A semana arrancou com o preço do gás natural a disparar até 10%, regressando a níveis de 2023 e a um dos patamares mais altos desde o início da guerra no Irão. A incerteza em relação ao conflito e níveis de armazenamento abaixo do verificado no mesmo mês do ano anterior pressionam.
Esta segunda-feira, o gás natural Title Transfer Facility, negociado nos Países Baixos disparou 10,62% para os 60,79 euros por megawatt-hora (MWh) e chegou a tocar os 60,9 euros. Esta subida aconteceu depois de duas semanas de alívio, nas quais as cotações se afastaram do máximo atingido a 27 de julho, de 64,02 euros por MWh. Esse pico representou o preço mais alto do gás desde o início da guerra no Irão e um máximo que não se registava desde janeiro de 2023. Desta forma, o gás natural está a ser negociado sensivelmente ao dobro do preço a que cotava antes do início da guerra no Irão.
Esta segunda-feira mantém-se a incerteza sobre a reabertura do Estreito de Ormuz. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sinalizou uma mudança de estratégia na crise com o Irão, optando por pressionar economicamente o país em vez lançar novos ataques militares, numa altura em que Teerão endurece as condições para reabrir o Estreito de Ormuz.
De acordo com o economista sénior do Banco Carregosa, Paulo Rosa, o máximo do final de julho e o facto de o TTF continuar a negociar em níveis elevados reflete “a persistência dos riscos para o abastecimento de gás e a preocupação com os baixos níveis de armazenamento na Europa”. O mesmo economista acrescenta que a “forte concorrência” da Ásia pelas cargas disponíveis também contribui para a pressão.
Os níveis de armazenamento na Europa estão, agora, consideravelmente mais confortáveis do que em maio. De acordo com o site do Gas Infrastructure Europe (AGSI+), os níveis de armazenamento na Europa estão perto dos 60%, cerca de dez pontos base acima do início de julho e quase o dobro dos 32,8% do início de maio. Apesar da evolução ser positiva, compara com os 70% registados em agosto do ano passado. “Esta diferença de 12 pontos percentuais obriga a um maior esforço na reposição do gás armazenado até ao inverno e mantém o mercado mais sensível a eventuais perturbações da oferta ou ao agravamento das tensões geopolíticas”, explica Paulo Rosa.
Por seu lado, Henrique Tomé, analista da XTB, espera que a tendência de recuperação continue e que as reservas atinjam valores normais antes de começar a época de maior consumo, pelo que considera que, para já, “a situação não é alarmante”.
É provável que a volatilidade se mantenha elevada durante agosto, em boa parte influenciada pela evolução das negociações entre os EUA e o Irão para um acordo de paz no Médio Oriente.
Se estes preços persistirem, o economista sénior do Banco Carregosa alerta que os custos da energia para as empresas podem aumentar e, em alguns casos, para as famílias também, sobretudo através da eletricidade, já que o gás continua a desempenhar um papel importante na formação do preço grossista e na produção de energia elétrica. Ainda olhando ao tecido empresarial, preços mais elevados na Europa podem pressionar a inflação e diminuir a competitividade da indústria. Em Portugal, o impacto tende a ser mais moderado, devido ao elevado peso das energias renováveis na produção de eletricidade, cerca de 85%, embora o país não esteja totalmente imune à evolução dos preços do gás nos mercados europeus.
“É provável que a volatilidade se mantenha elevada durante agosto, em boa parte influenciada pela evolução das negociações entre os EUA e o Irão para um acordo de paz no Médio Oriente”, prevê Paulo Rosa. Na ótica do economista, “qualquer atraso nas negociações ou novo agravamento do conflito poderá ditar nova alta do TTF”. A evolução dos níveis de armazenamento de gás na Europa e a procura asiática por gás natural liquefeito deverão continuar a ser fatores determinantes nas próximas semanas.
Quando o mercado adquirir mais certezas de que o conflito está próximo de uma resolução, podemos antever preços do gás natural novamente mais baixos.
Já o analista da XTB, apesar de concordar que o conflito ditará períodos de maior volatilidade no curto prazo, conforta: “Quando o mercado adquirir mais certezas de que o conflito está próximo de uma resolução, podemos antever preços do gás natural novamente mais baixos”.






