Escrever sobre a obra de um artista é sempre um ato de alguma arrogância. Chega-se com uma bagagem de referências, com um vocabulário aprendido, com um sistema de leitura construído ao longo dos anos — e depara-se com um universo que muitas vezes excede em muito o que se trouxe. É essa tensão, essa insegurança produtiva, que abre a conversa entre Delfim Sardo e Rui Sanches: o que significa olhar para um trabalho sabendo que o seu autor domina um campo de referências vasto, denso e permanentemente ativo?
Mas a resposta, curiosamente, não é defensiva. As referências — de Donald Judd a Richard Serra, do classicismo à história da escultura — funcionam aqui como materiais. Não como justificações, não como escudos teóricos, mas como madeira, vidro ou borracha: escolhidas por aquilo que permitem fazer, não pelo prestígio que conferem.
Há também uma honestidade rara sobre o processo criativo. O atelier como lugar de paralisia antes de ser lugar de produção. A dificuldade de arrancar depois de um longo período sem trabalho. E a consciência de que a única saída é começar.
Por Delfim Sardo, com música original de Paulo Furtado.
Moderação de Paulo Padrão.
Produção por Diogo Simões.
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