva da procura”, esclarece.
Afinal, vem aí aumento dos colocados?

Uma vez que o número de alunos a candidatarem-se ao ensino superior, nesta primeira fase, atingiu um máximo de 30 anos, 23 de agosto trará uma inversão da quebra histórica verificada em 2025 ou vem aí uma nova descida, apesar dos inscritos? Os especialistas ouvidos pelo ECO antecipam que deverá haver um aumento das colocações nesta primeira fase, ainda que tendencialmente mais modesto que a subida das candidaturas.
“O mais provável é aumentar o número de colocados, mas não tanto quanto ao de candidatos”, confirma o professor Luís Catela Nunes, que identifica as preferências dos alunos como uma das razões para esperar uma subida menor nos colocados do que a que foi registada nas candidaturas.
“Com um aumento tão expressivo das candidaturas, é razoável esperar uma recuperação do número de colocados face a 2025. Mas um aumento de 22% dos candidatos não se traduz necessariamente num aumento semelhante dos colocados e, sobretudo, dos inscritos”, concorda o investigador Pedro Luís Silva, que também uma razão semelhante à já referida.
O mais provável é aumentar o número de colocados, mas não tanto quanto ao de candidatos.
“Um dos problemas do sistema português é que a procura está muito concentrada num conjunto relativamente restrito de cursos e instituições. Podemos, por isso, ter mais candidatos e, simultaneamente, continuar a ter vagas por preencher em determinados cursos e instituições”, esclarece.
O também professor da Universitat Autònoma de Barcelona adianta também que alguns candidatos poderão também não conseguir colocação ou ficar colocados numa opção que não corresponde às suas principais preferências.
“Será particularmente importante olhar depois para as inscrições e para as preferências em que os estudantes foram colocados: ter mais candidatos e até mais colocados não significa necessariamente que tenhamos uma utilização mais eficiente das vagas disponíveis”, declara ainda o mesmo especialista que, de resto, alerta que é preciso ver, agora que as regras de acesso foram revertidas, qual a taxa de abandono dos estudos.
“A redução para uma prova pode aumentar o número de candidatos e facilitar a entrada no ensino superior, mas, se parte desse aumento ocorrer em cursos nos quais existe uma menor correspondência entre a preparação académica do aluno e as exigências do curso, podemos estar simplesmente a transferir o problema do acesso para o problema do abandono“, avisa.
Em contraste, Luís Catela Nunes elogia a reversão das mudanças feitas às regras de acesso, entendendo que se trata de um regresso à normalidade. “A qualidade mede-se de outra forma, através do trabalho que é feito e da empregabilidade destes cursos. Não é baixar a qualidade, mas dar acesso ao ensino superior a diferentes tipos de perfis“, conclui o professor da Nova SBE.






