
Estávamos em janeiro de 2025 quando o mundo ouviu falar pela primeira vez da DeepSeek, até então praticamente desconhecida para a maioria das pessoas, mesmo para aquelas mais ligadas à tecnologia. Em poucos dias, após o lançamento do modelo de inteligência artificial (IA) DeepSeek R1, que apresentava capacidades avançadas de raciocínio, a empresa chinesa começou a ganhar terreno nomeadamente face ao ChatGPT e chegou a tornar-se a aplicação gratuita mais descarregada em várias regiões. Segundo um relatório de janeiro de 2026, a DeepSeek acumulou mais de 75 milhões de downloads.
Nos dias que se seguiram, o sucesso do modelo provocou também uma forte volatilidade nos mercados e uma queda nas ações de várias empresas tecnológicas norte-americanas, numa altura em que a eficiência de custos apresentada pela DeepSeek colocava em causa a dimensão dos investimentos necessários para desenvolver sistemas de IA avançados.
Por trás desta máquina está um homem sobre o qual, apesar da dimensão que a sua empresa alcançou, pouco se conhece: Liang Wenfeng. Nascido em 1985 numa pequena aldeia no sul da província chinesa de Guangdong, é filho de dois professores do ensino básico. Desde cedo destacou-se na matemática e, aos 17 anos, entrou na Universidade de Zhejiang, onde se licenciou em Engenharia de Informação Eletrónica, em 2007, antes de concluir um mestrado em Engenharia de Informação e Comunicação, em 2010.
O engenheiro chinês é, no entanto, uma figura rara no espaço público. Não tem redes sociais e concede poucas entrevistas. Em janeiro de 2025, ainda assim, discursou sobre inteligência artificial num evento privado organizado pelo primeiro-ministro chinês, Li Qiang.
A ligação de Liang Wenfeng à inteligência artificial começou, contudo, por um caminho menos óbvio: o setor financeiro. Depois da universidade, começou a explorar aplicações de IA na área financeira e, em 2013, criou a sua primeira empresa de investimento. Três anos depois, em 2016, foi cofundador da Ningbo High-Flyer Quantitative Investment Management Partnership, um fundo de investimento quantitativo que viria a desempenhar um papel importante na história da DeepSeek.
A aposta precoce de Liang na inteligência artificial ajudou a acelerar o crescimento da High-Flyer. Em 2019, a empresa já tinha construído o seu próprio cluster de supercomputação para inteligência artificial e, nessa altura, os ativos sob gestão tinham atingido os 10 mil milhões de yuans, cerca de 1,5 mil milhões de dólares.
O acesso a cerca de dez mil chips A100 da norte-americana Nvidia permitiu à High-Flyer aprofundar a investigação em inteligência artificial. Foi deste investimento que nasceu, em 2023, a DeepSeek, especializada no desenvolvimento dos seus próprios modelos de IA. Dois anos depois, a empresa lançou o DeepSeek R1. O modelo de baixo custo colocou uma empresa chinesa até então pouco conhecida no centro da corrida global pela inteligência artificial e permitiu-lhe competir com empresas como a OpenAI ou a Anthropic.
Uma fortuna que cresceu num ‘piscar’ de olhos
Em apenas um ano, de 2024 para 2025, a fortuna estimada de Liang Wenfeng passou de mil milhões para 39,5 mil milhões de dólares. A 27 de julho, esse valor representava uma valorização de 3.850% e colocava o fundador da DeepSeek entre as 100 pessoas mais ricas do mundo. O valor, contudo, não é fixo e tem oscilado com a avaliação da empresa. Atualmente, segundo o índice de bilionários da Bloomberg, Liang tem uma fortuna estimada em 37,9 mil milhões de dólares (cerca de 34 mil milhões de euros).
Uma ascensão tão rápida quanto a da própria empresa que criou e que ajuda a explicar como um empresário praticamente desconhecido fora da China passou, em poucos meses, a figurar entre as grandes fortunas da tecnologia.

A subida da fortuna está, por isso, diretamente ligada à participação que detém na empresa e à valorização atribuída à DeepSeek. Trata-se, contudo, de uma estimativa e não de dinheiro que Liang Wenfeng tenha necessariamente disponível. O valor depende da avaliação da empresa e da participação que lhe é atribuída, num contexto em que a DeepSeek não tem uma cotação em bolsa que permita determinar diariamente o valor da participação do seu fundador.
O atraso em relação aos EUA e novas rondas de financiamento
Apesar das poucas aparições públicas, Liang Wenfeng já deixou algumas pistas sobre a forma como olha para a corrida global pela inteligência artificial. Numa entrevista à publicação chinesa Waves, em 2023, o fundador da DeepSeek defendeu que a China não pode limitar-se a seguir os avanços dos Estados Unidos.
“A IA chinesa não pode estar para sempre numa posição de seguidora”, afirmou Liang, citado pela Waves. O empresário reconhecia naquela data que existia uma diferença de um ou dois anos entre a IA chinesa e a norte-americana, mas considerou que a verdadeira distância está entre a capacidade de inovar e a de imitar. “Se isto não mudar, a China será sempre apenas uma seguidora”, afirmou.
A mesma aposta na inovação parece refletir-se na forma como Liang Wenfeng construiu a equipa da DeepSeek. Os funcionários da empresa são recrutados entre algumas das universidades mais conceituadas da China e, segundo o próprio fundador, o principal fator de atração é a possibilidade de trabalhar nos problemas mais complexos da área. “O que atrai o melhor talento é obviamente resolver os problemas mais difíceis do mundo”, sublinhou Liang Wenfeng .
No final de julho, o fundador voltou a abordar o tema do atraso tecnológico da China perante os EUA apontando o dedo à capacidade de computação como o principal obstáculo, e não à falta de talento ou de capacidade tecnológica. Segundo o jornal chinês Yicai, citado pela Reuters, Liang considera que as diferenças entre os dois países ao nível do talento, dos modelos e das aplicações resultam, em grande medida, da capacidade de acesso a recursos de computação.

O problema ganhou outra dimensão com as restrições impostas por Washington à exportação de chips avançados de inteligência artificial para a China, que limitam o acesso das empresas chinesas aos processadores mais sofisticados da Nvidia. De acordo com o Yicai, a própria DeepSeek voltou a reforçar que estima estar entre 12 e 18 meses atrás das principais empresas norte-americanas, embora tenha conseguido alcançar resultados comparáveis utilizando cerca de um vigésimo da capacidade de computação dessas empresas.
É precisamente essa eficiência que ajuda a explicar a atenção que a DeepSeek continua a despertar e o interesse dos investidores. Sediada em Hangzhou, a empresa concluiu no final de maio a sua primeira ronda externa de financiamento, superior a 50 mil milhões de yuans (6,5 mil milhões de euros), que contou com investidores como a Tencent, CATL, NetEase, JD.com, IDG Capital e o fundo estatal chinês para a indústria da inteligência artificial.
A operação avaliou a DeepSeek em cerca de 350 mil milhões de yuans (44,5 mil milhões de euros), colocando a empresa entre as tecnológicas privadas mais valiosas da China e ajudando a sustentar a dimensão da fortuna atribuída ao fundador.
A DeepSeek não está, no entanto, sozinha nesta tentativa de encurtar a distância para empresas norte-americanas como a OpenAI e a Anthropic. A corrida envolve cada vez mais empresas chinesas. Em julho, a Moonshot AI apresentou o Kimi K3, que classificou como o maior modelo de inteligência artificial de código aberto até à data. A empresa afirmou que o modelo alcança 2,8 biliões de parâmetros, uma medida da dimensão e complexidade de um modelo durante o treino. O número supera os 1,6 biliões de parâmetros atribuídos ao DeepSeek V4 Pro e os 744 mil milhões da série GLM-5, da também chinesa Zhipu AI.





