Morreu Ruy Octávio Matos de Carvalho, uma das figuras fundadoras e mais importantes do setor segurador português moderno, aos 94 anos. Foi o primeiro presidente da Associação Portuguesa de Seguros (APS), que mais tarde viria a adotar a designação de Associação Portuguesa de Seguradores, permanecendo no cargo durante 14 anos, entre 1982 e 1997. Atualmente, era Presidente Honorário da APS.

Quem foi Ruy de Carvalho?
Nasceu no Porto, em 1932, numa família com fortes ligações ao setor segurador. Licenciou-se em Finanças pelo ISCEF (antecessor do atual ISEG) e, antes de liderar a APS, foi presidente do Instituto Nacional de Seguros (INS) entre 1979 e 1982, a entidade pública responsável pelo setor.
A 12 de agosto de 1982, foi formalmente constituída a APS, com 20 companhias fundadoras. A primeira reunião da direção, a 1 de outubro, foi presidida por Ruy de Carvalho, que liderou a associação até 1997, quando lhe sucedeu António Reis.
Integrou ainda os órgãos diretivos e consultivos de instituições como a OCDE e o Comité Européen des Assurances (CEA), antecessor da atual Insurance Europe. Ocupou a vice-presidência do Conselho de Administração do BPI e desempenhou funções diretivas em entidades de relevo como a EFACEC, o Fórum dos Administradores de Empresas, o Instituto Nacional de Administração e a Câmara de Comércio Internacional – Delegação Nacional Portuguesa. Participou ainda no Conselho para o Sistema Financeiro e no Conselho do Mercado de Valores Mobiliários.
Uma figura importante na transição dos seguros portugueses
Ruy de Carvalho esteve dos dois lados da relação entre Estado e seguradoras. Primeiro, como presidente do Instituto Nacional de Seguros (1979-1982), esteve ligado à reorganização e supervisão pública do setor. Depois, em 1982, tornou-se o primeiro presidente da associação que passou a representar as seguradoras perante o Estado e os restantes stakeholders.
Isto aconteceu numa altura de transformação: depois das nacionalizações de 1975, o setor tinha ficado concentrado em oito seguradoras públicas. A criação da APS, em 1982, acompanhou então a reconstrução de um setor segurador organizado e, posteriormente, a sua abertura progressiva à iniciativa privada e à concorrência europeia.
O seu trabalho foi reconhecido
O seu papel no desenvolvimento económico do país valeu-lhe duas das mais altas distinções do Estado Português:
- Grande-Oficial da Ordem do Mérito Agrícola, Comercial e Industrial, atribuída a 8 de março de 1996 pelo Presidente Mário Soares.
- Grã-Cruz da mesma Ordem, concedida a 18 de maio de 2006, pelo Presidente Jorge Sampaio.
Também se dedicou à preservação da história dos seguros em Portugal. A 19 de outubro de 2016, numa parceria entre a APS e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, publicou duas obras de referência:
- “Uma Breve História do Seguro – Dos antecedentes ao final do século XVII”, que relata as primeiras formas rudimentares de mutualidade e do risco, analisando a génese dos contratos comerciais nas cidades italianas, a expansão marítima europeia e o impacto da matemática no rigor do cálculo atuarial moderno.
- “O Seguro em Portugal – Factos e Histórias 1974-2007”, que retrata factos como, por exemplo, as consequências do 25 de abril, o impacto da descolonização nas seguradoras, os processos de fusão e privatização, e a adaptação das companhias nacionais às exigências da então designada CEE, a Comunidade Económica Europeia.
Ruy de Carvalho faleceu na noite de 18 para 19 de agosto. O velório realiza-se em Lisboa, na Basílica da Estrela, esta quinta feira, dia 20 de agosto, entre as 17h e as 22h. Na sexta feira de manhã haverá missa seguida do funeral.





