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Pontal: Montenegro leva obra feita para a rentrée e aponta baterias às “forças de bloqueio” de Chega e PS

Politólogos antecipam um discurso combativo, com PS e Chega como alvos, mas com uma porta aberta aos socialistas para garantir a viabilização do Orçamento do Estado para 2027.

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É com a Festa do Pontal, esta sexta-feira, que o PSD dá o pontapé de saída para a rentrée política. O tradicional encontro social-democrata regressa ao Calçadão de Quarteira, em Loulé, para assinalar 50 anos, e terá como principal protagonista Luís Montenegro, que deverá marcar presença a partir das 19h, enquanto presidente do partido e primeiro-ministro. O momento surge num contexto particularmente exigente para o Governo, depois de um verão marcado por polémicas, críticas da oposição e do Presidente da República e com a discussão do próximo Orçamento do Estado já no horizonte.

Ao que o ECO conseguiu apurar, Montenegro não deverá transformar o Pontal numa montra de grandes medidas emblemáticas, como aconteceu em anos anteriores. O primeiro-ministro deverá sobretudo apresentar obra feita, fazer um balanço da execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) — cujo prazo termina no final de agosto — e destacar avanços em áreas como a saúde e a habitação. A estratégia passa por recuperar uma narrativa de concretização e execução e, ao mesmo tempo, preparar a agenda política para os próximos meses.

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Os politólogos ouvidos pelo ECO admitem, contudo, que Montenegro poderá guardar uma medida com impacto mediático para o palco de Quarteira. André Azevedo Alves, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, considera que o contexto político pode favorecer um novo anúncio emblemático. No entanto, alerta, “o estado das contas públicas infelizmente não é nada propício a anúncios que impliquem nova despesa”.

De recordar que depois de ter fechado 2025 com um excedente orçamental de 0,7% do PIB, o Governo de Luís Montenegro reviu em baixa a sua perspetiva para 2026: no plano de médio prazo enviado a Bruxelas, já não aponta para o excedente de 0,1% inscrito no Orçamento, mas para um saldo orçamental de 0,0% do PIB, isto é, contas públicas equilibradas.

Mas a pressão política sobre o Executivo, designadamente em torno da manutenção de Luís Neves como ministro da Administração Interna, torna “ainda mais provável um novo anúncio emblemático”. Um novo bónus para os pensionistas é uma das possibilidades que o politólogo não exclui. “Dado o seu peso eleitoral e o que tem sido a estratégia de Montenegro, um novo bónus para os pensionistas é certamente uma possibilidade”, afirma, embora admita que possa surgir “outra medida que constitua novidade e com impacto mediático”.

O estado das contas públicas infelizmente não é nada propício a anúncios que impliquem nova despesa.

André Azevedo Alves

Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

Se a grande surpresa não surgir, a aposta deverá estar mais na apresentação de resultados e na antecipação das prioridades para o outono. Hugo Ferrinho Lopes, investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, considera que há temas dos quais Montenegro dificilmente poderá fugir: “saúde e urgências, apoios ao interior e à prevenção de incêndios, habitação” e o balanço da execução do PRR.

A saúde poderá assumir particular relevância, num momento em que a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde continua a ser uma das áreas mais escrutinadas politicamente. A habitação será outro dos dossiês com espaço no discurso, sobretudo porque permite ao primeiro-ministro apresentar políticas de investimento e medidas dirigidas a uma das principais preocupações dos portugueses.

Mas Ferrinho Lopes considera que o Pontal terá uma função mais ampla do que simplesmente responder às polémicas que marcaram o verão. Na sua leitura, a festa serve para “reclamar créditos e desviar culpas”, sendo expectável que Montenegro se concentre mais em “economia, impostos, saúde e investimento público”. A conclusão do politólogo é particularmente significativa: “O Pontal não serve para responder à oposição. Serve para mudar de assunto.”

É precisamente essa mudança de foco que poderá permitir a Montenegro recentrar o discurso na execução governativa. Em vez de se deixar prender pelas polémicas em torno da correção digital dos exames nacionais ou do ministro da Administração Interna, o primeiro-ministro deverá procurar levar os militantes e simpatizantes para o terreno em que o Governo considera ter mais para apresentar: investimento, reformas, execução de fundos europeus e medidas com impacto direto no quotidiano.

O balanço do PRR deverá ter um lugar de destaque no discurso. O prazo para a execução do plano termina no final de agosto, o que transforma o Pontal numa oportunidade política para o Governo fazer uma espécie de balanço final da aplicação dos fundos europeus e reivindicar resultados.

O Pontal não serve para responder à oposição. Serve para mudar de assunto.

Hugo Ferrinho Lopes

Investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

A lógica encaixa naquilo que Ferrinho Lopes identifica como uma das principais funções de um discurso deste tipo: “fixar a agenda do outono”. O primeiro-ministro terá assim oportunidade para apresentar a execução do PRR como prova da capacidade do Executivo para concretizar investimento e transformar compromissos em obra.

A aposta em resultados poderá ser particularmente importante porque, este ano, Montenegro não chega ao Pontal com a mesma margem para prometer grandes aumentos de despesa. André Azevedo Alves considera que as contas públicas não favorecem anúncios com impacto orçamental significativo. Ainda assim, antecipa que o primeiro-ministro deverá manter a responsabilidade financeira como um dos pilares da mensagem governativa.

Sílvia Mangerona, politóloga, é a que mais espaço deixa para a possibilidade de Montenegro apresentar uma medida-bandeira. A especialista lembra que o primeiro-ministro, à semelhança do que fez no ano passado com o anúncio do regresso da Fórmula 1 ao Algarve e da construção do Hospital Central do Algarve, “tenderá a eleger uma medida que funcione como bandeira e soundbite mediático”.

Luís Montenegro tenderá a eleger uma medida que funcione como bandeira e soundbite mediático.

Sílvia Mangerona

Politóloga

Mas a escolha dessa medida dependerá da conjuntura e da capacidade de gerar impacto imediato. “O sucesso do discurso dependerá da escolha dos temas e da forma como os comunicar”, considera a politóloga, sublinhando que a reação da opinião pública dependerá também dos acontecimentos que marcarem os dias que antecedem a festa e do próprio dia do Pontal.

Sílvia Mangerona aponta ainda três possíveis eixos para a intervenção: a defesa da confiança nas instituições e da ética dos governantes, numa resposta à pressão sobre o ministro da Administração Interna; a defesa da modernização e da reforma do Estado, dando respaldo ao ministro da Educação; e, finalmente, uma política pública distributiva com “grande aceitação social e pouco conflito político”, capaz de procurar “piscar o olho à esquerda e à direita” e recuperar alguma paz social.

Esta última dimensão pode ser particularmente importante num discurso que terá de falar simultaneamente para o eleitorado e para as bases do PSD. A Festa do Pontal é, afinal, um momento de mobilização partidária, mas este ano Montenegro terá também de demonstrar que o Governo continua capaz de apresentar uma agenda própria.

No fundo, os três politólogos convergem numa ideia: o Pontal deste ano deverá ser menos uma feira de grandes anúncios e mais uma operação política para recuperar iniciativa.

Para Ferrinho Lopes, o discurso deverá cumprir as funções clássicas da rentrée: reivindicar resultados, definir a agenda do outono e deslocar o debate para áreas onde o Governo se sente mais confortável. Para André Azevedo Alves, a resposta às críticas deverá ser acompanhada pela tentativa de “evidenciar avanços na governação”, ao mesmo tempo que PS e Chega serão responsabilizados pelas dificuldades em fazer mais. E, para Sílvia Mangerona, o objetivo último será recuperar confiança no Executivo.

“O discurso de Luís Montenegro, na Festa do Pontal, tem interesse partidário ao nível interno por ser um momento de união e galvanização das bases do partido, mas é, fundamentalmente, um momento para resgatar a confiança no Governo”, resume a politóloga.

Menos “excedente”, mais “contas certas”

A mensagem sobre as contas públicas deverá mudar de tom face ao Pontal anterior. Se em 2025 Montenegro prometeu um novo excedente, este ano os politólogos não esperam que o primeiro-ministro volte a colocar a fasquia nesse nível.

“Parece difícil face à execução orçamental e às perspetivas para o resto do ano prometer um novo excedente”, afirma André Azevedo Alves. Ainda assim, o politólogo considera que Montenegro deverá manter o equilíbrio das contas públicas como um dos temas presentes na intervenção, numa área em que entende que o Governo mantém “boas credenciais”, em grande medida devido à atuação do ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento.

Hugo Ferrinho Lopes antecipa uma mudança mais clara de vocabulário. Em vez de voltar a apostar na palavra “excedente”, Montenegro deverá falar mais em “contas certas”, “equilíbrio” e “responsabilidade”. Trata-se, na leitura do investigador, de uma estratégia de gestão de expectativas antes da discussão do próximo Orçamento do Estado.

“Prometer novo excedente seria criar um teste que o Governo pode falhar em plena discussão orçamental”, explica Ferrinho Lopes. A alteração da linguagem permitirá ainda ao primeiro-ministro atribuir ao Parlamento parte da responsabilidade pelas medidas que o Executivo não conseguiu concretizar.

O politólogo chama ainda a atenção para uma frase de Montenegro proferida em maio, quando o primeiro-ministro afirmou não ter “nenhuma obsessão” com um saldo positivo. Na sua interpretação, essa declaração constituiu já um primeiro sinal da mudança de enquadramento político.

Chega e PS no centro da narrativa de bloqueio

O tom político deverá ser mais agressivo. Os três politólogos ouvidos pelo ECO apontam para uma intervenção combativa, ainda que com nuances diferentes quanto à relação que Montenegro deverá estabelecer com PS e Chega.

André Azevedo Alves espera “claramente um tom mais combativo” por parte do primeiro-ministro. A estratégia deverá passar por responsabilizar as oposições pelas dificuldades sentidas pelo Executivo em avançar com mais medidas. “É de esperar em particular a responsabilização das oposições (nomeadamente Chega e PS) pelas dificuldades do Governo em fazer mais”, afirma.

Esse discurso deverá ligar-se à acusação, já utilizada pelo primeiro-ministro, de que Chega e PS funcionam no Parlamento como uma “coligação negativa” e constituem forças de bloqueio às reformas do Governo. O Pontal oferece a Montenegro uma vantagem: ao contrário de um debate parlamentar, o primeiro-ministro terá um palco partidário, perante uma plateia maioritariamente favorável, para desenvolver essa mensagem sem ter de responder diretamente aos adversários.

Ferrinho Lopes considera que esta narrativa tem uma dupla utilidade política. Por um lado, permite explicar por que razão determinadas medidas não avançaram; por outro, permite pressionar os partidos que poderão ser necessários para aprovar o Orçamento do Estado para 2027. “Essa narrativa serve para duas coisas ao mesmo tempo: explicar o que não foi feito e pressionar quem terá de viabilizar o Orçamento de 2027”, explica.

Apesar da dureza esperada nas críticas, Montenegro não deverá fechar completamente a porta a entendimentos. É aqui que entra a particularidade de um Governo minoritário, que precisa de negociar diferentes maiorias consoante os temas.

“O mais provável é combativo no diagnóstico e conciliador na oferta”, antecipa Ferrinho Lopes. O investigador lembra que um Governo nesta posição não procura necessariamente um aliado permanente, mas “maiorias variáveis, tema a tema”.

A estratégia deverá ser particularmente visível na relação com Chega e PS. Segundo o politólogo, o Governo tem adotado uma lógica de confronto com o Chega em matérias como finanças públicas e funcionamento das instituições, mas uma maior acomodação em áreas como imigração e segurança.

Ao mesmo tempo, deverá manter uma disponibilidade negocial mais evidente com o PS, sobretudo em matéria orçamental. “Fala à direita nos temas e ao centro nas contas”, resume Ferrinho Lopes, lembrando que foi a abstenção socialista que permitiu aprovar o Orçamento para 2026, depois de o Chega ter votado contra.

É uma equação que deverá condicionar a intervenção de Montenegro: atacar PS e Chega para consumo político e partidário, mas sem fechar as portas à negociação que poderá ser necessária no Parlamento.

É num equilíbrio entre balanço e promessa, confronto e negociação, que Montenegro deverá construir a intervenção desta sexta-feira. Com o PRR a chegar ao fim, o Orçamento do Estado para 2027 no horizonte e a necessidade de negociar no Parlamento, o primeiro-ministro terá de mostrar obra feita, defender as contas públicas e, ao mesmo tempo, explicar aos portugueses por que razão algumas das reformas prometidas ainda não avançaram. Para isso, Chega e PS deverão voltar a surgir como parte central da narrativa das “forças de bloqueio” — enquanto a porta para acordos, sobretudo com os socialistas, permanecerá entreaberta.

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